ivulgada na última quinta-feira, a nova pesquisa Mentor Inteligência sobre as eleições para a Prefeitura de Belém 2024 revela um cenário de incertezas. Entrevistando 800 eleitores em todos os distritos da capital, a coleta mostra um avanço, em vias de consolidação, do campo da direita-extrema direita, que se identifica com o nome do deputado Éder Mauro, postado confortavelmente na dianteira em todos os cenários.

Embora Éder Mauro exiba uma robusta
rejeição, seu ponto de partida autoriza que a sirene de alerta seja ligada no
Palácio dos Despachos e nos demais campos que com ele disputam o comando
político em Belém. Na margem direita, a pesquisa indica ainda a vitalidade de
Everaldo Eguchi, possivelmente resgatando o recall da eleição
de 2020, quando foi o oponente que quase Edmilson Rodrigues não superou no
segundo turno.
No campo da chamada centro-esquerda,
ou centro democrático, ganha destaque o nome de Úrsula Vidal, secretária de
Cultura do Estado. Essa tendência já havia sido indicada pela sondagem da
Paraná Pesquisas de junho de 2023 e por duas pesquisas anteriores do próprio
instituto Mentor.
Os números não mentem
Foram três os cenários pesquisados, tentando agregar neles todos os espectros política e nomes que têm sido citados como postulantes por seus respectivos partidos, eliminando-se aventureiros em busca do fundo eleitoral ou de quinze minutos de fama e nomes que já declinaram da disputa.
A pergunta “em que você não votaria de jeito nenhum”, que mede a rejeição média, indicou que o mais rejeitado nesse instante é o prefeito Edmilson Rodrigues, com 47,5%, seguido pelo deputado Éder Mauro, com 18,4%, Everaldo Eguchi, com 6,7%, Zeca Pirão, 6,3% e o senador Beto Faro, com 6,0%. Úrsula Vidal tem rejeição residual, de apenas 1,2%.

Silêncio obsequioso
Enquanto o desenho tático da direita
se consolida, no campo político ligado ao governador Helder Barbalho reina o
vazio. Na esteira do silêncio obsequioso do governador e da indefinição sobre
quem irá receber o apoio do maior eleitor do Estado, vários nomes fracionam as
atenções dos institutos de pesquisa, as articulações de bastidores e, claro, as
intenções de votos.
Afora José Priante, experiente em
disputas majoritárias, guardião de recall desses embates e
sempre pontuando nas sondagens pelo MDB, apenas Ursula Vidal demonstra
consistência, pesquisa após pesquisa. Considerando que Edmilson Rodrigues, do
Psol, tem feito um relevante trabalho contra si mesmo à frente da prefeitura, é
possível intuir que parte do eleitorado progressista e de centro-esquerda tenha
encontrado na guardiã da Cultura de Helder um abrigo seguro, embora ela própria
jamais tenha se apresentado como pré-candidata.
“Essa é uma decisão que cabe ao
governador e ao partido”, desconversa a secretária quando indagada.
Habitués dos
corredores palacianos, conhecedores dos hábitos políticos do governador
apostam, no entanto, que Helder “promoverá uma rinha de galos, colocando vários
candidatos no terreiro para ver quem sobrevive e vai ao segundo-turno”.
Essa é esperança de Igor Normando,
primo do governador, dublê de deputado e secretário, que controla uma
gigantesca máquina caça-votos, a Secretaria Estratégica de Articulação da
Cidadania, gestora das UsiPaz - estruturas multiuso espalhadas pela capital e
pelo Estado que oferecem mais de 80 serviços gratuitos, disponibilizados pelos
órgãos e entidades parceiras para a população carente.
Sem partido, após perder o Podemos,
que foi entregue ao senador Zequinha Marinho, Igor Normando já tentou articular
sua ida para o PT, se acercou do PSDB e agora namora o MDB. Independente da
legenda, Normando aceita ser “um dos candidatos” da base governista. Mas o
cenário de avanço da direita e a consolidação de nomes do campo adversário desautorizam
a dispersão.
Voto que vale a eleição?
Voto mais valioso e principal cabo
eleitoral no pleito municipal, Helder Barbalho tem a envergadura de um
estadista. Sua influência como gestor vai além dos limites do Estado e o
projeta como porta-voz da Amazônia, garantindo a ele um nível de hegemonia política
que poucos ou ninguém alcançou no Pará. Essa relevância leva muitos a
dizer que a candidatura que receber o apoio do governador é, de antemão, a com
maior potencial de vitória.
O trabalho de construção da imagem de
Helder desde a eleição de 2018 e a eficiência com que ele comanda sua gestão e
se impõe como ator político local, regional e nacional, tudo isso o tem
colocado em evidência fluorescente, ao ponto de hoje ser citado para a sucessão
presidencial, seja como candidato do MDB, seja como vice do presidente Lula, em
2026.
Uma das joias de sua coroa de
conquistas políticas é a COP30, evento de envergadura global que o governador
conseguiu, com sua boa interlocução junto a Lula, trazer para Belém, em 2025.
Obras e ações relacionadas à COP30 mudarão a face da cidade e deixarão um
legado extraordinário. Mas quem herdará esse legado?
Uma pedra no caminho
Aí, neste ponto da trama, surge um
ponto de imprevisibilidade no caminho de rosas e glórias de Helder. Justo na
capital, a pequena oposição ao governador cresce e aparece com real
possibilidade de arrebatar o controle da máquina municipal.
Se perder o controle ou a influência
sobre a maioria das prefeituras, e especialmente da capital, Barbalho sairá do
ano eleitoral menor para a disputa de sua própria sucessão.
Perder Belém, portanto, é um preço
que Helder não pode se dar ao luxo de pagar. As eleições se aproximam e uma
pergunta paira: por qual razão Helder não aponta seu candidato?
Com o capim na hélice de Igor
Normando, que o impede de decolar, a escolha numericamente indicada, segundo as
pesquisas Mentor e Paraná, seria Ursula Vidal, a secretária de Cultura. Com boa
reputação, trabalho relevante na pasta da Cultura e presença forte nas pautas
indígenas, ambientais e identitárias e vinda da agenda da sustentabilidade,
Úrsula é um nome com ampla afinidade com os temas os quais a COP 30 irá inundar
o imaginário da cidade.
Com a base dispersa à espera de um
comando, construir do zero uma candidatura, enquanto o bolsonarismo prepara o
assalto ao poder, seria viável? Mesmo para quem tem um capital político
superavitário como Helder, tentar operar um milagre seria um risco.
Independente da decisão que tomar - que pode passar por tentar ressuscitar
Edmilson -, lançar chapa própria do MDB ou atrair o PT para uma composição,
desconsiderar as pesquisas seria fatal.
No pleito da capital, as incertezas e
os silêncios vão ficando no campo do governador. E podem comprometer o futuro.