Com saída obrigatória do cargo, governador inicia rearranjo administrativo para acomodar aliados, preparar a sucessão e organizar o tabuleiro proporcional.
contagem regressiva começou. Depois de dois mandatos consecutivos e índices de aprovação considerados confortáveis, o governador Helder Barbalho já opera sob o relógio eleitoral. Para disputar o Senado, precisará deixar o cargo até abril, seis meses antes da eleição. O prazo ainda parece distante, mas, na lógica da política, já começou a correr.

A transição, no entanto, não se resume a uma formalidade
jurídica. Ela envolve decisões estratégicas que impactam diretamente o futuro
do governo, a sucessão estadual e o desempenho da base aliada nas disputas
proporcionais.
A eventual passagem do governo para as mãos da vice-governadora Hana Ghassan é tratada como dado administrativo, mas, politicamente, o cenário é mais complexo. Diferentemente de Helder, que chega ao fim do segundo mandato com capital político consolidado, Hana ainda precisará construir densidade eleitoral própria.
No atual desenho do tabuleiro, ela tem “muito chão pela frente”. Isso significa que, além de governar, precisará se apresentar ao eleitorado como candidata viável ao Palácio do Governo - missão que exigirá empenho direto do próprio Helder, caso sua candidatura ao Senado se confirme, como hoje se desenha. A força eleitoral do governador é dada como líquida e certa. A da sucessora, ainda não.
É nesse contexto que a chamada dança das cadeiras ganha relevância. Longe de ser apenas ajuste administrativo, a reformulação do secretariado atende a uma lógica clássica de fim de ciclo: liberar auxiliares para disputar mandatos, acomodar aliados estratégicos e evitar conflitos internos na base.
Sem grandes “elefantes na sala” nas disputas para a Câmara Federal e a Assembleia Legislativa, Helder busca organizar o jogo antes que ele se imponha de forma desordenada. A saída de secretários com potencial eleitoral abre espaço para novos nomes e sinaliza prioridades políticas do governo na reta final do mandato. Mas há um detalhe: algumas mudanças de auxiliares não têm ligação direta com o pleito e obedecem a critérios que só o governador poderia explicar.
A preocupação central não está apenas na sucessão ao governo, mas no desempenho da base nas eleições proporcionais. Bancadas fortes em Brasília e na Assembleia Legislativa são peças-chave tanto para sustentar o legado da atual gestão quanto para dar musculatura a um eventual novo governo liderado pelo mesmo grupo político.
Nesse sentido, o rearranjo do secretariado funciona como vitrine e trampolim. Cargos estratégicos ajudam a projetar nomes, enquanto substituições permitem renovar alianças e ajustar pesos internos.
O desafio de Helder é conhecido de quem já passou por situação semelhante: governar até o último dia e, ao mesmo tempo, preparar o terreno eleitoral. Um erro de cálculo pode comprometer a transição; excesso de foco na eleição pode afetar a imagem administrativa.
Por isso, as mudanças tendem a ser graduais, calculadas e, sempre que possível, justificadas por critérios técnicos. O discurso é de continuidade. A prática é de reorganização.

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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