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Petrobras escolhe Belém como base de apoio logístico e irrita população do Amapá

Capital paraense deverá concentrar apoio logístico à exploração na costa amapaense, mas Oiapoque cobra investimentos contra problemas urbanos agravados pela expectativa do petróleo.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 14/10/26 09:00
Petrobras escolhe Belém como base de apoio logístico e irrita população do Amapá
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Petrobras escolheu Belém como principal referência logística para apoiar as atividades de exploração de petróleo na costa do Amapá. O anúncio foi feito pela presidente da estatal, Magda Chambriard, na sexta-feira, 9 de outubro, dois dias antes do Círio de Nazaré, em uma coletiva que acabou dividindo espaço com a movimentação das redações para a cobertura da maior manifestação religiosa do Pará.

 

Anúncio da presidente da companhia incomoda setores amapaenses e moradores de Oiapoque, mas exploração de petróleo ainda é expectativa/Fotos: Arquivo

A decisão tem peso econômico para a capital paraense, que poderá concentrar serviços, armazenamento de materiais e estruturas de suporte às operações, mas a declaração também provocou questionamentos no Amapá, onde setores da população defendem que a expectativa de exploração petrolífera precisa produzir benefícios concretos para o território mais próximo das áreas pesquisadas.

“Belém é uma base de apoio importante para qualquer trabalho que a gente venha fazer e que nós já estamos fazendo no Amapá”, declarou Magda. Segundo a presidente, a capital paraense dispõe de estrutura mais desenvolvida do que Oiapoque para atender às necessidades logísticas da operação.

A escolha reforça a posição de Belém como centro regional de serviços, mas abre uma discussão sobre a distribuição dos investimentos e dos benefícios de uma atividade que, por enquanto, permanece na fase exploratória.

Ainda é promessa

A movimentação da Petrobras ganhou novo impulso em 2 de outubro, quando a companhia anunciou uma segunda ocorrência de petróleo no poço Morpho, localizado no bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas, a aproximadamente 175 quilômetros da costa do Amapá.

A descoberta ampliou as expectativas da estatal, mas não representa confirmação de reservas comercialmente exploráveis. A quantidade de petróleo recuperável, a produtividade dos reservatórios e a viabilidade econômica ainda dependem de novas perfurações e análises.

A Petrobras prevê concluir os trabalhos em Morpho até o final de outubro. Depois, a sonda deverá seguir para a Bacia Potiguar, no Rio Grande do Norte, onde será utilizada no poço exploratório Mãe de Ouro, antes de retornar à Margem Equatorial.

A companhia também planeja avançar em outras perfurações na região. O cronograma, porém, depende das autorizações ambientais e das avaliações técnicas aplicáveis a cada área.

No caso dos blocos situados na costa paraense, os estudos ainda precisam avançar e as perfurações dependem do licenciamento ambiental correspondente. Magda não apresentou estimativas sobre o volume de petróleo que poderá ser encontrado nessa parte da Margem Equatorial nem sobre sua eventual contribuição para a produção nacional.

A cautela tem razão de ser: encontrar petróleo em um poço não significa, automaticamente, dispor de reservas em quantidade e condições econômicas suficientes para sustentar uma operação comercial.

Um ganha, outro cobra

A declaração da presidente da Petrobras foi recebida com expectativa por setores econômicos paraenses, interessados na possibilidade de atrair investimentos, serviços especializados e empregos. No Amapá, porém, a perspectiva de concentração da estrutura de apoio em Belém alimentou críticas sobre o risco de a região mais próxima da exploração ficar com parte dos problemas e uma parcela menor das oportunidades.

Uma fonte ouvida em Macapá resumiu a insatisfação: “O que deu a entender é que a Petrobras só quer utilizar nossa riqueza em alto-mar, deixando sua base logística toda em Belém”.

A reclamação traduz uma disputa que vai além da localização das instalações. Envolve a capacidade de cada território de participar da cadeia de serviços, receber investimentos e preparar sua infraestrutura para uma eventual expansão da atividade petrolífera. O argumento amapaense é que o intervalo entre a fase de pesquisa e uma possível produção comercial poderia ser aproveitado para ampliar a estrutura de Oiapoque e de outros municípios da região. A Petrobras, por sua vez, considera que Belém reúne condições mais favoráveis para atender às operações.

A questão é saber se a centralização logística na capital paraense será acompanhada de medidas capazes de distribuir oportunidades econômicas e reduzir os impactos sobre as comunidades próximas à área de exploração.

