Junto com a alta nas vendas, Estado registra aumento de condutores sem a habilitação correspondente.
Mais da metade dos proprietários de motos no Pará não possui habilitação; rede social mostra os abusos/Foto: Divulgação.
m janeiro de 2026, o Pará registrou o emplacamento de 12.094 novas motos - um aumento de 39,62% em relação ao mesmo período do ano anterior. Só em Belém, estão 2.025 desses veículos. Os números deixam o Pará acima da média nacional para o período, que foi de 17,49%.
O problema é que as motos trazem consigo, quase sempre, uma série de problemas que se tornam cada vez mais expostos dada a visibilidade garantida pelas redes sociais. Nos últimos meses, uma série de conflitos, brigas, infrações, absurdos e até mesmo tragédias têm invadido o cotidiano das timelines com eventos envolvendo as motos e seus condutores - os mal-educados.
Um dado revelado pelo Panorama Estatístico Brasileiro de Motocicletas, Motonetas e Ciclomotores da Secretaria Nacional de Trânsito explica parte desse cenário. No Pará, mais da metade - 51,3% - dos proprietários de motos não possuem CNH na categoria A, que permite conduzir esse tipo de veículo. Mais do que infringir a lei, trata-se de ir às ruas sem ter acesso ao conjunto educativo que normatiza o uso coletivo das vias e áreas adjacentes.
Um dos mais recorrentes absurdos tem sido a invasão das ciclovias e ciclofaixas pelas motos. Um problema que mistura falta de respeito com omissão dos órgãos de fiscalização já que agente de trânsito tem sido um personagem cada vez mais raros pelas ruas de Belém e cidades vizinhas.
Quem tenta denunciar o absurdo acaba sendo vítima dos infratores duas vezes. Em fevereiro passado, a pedestre Keise Pinheiro, de 36 anos, foi atropelada por uma motocicleta enquanto filmava condutores trafegando irregularmente na calçada e embaixo de um viaduto no cruzamento da Rodovia Mário Covas com a Independência. O caso ganhou repercussão em maio deste ano.
No início de maio, um ciclista foi agredido em Belém após filmar motociclistas trafegando ilegalmente em uma ciclofaixa na Independência. A agressão aconteceu depois de o infrator ser questionado sobre a irregularidade. O homem atacou a vítima ao passar pelo lado dela, com quem dividia, irregularmente, a ciclofaixa. As duas situações foram registradas em vídeo, mas nada aconteceu judicialmente porque a fuga é sempre a primeira opção após o ato covarde de agredir.
Dados da associação mostram que a venda de motocicletas no País em 2025 foi a maior registrada nos últimos 22 anos. Foram comercializadas 2.197.851 unidades no ano passado, uma alta de 17,1% em relação a 2024, quando o mercado registrou a venda de 1.876.427 unidades.
A mesma associação estima que a produção em 2026 deve ser ainda maior. A expectativa é que cerca de 2.070.000 motocicletas sejam vendidas no Brasil, registrando um volume 4,5% superior às 1.980.538 unidades fabricadas em 2025. E como habilitação não é um critério exigido para a compra de motos, a tendência é que o número de pessoas trafegando sem entender a lei de trânsito e reiterando absurdos cresça junto.
Também de acordo com o Panorama Estatístico Brasileiro de Motocicletas, Motonetas e Ciclomotores, no Pará, o número de motos ultrapassou o de carros em 2004. Do total de veículos registrados no Estado, 54,5% são de motos, que deixa o estado em 3º no ranking nacional, atrás apenas de Maranhão e Piauí.
Não à toa, o quantitativo de tragédias envolvendo esse tipo de veículo também segue em alta no Estado. Dos acidentes de trânsito registrados em 2024 em todo o território paraense, 58,7% tinham motocicletas envolvidas. Quando a pesquisa leva em conta sinistros com morte, esse percentual sobe para 69,2%.
Os órgãos de fiscalização e educação insistem nas campanhas, que não são poucas, diga-se de passagem, mas é difícil convencer quem entra na pista com espírito individualista e sem ter passado pelo necessário processo de treinamento teórico que a função exige. Enquanto isso, segue penando quem nada tem a ver com as omissões dos dois lados. Sobretudo no próprio trânsito.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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