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SEGURANÇA PÚBLICA

No Brasil, efetivo não é gargalo, mas gestão policial, que distorce carreiras

País amplia capacidade de combate ao crime, mas modelo de gestão causa desigualdades salariais, déficit de investigação e um custo anual de R$ 230 bilhões.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 05/08/26 12:00
No Brasil, efetivo não é gargalo, mas gestão policial, que distorce carreiras
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Brasil nunca teve tantas pessoas atuando na segurança pública. Em 2025, o efetivo das polícias, bombeiros, perícias e guardas municipais chegou a 818.521 profissionais, crescimento de 2,8% em relação a 2023.

Estudo critica a ausência de regras sobre a atuação das polícias dentro do Sistema Único de Segurança Pública/Fotos: Ilustração.
À primeira vista, o dado poderia sugerir um reforço importante no combate à criminalidade. Mas o diagnóstico apresentado pelo “Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil – Relatório de Gestão e Panorama 2026” aponta justamente o contrário: o País continua preso a um modelo de gestão incapaz de transformar mais servidores em maior eficiência.

O documento sustenta que o principal gargalo da segurança pública brasileira deixou de ser apenas quantitativo. O problema passou a ser estrutural. As corporações convivem com carreiras desorganizadas, profundas desigualdades salariais, excesso de cargos de comando, déficit de investigadores e um sistema que consome cada vez mais recursos públicos sem conseguir estabelecer padrões nacionais mínimos de governança. O resultado é um sistema caro, fragmentado e pouco preparado para enfrentar uma criminalidade cada vez mais sofisticada.

Quando mais é menos

A principal expansão ocorreu justamente nas Guardas Municipais. Em apenas dois anos, elas cresceram 12,9%, passando de pouco mais de 95 mil para mais de 107 mil integrantes, tornando-se a segunda maior força de segurança pública do País, à frente das Polícias Civis. Esse avanço, porém, preocupa os pesquisadores.

O relatório afirma que não existe sequer um cadastro nacional confiável capaz de informar quantos guardas municipais efetivamente existem no Brasil. Também critica a ausência de regras claras sobre sua atuação dentro do Sistema Único de Segurança Pública, enquanto diversas corporações passaram a reproduzir estruturas e práticas típicas das polícias militares sem os mesmos mecanismos de fiscalização e controle.

Na direção oposta, justamente a Polícia Civil - responsável pela investigação de homicídios, corrupção, tráfico de drogas e organizações criminosas - continua funcionando com apenas 55,2% do efetivo previsto em lei.

Em outras palavras, o País amplia o policiamento ostensivo, mas mantém fragilizada a estrutura encarregada de esclarecer crimes.

Conta de R$ 230 bilhões

O levantamento mostra que a segurança pública brasileira movimenta aproximadamente R$ 230 bilhões por ano entre servidores ativos e aposentados. Grande parte dessa despesa decorre do crescimento contínuo dos inativos. Hoje são mais de 424 mil aposentados e pensionistas ligados às forças de segurança, grupo que representa pouco mais de um quinto dos inativos do Poder Executivo, mas consome mais de um terço de toda a massa salarial destinada aos aposentados.

Em algumas regiões, especialmente no Sudeste, os inativos correspondem a apenas 26% do pessoal, mas absorvem 41% das despesas com remuneração. Segundo o estudo, o impacto previdenciário passou a limitar investimentos em tecnologia, inteligência policial, equipamentos e modernização das corporações.

Mais chefes do que comandados

O que chama atenção

As polícias militares apresentam uma pirâmide hierárquica invertida.

Existem mais sargentos do que soldados: são 129.402 sargentos para 117.142 soldados. Nos Corpos de Bombeiros, a distorção também aparece: são 20.129 sargentos diante de apenas 14.615 soldados. Para os pesquisadores, isso revela um sistema em que promoções passaram a funcionar como mecanismo de valorização salarial, e não necessariamente como necessidade operacional.

Na prática, cresce o número de chefias sem que aumente, na mesma proporção, o contingente responsável pela atividade-fim.

O desafio amazônico

Embora o estudo trabalhe com médias nacionais, ele evidencia um problema que se torna ainda mais grave na Amazônia. A cobertura territorial continua sendo um dos maiores obstáculos à atuação das forças de segurança. Enquanto no Distrito Federal um policial militar pode ser responsável, em média, por apenas um quilômetro quadrado, no Amazonas essa área chega a 180 quilômetros quadrados.

Na Polícia Civil, a diferença é ainda maior: um investigador amazonense cobre, em média, 824 quilômetros quadrados. Nos Corpos de Bombeiros, um único profissional chega a responder por áreas superiores a mil quilômetros quadrados.

A realidade ajuda a compreender desafios enfrentados também pelo Pará, onde extensões territoriais gigantescas, municípios isolados, rios como principais vias de acesso e longas distâncias elevam custos, dificultam o policiamento e impõem uma logística muito diferente daquela encontrada nos grandes centros urbanos do Sul e Sudeste.

Mulheres são minoria

O levantamento também revela que a participação feminina continua baixa. Nas Polícias Militares, as mulheres representam apenas 13,3% do efetivo nacional. Nas Polícias Civis, chegam a 28,4%.

O relatório atribui essa desigualdade a barreiras culturais, limitações na infraestrutura das corporações e dificuldades de ascensão aos postos de comando, formando um "teto de vidro" que ainda restringe a presença feminina nas carreiras de segurança.

Onde mora o desafio

Ao final, o estudo faz uma crítica direta ao modelo brasileiro de segurança pública. Segundo os pesquisadores, o debate político continua concentrado na promessa de contratar mais policiais, quando o verdadeiro desafio está na reorganização das carreiras, na definição de padrões nacionais de governança, na redução das desigualdades entre os estados e na profissionalização da gestão.

A recomendação inclui a criação de pisos nacionais, regras uniformes de progressão funcional, maior integração entre as corporações e a substituição de policiais lotados em atividades administrativas por servidores civis, liberando profissionais treinados para o policiamento e a investigação.

A conclusão é contundente: o Brasil não enfrenta apenas uma crise de efetivo. Enfrenta, sobretudo, uma crise de modelo. Enquanto essa arquitetura permanecer inalterada, o aumento no número de policiais continuará produzindo um resultado cada vez mais conhecido pelos brasileiros: uma conta bilionária para o contribuinte e uma sensação de insegurança que insiste em permanecer.



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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.