No País em que até livro se recusa a ocupar “criado mudo”, ala expôs erro estratégico da esquerda: subestimar a força identitária da família e da fé.
Carnaval sempre dialogou com o poder. Da crítica social ao elogio explícito, a Sapucaí nunca foi neutra. O desfile da Acadêmicos de Niterói, ao homenagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seguiu essa tradição.

O ponto de inflexão não foi a homenagem em si, mas uma ala que ironizava o que chamou de “neoconservadores”, representados por uma família estilizada dentro de uma lata. A metáfora pretendia sugerir atraso, conservadorismo embalado, valores fora de época. Na avenida, pode ter parecido apenas mais um recurso carnavalesco, mas, fora dela, ganhou outra dimensão.
A reação foi instantânea. O que nasceu como sátira passou a circular como símbolo afirmado por milhares de pessoas nas redes sociais. Parlamentares e lideranças religiosas entraram na conversa. O assunto ultrapassou o universo do samba e entrou no território eleitoral.
Há um padrão recorrente nesse tipo de episódio: no Brasil, setores da esquerda cultural tratam certos valores - família tradicional, fé cristã, moral conservadora - como se fossem posições de nicho. No entanto, para milhões de brasileiros, esses elementos são experiências cotidianas, não bandeiras ideológicas. E quando a crítica atinge uma identidade vivida, o efeito pode ser inverso ao pretendido.
O carnaval tem licença histórica para provocar. Joãosinho Trinta já defendia que desfile é espetáculo, exagero e narrativa. Mas narrativa também é política. E política envolve cálculo. Em ano eleitoral, qualquer símbolo pode ser apropriado. A política contemporânea opera por imagens simples, replicáveis e emocionalmente carregadas. Às vezes, um objeto comunica mais do que um programa partidário inteiro.
A direita brasileira atravessa fase de dispersão, especialmente após a inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Falta unidade de nome, sobra fragmentação de projetos. Contudo, identidades coletivas não dependem exclusivamente de líderes. Família, fé e tradição formam um eixo que antecede candidaturas. Quando esses símbolos são percebidos como atacados, a tendência é gerar coesão. É nesse ponto que o episódio do desfile pode ganhar relevância maior do que parecia à primeira vista.
Existe ainda uma desconexão frequente entre o ambiente cultural urbano e o eleitor médio do interior. O que soa como crítica sofisticada em certos círculos pode ser interpretado como desprezo em outros. A política brasileira tem histórico recente de subestimar essa diferença. Em 2018, por exemplo, ela foi decisiva, continuou relevante em 2022, mas, este ano, dificilmente será irrelevante.
Ao transformar um modelo de família em caricatura, a escola pretendia provocar reflexão ou riso. O resultado prático foi reacender uma identidade que já vinha fragmentada. Nenhuma campanha cria coesão do nada, mas episódios simbólicos ajudam a consolidá-la.
O desfile incluiu referências a Alexandre de Moraes, ao próprio Bolsonaro e a episódios recentes da política nacional. Foi, sem dúvida, um espetáculo com lados. A questão não é se pode. Pode. A liberdade artística garante isso. A pergunta relevante é outra: foi estrategicamente inteligente?
O carnaval termina na quarta-feira e a política continua até outubro e além. Quando manifestações culturais passam a dialogar diretamente com disputas eleitorais, deixam de ser apenas entretenimento. Tornam-se peças de um jogo maior.
A Acadêmicos de Niterói entrou na avenida para homenagear. Saiu dela tendo provocado um debate sobre identidade, respeito e cálculo político, inclusive para seu principal protagonista, o presidente Lula e, na era dos símbolos instantâneos, às vezes o que parece apenas fantasia vira ferramenta – e ferramenta sem uso, enferruja.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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