Recomendação aponta conflito entre lei estadual e legislação federal, cobra transparência e ameaça recorrer à Justiça
ma recomendação expedida pelo Ministério Público do Pará pode abrir uma nova frente de questionamentos sobre a política de promoções da Polícia Militar. O documento, assinado pelo 2º Promotor de Justiça Militar, Ivanilson Paulo Corrêa Raiol, sustenta que parte da legislação estadual que disciplina a ascensão de oficiais e praças perdeu eficácia com a entrada em vigor da Lei Orgânica Nacional das PMs.

O documento revela que a Promotoria Militar instaurou procedimento administrativo para acompanhar as promoções na corporação após receber reiteradas reclamações de policiais sobre possíveis preterições e irregularidades. Segundo a recomendação, a análise dos almanaques da PM indicaria situações em que militares mais modernos são promovidos logo após cumprir o interstício, enquanto outros, mais antigos, permanecem anos aguardando ascensão funcional. Para o MP, esse cenário gera insegurança, desmotivação e pode afetar princípios essenciais da carreira militar, como a hierarquia e a disciplina.
Outro ponto sensível diz respeito à publicidade dos processos de promoção. O promotor recomenda que a Polícia Militar divulgue previamente as informações individuais dos candidatos avaliados, permitindo pedidos de esclarecimento e impugnações antes da conclusão do processo. A medida busca dar maior transparência aos critérios adotados e reduzir contestações administrativas e judiciais.
A recomendação também determina que o Comando-Geral encaminhe ao Ministério Público, até três dias após a publicação em boletim, o Quadro de Acesso dos oficiais, contendo a relação nominal dos militares contemplados para promoção.
O objetivo declarado é permitir fiscalização prévia da legalidade dos atos e, se necessário, adoção de medidas administrativas ou judiciais para impedir eventuais distorções antes da efetivação das promoções.
Embora a recomendação não suspenda automaticamente promoções, ela coloca o Estado diante de uma escolha delicada: manter o modelo previsto na legislação paraense e correr o risco de judicialização, ou adaptar imediatamente os procedimentos à Lei Orgânica Nacional.
Caso o entendimento do Ministério Público prevaleça, não está descartada a abertura de uma discussão sobre a validade dos critérios utilizados em promoções realizadas desde a entrada em vigor da Lei Federal nº 14.751, em dezembro de 2023.
A própria recomendação deixa claro que, em caso de descumprimento, o Ministério Público poderá ajuizar Ação Civil Pública para obrigar o cumprimento das medidas propostas.
A recomendação, por si só, não anula promoções nem altera automaticamente a legislação estadual. Mas representa um sinal inequívoco de que o Ministério Público Militar pretende exercer controle rigoroso sobre os próximos atos do Comando-Geral da PM. Se o governo insistir em aplicar critérios considerados incompatíveis com a lei federal, a disputa tende a migrar para o Judiciário - com potencial de produzir reflexos não apenas nas próximas promoções, mas também sobre a segurança jurídica de atos já praticados.

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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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