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Saúde pública

Levantamento mostra que bets já tiraram R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras

O valor que as famílias perderam com as plataformas de apostas esportivas em 2025 equivale a dois quintos do Bolsa Família e supera o PIB de quatro Estados

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  • Da Redação | Estadão conteúdo
  • 16/08/26 11:00
Levantamento mostra que bets já tiraram R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras

Brasília, DF - As famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões com bets (plataformas de apostas esportivas e cassinos online) em 2025. O número foi divulgado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados (Comsefaz) com base em dados do Banco Central.


Esses e outros dados projetam quanto os sites de apostas esportivas tiraram das famílias desde que entraram no dia a dia dos brasileiros, com propagandas na televisão, publicidade massiva na internet, patrocínios a grandes eventos esportivos e ainda numa uma zona cinzenta com escândalos de lavagem de dinheiro e crimes financeiros.


Os dados do Comsefaz são uma projeção com base nas transferências de Pix de pessoas físicas para empresas dos setores de artes, cultura, esporte e recreação. Com um modelo que projeta o efeito da entrada das bets, se fez uma projeção dos gastos das famílias com apostas online em 2025, primeiro ano de vigência da regulamentação no Brasil. O Pix é o principal meio de pagamento das apostas, já que não é mais permitido uso de cartão de crédito.


O volume de transferências de pessoas físicas para bets projetado em 2025 é de R$ 350,97 bilhões. Considerando as transferências líquidas, ou seja, a diferença do que pagam e do que recebem, o montante alcançou R$ 62,5 bilhões.


Isso representa 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias, o que, segundo os autores do estudo, é um volume considerável no consumo das famílias – o impacto do Bolsa Família, por exemplo, gira em torno de 0,50% do Produto Interno Bruto (PIB).


Os valores dispararam a partir de janeiro de 2025, justamente quando a regulamentação entrou em vigor, e tiveram uma leve queda em outubro, quando os benefícios do Bolsa Família foram proibidos de apostar. “Esse setor está drenando recursos das pessoas físicas”, disse Bruno Pereira, pesquisador do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, um dos autores do estudo.


O dinheiro perdido com bets em 2025 no Brasil representa quase 40% do valor pago para o Bolsa Família e mais da metade do Benefício de Prestação Continuada (BPC), repassado a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, no mesmo ano. As perdas superam os recursos públicos gastos com seguro desemprego, abono salarial, Pé-de-Meia e Auxílio Gás em 2025.


O montante supera o PIB de quatro Estados inteiros: Sergipe, Amapá, Acre e Roraima.


De janeiro a dezembro de 2025, 25,3 milhões de pessoas apostaram em plataformas de apostas esportivas no Brasil. O governo federal calculou 100,8 milhões de contas ativas em bets (um mesmo CPF pode ter mais de uma conta).


Mais de dois terços dos apostadores são homens. Mulheres representam 31,7% das contas que fizeram apostas. A maior quantidade de apostadores está concentrada na faixa etária de 31 a 40 anos, mas os números também são significativos e superam 20% nas faixas até 30 anos.


O comprometimento com bets ocorre em meio à alta no endividamento das famílias. Dados do Banco Central indicam que as dívidas já representam praticamente metade do que os brasileiros recebem, com sucessivos recordes, considerando valor atual das dívidas das famílias com o Sistema Financeiro Nacional e a renda das famílias acumulada nos últimos doze meses.


Só em agosto de 2024, 5 milhões de famílias beneficiárias do Bolsa Família gastaram R$ 3,2 bilhões em sites de apostas, de acordo com dados do Banco Central auditados pelo Tribunal de Contas da União.


Aproximadamente uma em cada duas pessoas do grupo (50,9%) gastou valores até R$ 100. O limite máximo dessa faixa pode ser considerado alto para uma família em situação vulnerável, pois corresponde a 20% do benefício base do Bolsa Família (R$ 600).


O Tribunal de Contas da União (TCU) estimou que R$ 162 milhões em recursos do Bolsa Família foram comprometidos com bets naquele mês. O tribunal adotou a premissa de que valores acima de R$ 600 não seriam provenientes do programa e que 85% dos recursos retornaram aos apostadores a título de prêmio.


A situação tem impactado setores da economia, como o varejo. Como mostrou o Estadão, projeções da Strategy& Brasil, consultoria estratégica da PwC, apontam para algo entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões por ano que deixam de ser gastos com bens e serviços e até mesmo poupados por causa das apostas online.


Foto: Alisson Sales

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.