Motoristas acusam governo de bancar cobrança até 3 vezes mais caro no Estado Brasil reage à onda de feminicídio, mas Pará ainda expõe fracasso da prevenção TJ impõe derrota e sepulta tentativa de salvar direitos de Raimundo Oliveira

Depois do Dia da Mulher do Pastor, expectativa fica pela criação do "Dia de São Nunca" no Pará

Proposta do deputado Josué Paiva causa frisson até entre evangélicos, em meio a intervenções da própria congregação que querem seus pastores fora da política.

  • 1125 Visualizações
  • 08/07/25 10:20

Pastor e deputado Josué Paiva, que protagonizou cena bizarra ano passado, e o pastor Osiel Gomes, ao mandar um recado aos religiosos no Pará/Fotos: Divulgação-Redes Sociais.


O


calendário oficial do Estado do Pará acaba de ganhar, apesar da polêmica anunciada, mais uma data extremamente festiva, graças aos bons préstimos dos nobres deputados estaduais acatando, por assim dizer, proposição do colega deles, o deputado e pastor de alta cepa Josué Paiva, líder do partido Republicanos na douta Casa. É o “Dia da Mulher do Pastor” - genericamente, não o dia da mulher dele, fique claro desde já.

O deputado Josué Paiva - perdão -, o pastor Josué Paiva é um religioso bastante conhecido nos meios evangélicos nos quatro cantos do Pará. Ano passado, ele protagonizou, em pleno púlpito, durante um encontro da Convenção Paraense das Assembleias de Deus, a Comieadepa, em Ananindeua, uma das cenas mais bizarras que já se viu pelos olhos dos fiéis da igreja, reagindo ao conselho do também pastor Aldery Nelson Rocha, de 62 anos de idade, membro da Assembleia de Deus: “... E no dia que você aprender que o culto é do Senhor, você nunca vai tirar uma selfie na hora do culto”. Foi o bastante para Josué soprar suas trombetas e chacoalhar violentamente os muros de Jericó, no caso, da congregação religiosa.

Conteúdo relacionado
Deputado Josué Paiva agride pastor em pleno culto por criticar o "uso do povo na política"


A voz do pastor 

Nos últimos meses, a Congregação que reúne as igrejas evangélicas tem sido sacudida por escândalos no Pará, alguns envolvendo religiosos que enveredaram ou apenas prestam apoio a políticos. Recentemente, o respeitado pastor Osiel Gomes se insurgiu contra esse viés na congregação e mandou um duro recado aos seus pares: “Abandonem a política!”  Nos parlamentos, porém, os “ouvidos de marcador” se estabelecem e progridem, como é o caso do pastor Josué Paiva.

Da parte do governo do Estado, a Comieadepa ganhou seu primeiro museu, ao celebrar 103 anos, e foi reconhecida como patrimônio cultural de natureza material e Imaterial do Pará, com a aprovação de projeto do deputado Raimundo Santos. Em parceria com o governo do Estado, a congregação desenvolve projetos sociais e cursos de formação técnica, além da participação em ações relacionadas à COP30. 

Uma Belém provinciana

Seria leviano dizer que há certas coisas que só acontecem na provinciana Belém do Pará, mas, convenhamos, nobres deputados, se “nem Jesus Cristo conseguiu agradar a todos”, segundo Romanos 15:3-6, satisfaz desagradar a todos, como acusam as redes sociais? Ou seria “a falta do que fazer”, como sugerem outros? Conforta saber que é remissão de pena.  

O fato é que acontece cada coisa em Belém capaz até de fazer o prefeito de Sucupira, Odorico Paraguaçu, revirar-se no túmulo depois de tanto ansiar por um cemitério para inaugurar e chamar de seu. Nessa linha também entra o deputado Lu Ogawa, do MDB, que tentou fazer da expressão “Bora Trabalhar”, usada pelo empresário Oscar Rodrigues e pelo governador Helder Barbalho, patrimônio cultural de natureza imaterial do Pará.  

Mulher, feminino, plural

Não foi sem espanto que o distinto público se deparou, ontem, com a edição do Diário Oficial do Estado trazendo a publicação do Projeto de Lei 97/2025, do deputado Josué Paiva, sancionado pelo governador Helder Barbalho, a Lei 11.069/2025. Alguns deputados e poucos evangélicos se divertiram; as redes sociais entraram em ebulição.

