Psol perde força, paga o preço da crise em Belém e vira uma incógnita política Helder preserva o Senado, mas perde o governo do Pará;o que deu errado? Ovnis, corpos e doze naves. O que afinal os governos dos EUA escondem do mundo?
ECO DAS URNAS

Helder preserva o Senado, mas perde o governo do Pará;o que deu errado?

Ao montar sucessão, o ex-governador manteve-se no centro do jogo, mas não conseguiu eleger Hana; Daniel Santos rompeu o roteiro.

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  • Por Olavo Dutra
  • 18/10/26 09:00
Helder preserva o Senado, mas perde o governo do Pará;o que deu errado?
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elder Barbalho fez o bolo, escolheu os ingredientes e acompanhou o preparo. Na hora de colocar a cereja, porém, alguma coisa deu errado. Garantiu o próprio mandato de senador, mas não conseguiu eleger Hana Ghassan para sucedê-lo no governo do Pará. A máquina era poderosa, a estrutura estava montada e a continuidade parecia ser o caminho natural. As urnas contaram outra história.

 

Na mitologia, Eco conservou a voz, mas perdeu a fala. Drama de Hana não estava em não ter voz, mas não poder fazê-la inteiramente sua/Fotos: Arquivo.

Há uma passagem da mitologia grega que ajuda a entender o enredo. Eco era uma ninfa condenada a repetir as últimas palavras de outras pessoas. Em uma das versões mais conhecidas, Hera impôs-lhe o castigo depois de descobrir que ela a distraía com conversas enquanto Zeus se envolvia em suas aventuras. Eco conservou a voz, mas perdeu a capacidade de conduzir a própria fala. O drama não estava em não ter voz. Estava em não conseguir fazê-la inteiramente sua.

Na política paraense, a imagem tem endereço e circunstância. Não se trata de transformar Helder em Narciso, personagem apaixonado pela própria imagem, nem de reduzir Hana a uma Eco sem vontade. A mitologia serve para iluminar uma contradição: o político que se acostuma a ocupar o centro da cena pode ter dificuldade para reconhecer que a sucessão exige o deslocamento do protagonista.

Sombra do antecessor

Hana assumiu o governo com a missão de dar continuidade à administração de Helder. Até aí, nada de extraordinário. Sucessores herdam obras, compromissos, alianças e também os passivos de quem os antecedeu. O problema começa quando a continuidade administrativa não se converte em liderança política própria.

Helder deixou o governo para disputar o Senado, preservou sua força eleitoral e continuou como referência dominante do grupo. Hana, por sua vez, precisava ser percebida como mais do que a candidata da continuidade: precisava convencer o eleitor de que tinha identidade, comando e capacidade para conduzir o Estado por conta própria.

Aí mora o paradoxo. Quanto mais um padrinho procura assegurar o controle da sucessão, maior pode ser a dificuldade de a sucessora demonstrar autonomia. Não é necessário supor que Helder tenha deliberadamente impedido Hana de construir seu próprio caminho. Basta reconhecer que a presença política do antecessor pode ter ocupado um espaço que a candidata precisava preencher.

A derrota não prova, por si só, que esse foi o fator decisivo, mas obriga o grupo a examinar a hipótese. Helder venceu a disputa pelo Senado; Hana perdeu o governo. A diferença entre os resultados é grande demais para ser tratada como simples acidente eleitoral.

Narciso no espelho

Narciso, na mitologia, ficou preso à própria imagem. Na política, o narcisismo não precisa aparecer como vaidade ostensiva. Pode manifestar-se na dificuldade de sair de cena, na crença de que a própria influência continuará organizando tudo ao redor e na tentação de confundir a força pessoal do líder com a capacidade de transferir essa força a outra pessoa.

É nesse sentido, e somente nele, que a imagem interessa à eleição paraense. Helder construiu um grupo poderoso, acumulou capital político e preservou espaço próprio. Mas a sucessão impunha outra tarefa: permitir que Hana deixasse de ser apenas a continuidade de um governo para se apresentar como a liderança de um novo mandato.

