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MILÍCIAS DIGITAIS

Quando estilingue vira vidraça, debate remete a velhas prática da política

Em Belém, novas denúncias de ataques coordenados nas redes sociais remexem balaio de futricas que atravessam governos.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 16/06/26 08:00
Quando estilingue vira vidraça, debate remete a velhas prática da política
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dia seguinte: os ditados populares costumam sobreviver ao tempo por uma razão simples: quase sempre se confirmam. “Nada como um dia após o outro” e “quem tem telhado de vidro não atira pedra no do vizinho” parecem adequados ao debate que volta à cena política paraense com a aproximação das eleições de 2026.

Vivi Reis alerta sobre ataques, que vêm atingindo jornalistas, mas aparecem na cena política desde a primeira gestão Edmilson Rodrigues/Fotos: Divulgação.
 O tema da vez são as chamadas “milícias digitais”, expressão que ganhou dimensão nacional a partir do inquérito conduzido no Supremo Tribunal Federal pelo ministro Alexandre de Moraes. A investigação busca identificar grupos organizados acusados de disseminar desinformação, atacar instituições e atuar contra o Estado Democrático de Direito. Inicialmente voltado à apuração de campanhas coordenadas de difamação, o procedimento incorporou posteriormente elementos relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023.

Denúncias em Belém

Em Belém, a vereadora Vivi Reis, do Psol, pré-candidata à Câmara Federal, afirma ser alvo de ataques promovidos por perfis falsos nas redes sociais. Segundo ela, as ações se intensificaram após a apresentação de projeto de lei propondo a instalação de pontos públicos de hidratação em áreas de grande circulação da capital.

A proposta surgiu depois que o padre Júlio Lancelotti, em visita ao prefeito Igor Normando, observou a ausência desses equipamentos, que poderiam atender especialmente a população em situação de rua. “Essa milícia digital não vai me intimidar. Mais uma vez, o meu perfil está sendo atacado por perfis falsos”, declarou a parlamentar.

Quem está por trás?

Vivi afirma perceber aumento dos ataques sempre que faz críticas ao governo do Estado ou à Prefeitura de Belém. Sem apontar responsáveis, a vereadora cobra investigação sobre a origem das ações. “Nós não sabemos ainda de onde vem esse ataque, mas queremos entender quem financia e organiza. Quem está por trás dessas milícias digitais?”, questionou.

Ataques à imprensa

A parlamentar também relaciona o problema a episódios envolvendo profissionais da imprensa e veículos independentes. Em abril, o jornalista Adriano Wilkson teve seu perfil no Instagram suspenso após publicar reportagem sobre contratos de shows da Fundação Cultural do Pará. Após mobilização pública e atuação jurídica, a conta foi restabelecida.

No mês seguinte, a jornalista Mari Tupiassu, do portal Amazônia No Ar, denunciou ações em massa contra suas redes sociais após divulgar vídeo crítico à redução da área do Parque Nacional do Jamanxim. Já o portal Tapajós de Fato informou ter tido sua conta oficial suspensa pela plataforma sem aviso prévio, permanecendo fora do ar enquanto busca recuperar o acesso.

Caso do Pará Online

Na segunda-feira, 15, o portal Estado do Pará Online também sofreu instabilidade após um ataque cibernético que o deixou temporariamente inacessível. Em publicação no blog As Falas da Pólis, o jornalista Diógenes Brandão informou que a ofensiva ocorreu cerca de uma hora após a divulgação de pesquisa eleitoral produzida pela Doxa e encomendada pela TVC Pará.

Segundo Brandão, existem indícios de que o ataque tenha partido de um grupo formado por profissionais de informática que passaram pelo setor de processamento de dados da Prefeitura de Ananindeua. O jornalista afirma ainda que o mesmo grupo atuaria na pré-campanha de um deputado estadual que busca a reeleição.

Métodos e ferramentas

A discussão, entretanto, não é exatamente nova. Muito antes das redes sociais dominarem a vida política, Belém já convivia com grupos informais de militância aguerrida. Nos governos de Edmilson Rodrigues na Prefeitura de Belém, entre 1997 e 2004, adversários políticos passaram a chamar de “milícia cabana” um grupo de apoiadores conhecido pela defesa intransigente da administração petista. Sem liderança formal ou estrutura declarada, seus integrantes atuavam em defesa do governo e, em alguns episódios, extrapolavam o debate político para confrontos verbais e até físicos.

Com o avanço das redes sociais e o retorno de Edmilson ao comando da prefeitura, em 2021, os papéis se inverteram. Integrantes de grupos que antes eram acusados de promover campanhas agressivas passaram a denunciar a existência de novas “milícias digitais”.

A tecnologia mudou e os métodos ganharam alcance instantâneo, mas a lógica parece permanecer a mesma: na política, quem hoje reclama da pedra muitas vezes esquece que ontem carregava o estilingue.

Papo Reto

A pré-candidatura de Charles Alcântara (foto) a deputado federal pelo PT provocou movimentação inesperada nos bastidores do partido no Pará. 

•Respeitado nos meios sindical, técnico e político, o ex-presidente da Fenafisco e auditor fiscal de carreira é visto por setores da militância como um nome capaz de qualificar a representação paraense em Brasília.

Nos corredores petistas, porém, a avaliação é que sua candidatura também mexe no delicado equilíbrio interno da legenda. 

•Há quem sustente que Alcântara teria maior viabilidade eleitoral numa disputa à Assembleia Legislativa, enquanto sua presença na chapa federal ampliaria o potencial de votos do partido e influenciaria a composição das forças internas.

A movimentação ganha contornos ainda mais sensíveis porque Charles é crítico da condução do PT paraense pelo senador Beto Faro. 

•Interlocutores do partido relatam divergências sobre prioridades eleitorais para 2026, especialmente em relação à pré-candidatura de Iury Faro à Câmara dos Deputados.

Apesar das especulações sobre resistências internas, aliados de Charles destacam seu trânsito junto à direção nacional petista e sua longa trajetória sindical e partidária, fatores que tornam sua pré-candidatura um elemento relevante na disputa pelos espaços de poder dentro da legenda.

•A polarização também foi convocada para a Copa. Levantamento do Congresso em Foco mostra que a direita e a centro-direita governam 25 dos 48 países classificados para o Mundial de 2026. 

A esquerda e a centro-esquerda aparecem com 13 seleções. Já os 10 restantes desafiam qualquer comentarista político: entre monarcas e autocratas, há quem nem dispute eleição, mas ainda assim chegue à Copa.

•O presidente Lula pediu mais garra e comprometimento da Seleção Brasileira antes da estreia na Copa. Em mensagem direcionada ao técnico Carlo Ancelotti, Lula afirmou que os jogadores devem atuar pensando no povo brasileiro e defendeu que a equipe jogue "com alma".


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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.