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O VOTO E O EQUILIBRISTA

Daniel desafia a polarização e vê centro encolher na eleição no Pará

Entre Barbalhos e PL, ex-prefeito de Ananindeua tenta ampliar espaços sem romper com base conservadora; estratégia reduz sua margem de manobra.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 05/07/26 09:00
Daniel desafia a polarização e vê centro encolher na eleição no Pará
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candidatura de Daniel Santos transformou-se num exercício permanente de equilíbrio. Médico de formação e político de perfil moderado, o ex-prefeito de Ananindeua tenta ocupar um espaço que a política brasileira passou a tratar como território hostil: o centro. É justamente esse terreno, onde historicamente se constroem as maiorias, que vem sendo comprimido pela polarização nacional.

 

Pesquisas mostram candidato em patamar que não garante conforto, além do que escolhas políticas sugerem uma travessia perigosa até as eleições/Fotos: Divulgação.

No Pará, essa disputa assume contornos próprios. Daniel não pertence ao núcleo tradicional de poder representado pela família Barbalho, tampouco se identifica com o discurso mais ideológico da direita que gravita em torno do PL. Para permanecer competitivo, acabou sendo levado a caminhar entre esses dois polos, numa travessia em que cada movimento amplia oportunidades, mas também cria novas restrições.

Matemática de Belém

O desafio é menos ideológico do que eleitoral. Belém e a Região Metropolitana concentram cerca de 38% do eleitorado paraense. Desde a redemocratização, nenhum governador chegou ao Palácio dos Despachos sem desempenho competitivo nesse conjunto de municípios.

Foi a partir dessa leitura que Daniel buscou aproximação com nomes identificados com a centro-esquerda, como Lívia Noronha e Arnaldo Jordy, numa tentativa de ampliar seu alcance entre eleitores mais moderados da capital e da região metropolitana. O movimento faz sentido sob o ponto de vista eleitoral, mas abriu uma frente de desgaste dentro do próprio campo político que hoje sustenta sua candidatura.

A conta do apoio

Setores mais ideológicos do PL interpretaram essa aproximação como um sinal de afastamento da agenda conservadora. Mais do que divergência programática, passou a existir uma disputa sobre os limites políticos da candidatura.

Nesse ambiente, cresce a pressão para que Daniel delimite com clareza o espaço que pretende ocupar, evitando interlocução com quadros identificados à esquerda. O debate deixa de ser apenas eleitoral e passa a envolver a própria autonomia do candidato na condução da campanha.

O apoio recebido de setores do agronegócio e de lideranças ligadas ao PL fortalece sua presença em regiões importantes do interior, especialmente no sul e sudeste do Estado. Ao mesmo tempo, aumenta a percepção de dependência política de uma estrutura sobre a qual Daniel não exerce controle pleno. Como costuma ocorrer em alianças desse porte, apoio também gera compromissos e expectativas.

Centro sob pressão

É justamente aí que surge o principal dilema da candidatura. Quanto mais Daniel Santos procura ampliar seu diálogo com eleitores de centro e centro-esquerda na Região Metropolitana, maior tende a ser o desconforto entre os segmentos mais conservadores que compõem sua base. Por outro lado, se recuar desse movimento para preservar a unidade interna, corre o risco de limitar seu potencial de crescimento onde a eleição costuma ser decidida.

O resultado é um espaço de manobra cada vez mais estreito para um candidato que, desde o início, procurou construir uma imagem de moderação. Caso alcance o governo, essa equação poderá continuar presente. Afinal, alianças eleitorais costumam produzir cobranças permanentes durante o exercício do poder, especialmente quando são decisivas para a vitória.

Escolha do eleitor

Nesse contexto, o eleitor também se vê diante de uma escolha complexa. De um lado está o grupo político liderado pela família Barbalho, protagonista da administração estadual nos últimos anos. De outro, um bloco oposicionista que ganha musculatura eleitoral e política sob liderança do PL e de aliados, com discurso mais alinhado à direita nacional.

O espaço originalmente ocupado por Daniel - o de uma candidatura de centro capaz de dialogar com campos distintos - torna-se cada vez mais difícil de preservar à medida que a campanha avança.

Essa dificuldade é agravada por outro fator: até aqui, o debate político permanece concentrado nas alianças e nos movimentos eleitorais, enquanto a apresentação de um projeto consistente de governo ainda ocupa papel secundário.

Travessia do equilíbrio

Belém continua sendo o grande termômetro da disputa. Os levantamentos divulgados até aqui indicam Daniel próximo de um patamar que, isoladamente, ainda não lhe garante competitividade suficiente para vencer a eleição estadual. Crescer na capital e na Região Metropolitana parece condição indispensável para ampliar suas chances.

É justamente nesse ponto que sua estratégia encontra o maior obstáculo. Cada aproximação com o eleitorado de centro amplia as possibilidades de crescimento, mas também provoca reações dentro da própria coalizão que o sustenta. O equilibrista segue caminhando sobre uma corda cada vez mais estreita. De um lado está o grupo político que domina o Estado há anos; do outro, uma oposição que busca construir uma nova hegemonia. A principal incógnita da campanha talvez seja justamente essa: saber se Daniel conseguirá preservar autonomia suficiente para apresentar um projeto próprio ou se acabará absorvido pela lógica da polarização que, desde o início, procurou evitar.

Papo Reto

O último tucano de alta plumagem acaba de deixar o poleiro. A saída de Nilson Pinto (foto) do Ideflor, oficialmente tratada como mudança administrativa, tem cheiro de faxina política. 

•As ações do Gaeco forneceram o argumento conveniente para Hana Ghassan e Helder Barbalho encerrarem de vez a convivência com um dos últimos remanescentes do PSDB de Almir Gabriel e Simão Jatene. 

De quebra, enfraquece a pretendida candidatura de Lena Ribeiro à Câmara Federal e consolida Igor Normando como principal referência do tucanato paraense. 

•Almir, onde estiver, talvez custe a acreditar que o partido terminou nas mãos dos antigos adversários.

Um detalhe chamativo: motorista foi punido por trafegar a 44 km/h - velocidade considerada, após a tolerância - em um trecho cujo limite era 40 km/h. Ou seja, 4 km/h acima do permitido bastaram para manter a multa, segundo a decisão da Jari. 

•Pense: quatro quilômetros por hora foi o bastante para o Detran manter uma multa aplicada na Alça Viária, enquanto buracos, sinalização precária e estradas abandonadas seguem sem solução. Em processos administrativos, o tempo também pesa na avaliação da razoabilidade.

O radar continua demonstrando que, quando o assunto é arrecadar, não há margem para tolerância.

•O parecer que recomenda penalidade à servidora chama atenção por um detalhe difícil de ignorar: a suposta infração é de 2022 e só agora, quatro anos depois, recebeu manifestação conclusiva. 

A pergunta é inevitável: qual a utilidade prática de uma conclusão que chega quatro anos depois dos fatos? Em certos casos, o calendário acaba sendo mais eloquente que o próprio processo.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.