A lei agora faz parte do Calendário Oficial do Estado do Pará e garante à mulher, além do próprio dia dedicado a ela, o Dia das Mães, o Dia da Mulher Evangélica e o que mais for de direito por sua natureza feminina e plural. A proposta obteve pareceres favoráveis dos deputados Martinho Carmona, do MDB, pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular desde 1979, na Comissão de Constituição e Justiça e Redação Final, e do deputado Erick Monteiro, do PSDB, na Comissão de Cultura. 

Quem paga a conta 

Ao justificar a proposta, o deputado Josué Paiva se refere a “uma forma de reconhecer e valorizar a importância do papel das esposas dos pastores nas comunidades religiosas”. O dia escolhido para a homenagem é o primeiro domingo de março. Segundo a lei, a programação para esse dia é de responsabilidade “das igrejas evangélicas e convenções eclesiásticas estabelecidas no Pará”. Ainda bem: temia-se que o inusitado pudesse exigir do erário os recursos para oferecer à “mulher do pastor” a justa e digna homenagem que merece pelo, “muitas vezes de forma silenciosa e discreta, apoio incondicional a seus maridos, contribuindo significativamente para o fortalecimento e crescimento espiritual das igrejas para onde o pastor é destacado para a obra do Senhor Deus”.  

Nas redes sociais

As redes sociais em Belém “caíram matando” a nova lei. Muitos começaram a perguntar quando seria criado o “Dia da amante do pastor” - pano rápido! -, ou o Dia da Esposa do Pai de Santo? Afinal, quando se fala em religião, o Estado é laico.

Um post mostra o print do decreto do governador com a legenda: “Alguém me confirma, porque estou achando que é fake”, ao que foi retrucada: “E não vai ter feriado para a mulher do padre?” 

Outro comentário: “Se for verdade, é inacreditável e vergonhoso. Vou querer o Dia da Mulher do Padre, da Mulher do Pai de Santo, da Mulher do Capiroto”. 

“Meu irmão, sou evangélico, mas o que isso agrega à política paraense, diante de tantas demandas gritantes? Outro dia, foi o projeto de um vereador de Belém que reconheceu o Wesley Safadão como paraense”.  

Contando nos dedos

Da parte da coluna - recorrendo ao ditado segundo o qual “tudo que está ruim tende a ficar pior” -, a expectativa fica por conta da criação do Dia de São Nunca, que, pelo visto, não está ameaçado de não acontecer nunca coisa nenhuma; nem mesmo à tarde.   

Papo Reto

•O sucesso da visita anual da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré ao Rio de Janeiro e o empenho do cardeal do Rio de Janeiro, Dom Orani, em acompanhar a Imagem em todas as paróquias, em especial as da periferia da capital carioca, conquistou os integrantes da Diretoria da Festa e da Guarda de Nazaré.

Eles avaliam que, ao invés de apenas três dias, a visita se estenda por uma semana, no ano que vem. E estão convencidos de que D. Orani (foto) aceitaria a missão facilmente.

•Na catedral do Rio de Janeiro, está uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré, com o único manto dos usados no Círio que não está em Belém. 

Imagem e manto foram doados a D. Orani quando ele foi transferido de Belém para o Rio de Janeiro. A imagem fica em uma berlinda ao lado da imagem de São Sebastião, padroeiro da capital carioca.

•Veja só: A Polícia Científica fez uma perícia de danos ao patrimônio no Parque da Cidade de Belém, atendendo à solicitação da Polícia Civil do Pará. 

Por um momento - mas apenas por um momento -, a coluna se permitiu pensar que a perícia tratava de danos ao erário, dada à qualidade duvidosa da obra, segundo dizem nos quatro cantos da cidade.

•O Conselho Nacional de Justiça decidiu proibir cartórios de exigirem validade ou atualização de procurações para a realização de atos notariais e registrais, exceto quando houver fundamentação legal específica. 

A decisão, que tem abrangência nacional, beneficia especialmente advogados que frequentemente enfrentavam essa barreira burocrática.

•O CNJ também determinou que a decisão seja comunicada a todos os tribunais de Justiça do País, garantindo que os serviços notariais e de registro sigam as diretrizes nacionais estabelecidas pelo Código Nacional de Normas do Foro Extrajudicial da Corregedoria Nacional de Justiça, que não admite exigências sem respaldo legal.

Mais matérias OLAVO DUTRA

img
Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.