Operação anunciada por Washington, com ataques e a alegada captura de Nicolás Maduro, provoca reação em cadeia na América Latina e recoloca a soberania como teste político do século
A confirmação, por autoridades dos Estados Unidos, de uma operação militar em território venezuelano marca um ponto de inflexão na já deteriorada relação entre Washington e Caracas - e vai além de um episódio bilateral. Ao admitir ataques e a captura do presidente Nicolás Maduro, o governo americano reposiciona a crise venezuelana no centro da geopolítica global, com efeitos imediatos sobre a estabilidade regional e o próprio sistema multilateral.
Relatos de explosões em Caracas e em outras regiões do país circularam desde as primeiras horas do sábado, acompanhados do anúncio oficial feito pelo presidente Donald Trump. Segundo a Casa Branca, a ação teria como objetivo “neutralizar ameaças à segurança hemisférica”. Do lado venezuelano, a resposta foi imediata: decreto de estado de emergência, denúncia de agressão estrangeira e acionamento do Conselho de Segurança da ONU.
Soberania em debate
O fato novo não está apenas na operação em si, mas na forma como ela foi apresentada ao mundo. Ao assumir publicamente uma intervenção direta - sem mandato internacional conhecido -, os Estados Unidos tensionam princípios básicos da Carta das Nações Unidas e reabrem um debate que parecia restrito a livros de história: até onde vai o poder das grandes potências diante da soberania formal dos Estados nacionais?
Na América Latina, as reações foram rápidas e majoritariamente críticas. O presidente Lula classificou a ação como uma linha “inaceitável” cruzada por Washington, defendendo uma resposta institucional no âmbito da ONU. Colômbia e Chile expressaram preocupação com os riscos humanitários e com a possibilidade de novo fluxo migratório. A Argentina, sob Javier Milei, destoou ao manifestar apoio à operação, evidenciando o racha político regional diante do episódio.
Tom de cada um
Na Europa, o tom foi de cautela. A União Europeia pediu moderação e respeito ao direito internacional, enquanto governos como o do Reino Unido fizeram questão de frisar que não participaram da ação. Espanha e Itália acenaram com a necessidade de mediação diplomática. Já Rússia, Irã e Cuba reagiram com dureza, classificando a operação como agressão armada e prometendo levar o caso às últimas instâncias internacionais.
O episódio expõe, mais uma vez, a fragilidade do sistema multilateral diante de ações unilaterais de força. O Conselho de Segurança da ONU, travado por vetos cruzados, dificilmente produzirá uma resposta prática à altura da crise. Ainda assim, o debate público sobre legalidade, precedentes e riscos globais está lançado - e não se encerra com comunicados oficiais.
Regras, que regras?
No plano interno venezuelano, a situação permanece nebulosa. Não há confirmação independente sobre as condições de Maduro nem sobre o grau de controle efetivo do Estado após os ataques. O vácuo de informações alimenta especulações e amplia a instabilidade, num país já marcado por colapso econômico, crise social e isolamento diplomático.
Mais do que um movimento militar, a ação americana recoloca uma pergunta incômoda na mesa internacional: em um mundo que se diz regido por regras, quem decide quando elas deixam de valer? A resposta, como quase sempre, não virá dos discursos - mas das consequências. E elas, ao que tudo indica, ainda estão só começando.
Foto: Agência Brasil
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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