A máquina que ajudou a construir a candidatura não conseguiu garantir o resultado. E esse é o ponto que merece atenção: influência não se transfere automaticamente, alianças não votam sozinhas e a força do padrinho não substitui a identificação do eleitor com quem pretende governar.

Senhor Coragem

Do outro lado estava Daniel Santos. Para parte do eleitorado, seu nome não carregava o mesmo peso político acumulado por Helder e pelo grupo governista. Entrou, ainda assim, numa disputa desigual em estrutura, capilaridade e presença institucional e teve coragem de enfrentar a máquina - e venceu.

Coragem não significa ausência de cálculo, muito menos dispensa a análise das circunstâncias que favoreceram sua candidatura. A vitória de Daniel precisa ser examinada também à luz dos desgastes do governo, da capacidade de reunir forças contrárias ao grupo dominante e da disposição do eleitor para experimentar uma alternativa.

Seria simplista atribuir tudo à dificuldade de Hana para construir protagonismo, mas seria igualmente equivocado ignorar o recado das urnas: a estrutura governista não conseguiu transformar sua vantagem política em continuidade no poder.

Daniel rompeu o roteiro que parecia mais provável. Agora, a dimensão dessa mudança dependerá da capacidade de transformar a vitória eleitoral em governo, decisões e resultados. Ganhar a eleição é uma coisa; governar o Pará é outra.

A voz e o poder

A eleição deixa uma lição que vai além dos personagens. Transferir votos não é o mesmo que transferir liderança. Um padrinho pode ajudar a eleger aliados, conservar influência e conquistar o próprio mandato. Não pode fabricar por decreto a autonomia política de quem pretende sucedê-lo.  Talvez Helder tenha preservado a própria voz e subestimado a necessidade de Hana encontrar a sua. Se essa hipótese resistir ao exame da campanha, a derrota terá sido mais do que um revés eleitoral da governadora. Será também o limite de um projeto que procurou assegurar a continuidade sem conseguir fazer da sucessora a protagonista que a disputa exigia.

Na mitologia, Eco foi condenada a repetir a voz alheia. Na política, ninguém precisa receber esse castigo dos deuses, mas quem não consegue afirmar a própria voz corre o risco de ser ouvido apenas como continuação de alguém.

Papo Reto

•Com uma equipe de transição em campo, o governo eleito do Pará ainda não teve tempo de espichar os olhos para os latifúndios que estão se formando a partir das áreas antes destinadas à produção de dendê. A região é controlada pelo Iterpa, dirigido por Bruno Kono (foto). 

•Nessa região, segundo dados obtidos junto a fontes do Iterpa, já há proprietários de terras com até quatro quilômetros de extensão em beira de estrada – ainda que as áreas estejam flagrantemente superpostas, conforme os livros oficiais. 

•Um comentário publicado nas redes sociais faz acusações graves envolvendo gente muito grande e empresas ligadas ao setor de dendê no Pará. 

•O autor diz ter produzido 35 vídeos e documentos e afirma que os mantém sob guarda de cinco pessoas, como uma espécie de “seguro” contra eventuais represálias.

•Acusações são de responsabilidade de quem publicou e precisam ser verificadas por PF, MPF e Justiça. Mas, diante da gravidade, também não dá para fingir que não foi dito.

• Levantamento de entidades ligadas à defesa do jornalismo registrou 14.182 ataques a profissionais e veículos de imprensa no X e no Instagram, com foco nas eleições, entre 16 de agosto e 4 de outubro. 

•Foram analisados 3,7 milhões de conteúdos digitais pelo Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo, em colaboração com a Coalizão em Defesa do Jornalismo, que reúne dez organizações, como Abraji, Fenaj e Repórteres Sem Fronteiras.

•No primeiro turno da eleição geral, cerca de 90 mil eleitores não compareceram às urnas nos 17 municípios marajoaras. São muitas pessoas que, por algum motivo, não participaram desse momento democrático. 


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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.