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Feira provisória vira espaço permanente e precário na Pedreira, em obras há dois anos

Estimada em R$ 16 milhões, obra começou em junho de 2022 com prazo de 24 meses para entrega; segue inacabada e passa a ser um retrato fiel do descaso público.

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  • 09/08/25 11:00
Feira provisória vira espaço permanente e precário na Pedreira, em obras há dois anos
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mproviso, insalubridade e abandono. Essas são as marcas da Feira Provisória da Pedreira, que há mais de dois anos ocupa parte da avenida Pedro Miranda, em Belém, com cara de espaço permanente. O espaço, criado como solução temporária para abrigar feirantes e permissionários durante as obras de reforma do complexo e do mercado da Pedreira, é um autêntico retrato da negligência do poder público.

 

A reclamação geral: obra segue à base de altos e baixos e não tem prazo de entrega, apesar de estar cerca e 80% concluída/Fotos: Divulgação.

O que era provisório virou permanente - e sobretudo, precário. Às vésperas da COP30, evento climático de escala global que colocará Belém sob os holofotes internacionais, a situação da feira escancara a contradição entre o discurso oficial e a realidade enfrentada por quem vive do trabalho diário nas ruas.

As obras, iniciadas em junho de 2022, com prazo de 24 meses, somam mais de R$ 16 milhões em investimentos. No entanto, o que se vê é um canteiro de obras inacabadas, promessas não cumpridas e trabalhadores submetidos a condições indignas. Sem previsão concreta de entrega, a Prefeitura de Belém mantém os feirantes em um espaço improvisado, sem estrutura, segurança ou salubridade mínimas.

No Dia de São Nunca 

Sem uma definição concreta de prazo para a entrega das obras, os feirantes seguem trabalhando em condições precárias. É o caso de Mari Helena, que há 38 anos trabalha no setor de alimentação do complexo da Pedreira. “Já se passou mais de dois anos desde que a obra começou e seguimos trabalhando em condições precárias. A segurança também é um problema. Temos apenas um vigia para cuidar de tudo, e ele não dá conta. Nossos boxes são abertos, e isso facilita a entrada de bichos e sujeira. Quem trabalha com comida precisa de um ambiente limpo e seguro, mas não temos estrutura para isso”, reclama.

Mari Helena lembra, ainda, que o complexo chegou a ser entregue na gestão anterior da prefeitura, mas de forma incompleta. “O complexo está cerca de 80% pronto, mas ainda falta muita coisa. Falta energia elétrica em alguns blocos, portas em alguns boxes, telhado com problemas e várias estruturas ficaram mal acabadas. A gente quer trabalhar, quer dignidade. Só pedimos que a prefeitura olhe com mais atenção para a nossa situação e entregue o Complexo da Pedreira nas condições que foram prometidas”, reforça. 

Antes do Círio, diz que

Já a feirante Iolene Belém, que trabalha na feira há 20 anos, afirma que a nova gestão da prefeitura informou que os dois espaços serão entregues antes do Círio de Nazaré, que acontece em Belém sempre no segundo domingo de outubro. “Mas a gente acompanha de perto e vê que não é tão simples. Já trocaram de empresa várias vezes, e as obras ficam paradas por dias. Às vezes, aparece gente trabalhando, depois some de novo. É difícil acreditar que tudo vai estar pronto a tempo.

A feirante reforça ainda que a mudança precisa ser feita de forma coletiva. “Não dá para colocar uma parte dos feirantes lá dentro e deixar o restante na rua. Ainda falta concluir a parte da feira-mãe, que é o mercado antigo da Pedreira, e esse é o principal motivo pelo qual seguimos do lado de fora. A gente quer voltar a trabalhar com dignidade, num espaço seguro e estruturado. Mas precisamos que a prefeitura cumpra o que prometeu e entregue os dois espaços com todas as condições necessárias para que possamos exercer nosso trabalho com respeito e qualidade”, destacou. 

Freguesia e trânsito

A insatisfação não se limita aos trabalhadores. Clientes que frequentam o espaço também sentem os impactos da precariedade. É o caso de Dona Celeste, moradora do bairro há mais de 30 anos. “A gente vem aqui porque precisa, mas é difícil. Tem calor, sujeira, e os boxes estão abertos, sem proteção. Quem compra comida quer higiene, quer segurança. E os feirantes estão se virando como podem. É revoltante ver que tanto dinheiro foi investido e até agora nada foi entregue de verdade”, critica.

Motoristas que precisam acessar a avenida Pedro Miranda também enfrentam dificuldades diárias. Seu Jorge Rodrigues, motorista de aplicativo, reclama: “Esse trecho virou um caos. O trânsito fica travado, não tem sinalização, e com a feira ocupando a via, tudo piora. Já vi acidente aqui por causa da confusão. E agora com a COP30 chegando, parece que estão maquiando a cidade, mas esquecendo de resolver o básico.” 

Enquanto a cidade se prepara para receber líderes mundiais e representantes de dezenas de países, os trabalhadores da Feira da Pedreira seguem invisíveis, ignorados por uma gestão que parece mais preocupada com a fachada do que com o conteúdo. A COP30 poderia ser uma oportunidade de mostrar avanços reais - mas, por enquanto, o que se vê é mais uma vitrine de promessas vazias.

A coluna pediu esclarecimentos da Prefeitura de Belém, mas não obteve resposta.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.