Oiapoque sob pressão

A discussão ocorre em uma cidade que enfrenta problemas urbanos agravados pela expectativa de crescimento econômico associada ao petróleo. Reportagens publicadas pela imprensa nacional registraram aumento da pressão sobre moradia, expansão de ocupações irregulares e dificuldades de infraestrutura em Oiapoque, município que funciona como referência territorial para as operações marítimas.

O fluxo de pessoas atraídas pela perspectiva de emprego, somado à especulação imobiliária e à falta de ordenamento urbano, contribui para a expansão de áreas ocupadas e para o encarecimento de terrenos e aluguéis. A cidade já convive com limitações em saneamento, saúde e segurança, que podem se tornar mais difíceis de administrar diante de uma expansão populacional acelerada.

Esses problemas não devem ser atribuídos exclusivamente à Petrobras sem uma demonstração mais precisa das responsabilidades de cada agente. A relação entre a expectativa petrolífera, a migração e a ocupação do solo, entretanto, já constitui motivo de preocupação para moradores e autoridades locais.

A fonte ouvida em Macapá afirma que os efeitos negativos são especialmente visíveis em Oiapoque, onde o crescimento desordenado pressiona os serviços públicos. Também há preocupações de comunidades indígenas, pescadores e outros grupos tradicionais com os riscos ambientais de uma eventual expansão da atividade. A região abriga ecossistemas sensíveis e populações cuja subsistência depende da pesca, da caça e de outros recursos naturais.

O debate inclui ainda questionamentos sobre a consulta às comunidades tradicionais e sobre a abrangência dos estudos de impacto. Em setembro, o Ministério Público Federal pediu a suspensão da licença de perfuração no bloco FZA-M-59, alegando a necessidade de medidas adicionais relacionadas à consulta prévia e à proteção das populações afetadas. A Petrobras contestou a interpretação sobre a obrigatoriedade de consulta no licenciamento e afirmou ter promovido reuniões e atividades de diálogo com comunidades da região.

A conta regional

A Margem Equatorial se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte e compreende diferentes bacias sedimentares com potencial para exploração de petróleo e gás. Para a Petrobras, a região representa uma possibilidade de ampliar reservas e compensar, no futuro, o declínio da produção em campos maduros, inclusive no pré-sal. Mas a passagem da expectativa geológica para uma atividade comercial exige tempo, investimentos, licenciamento e comprovação de viabilidade econômica. Não há, neste momento, garantia de que as descobertas no Amapá resultarão em produção comercial nem de que os poços na costa paraense terão o mesmo resultado.

Para o Pará, a possibilidade de sediar serviços e estruturas de apoio representa uma oportunidade econômica. Para o Amapá, o desafio é assegurar que a proximidade com as áreas exploradas não se traduza apenas em pressão sobre cidades e comunidades.

A Petrobras ainda terá de demonstrar a viabilidade dos reservatórios e avançar no planejamento de uma eventual produção. Enquanto isso, governos estaduais e municipais precisam discutir infraestrutura, qualificação profissional, ordenamento urbano e proteção ambiental.

O petróleo ainda não virou riqueza comercial comprovada. A disputa sobre onde ficará a estrutura de apoio, porém, já começou. E a pergunta que interessa aos dois estados é a mesma: quando os investimentos chegarem, quem estará preparado para receber os benefícios - e quem terá de administrar os custos?

Papo Reto

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•A Polícia Federal negou a existência de depoimento de Vorcaro envolvendo repasses para o filme sobre Lula durante tratativas de delação premiada. A PGR também informou não ter recebido relato nesse sentido. 

•Citado na reportagem, Alexandre Padilha afirmou que "em nenhuma hipótese e sob nenhum pretexto" autorizou benefícios a Vorcaro quando comandava a Secretaria de Relações Institucionais. 

•O ministro Dario Durigan garante que zerar os impostos federais sobre a gasolina a 16 dias do segundo turno nada tem a ver com eleições. É por causa da guerra no Irã, explica. Curiosamente, a guerra já existia, o calendário eleitoral também, e o pacote foi ampliado justamente na reta final da disputa.

•Pode até ser necessidade econômica, mas, convenhamos, é uma coincidência de R$ 5,2 bilhões que merece muito mais explicações do que negativas ministeriais.

•A Comissão de Constituição e Justiça do Senado marcou a votação da PEC da Segurança para hoje, quarta-feira. O governo quer aprovação em plenário antes do segundo turno das eleições.

•Finalmente, o governo vai monitorar o grau de saturação dos portos brasileiros até 2030. A nova ferramenta, em construção, promete cruzar demanda e capacidade e acompanhar nível de serviço dos complexos portuários nacionais.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.