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CIÊNCIA QUEBRADA

Sob governo Trump, a fuga dos cérebros pode redesenhar a ciência no mundo

Crise provocada pelos cortes na ciência americana abre disputa internacional por pesquisadores e acende alerta para países que ainda tentam formar e reter talentos.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 13/08/26 17:00
Sob governo Trump, a fuga dos cérebros pode redesenhar a ciência no mundo
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ciência americana entrou no radar da economia mundial por uma razão pouco confortável para os Estados Unidos: está perdendo gente. E não pouca. Segundo levantamento citado pela revista Nature e repercutido na coluna Faria Lima News, da VEJA Negócios, cerca de 25 mil cientistas e profissionais de pesquisa deixaram seus cargos desde o início do segundo mandato de Donald Trump.

Sondagem aponta que 75% dos pesquisadores pretendem deixar o país por falta de apoio à ciência/Fotos: Divulgação-Veja.
O movimento ocorre em meio a uma ofensiva orçamentária que inclui o cancelamento ou congelamento de mais de 7.800 bolsas e projetos e uma proposta de redução de 35% no orçamento federal destinado à ciência. Em uma sondagem com pesquisadores, 75% disseram considerar deixar o país. Não é apenas uma crise de laboratório. É uma questão econômica e estratégica.

Cérebro também migra

Durante décadas, os Estados Unidos construíram parte de sua superioridade tecnológica justamente pela capacidade de atrair os melhores pesquisadores do planeta. Universidades, centros de pesquisa, empresas e agências federais formaram uma engrenagem que ajudou a produzir avanços em áreas como medicina, computação, energia, engenharia e biotecnologia. Agora, essa engrenagem começa a perder peças. E talento científico não fica necessariamente desempregado por muito tempo. Europa e outros mercados já enxergam a oportunidade de receber pesquisadores altamente qualificados, muitos deles formados ou aperfeiçoados com dinheiro público americano.

É aí que a história deixa de ser exclusivamente americana. Cada pesquisador que cruza uma fronteira leva conhecimento, experiência, redes de colaboração e capacidade de formar novos pesquisadores. País que perde cérebros perde mais do que trabalhadores. Perde tempo.

O efeito dominó

A ciência tem uma característica que a diferencia de muitos outros investimentos públicos: seus resultados podem aparecer décadas depois. Cortar hoje uma bolsa de doutorado, interromper um laboratório ou cancelar uma linha de pesquisa não significa apenas economizar dinheiro neste ano. Pode significar deixar de produzir uma tecnologia daqui a dez ou vinte anos.

É por isso que a disputa contemporânea entre Estados Unidos, China e Europa não é somente comercial ou militar. É também uma disputa por universidades, laboratórios, pesquisadores, patentes e conhecimento.

Quem conseguir concentrar os melhores cérebros terá vantagem na próxima geração tecnológica.

E o caso do Brasil?

O episódio americano também deveria servir de alerta por aqui. O Brasil ainda convive com dificuldades históricas para formar, financiar e, principalmente, reter pesquisadores. 

Para o Pará, a discussão ganha dimensão ainda maior. A Amazônia reúne alguns dos maiores desafios científicos do planeta - biodiversidade, novas moléculas, doenças tropicais, energia, recursos naturais, mudanças ambientais, agricultura e tecnologias adaptadas à floresta. Mas, transformar esse patrimônio em conhecimento exige pesquisadores - e pesquisadores não vivem apenas de discurso sobre a importância da ciência; precisam de financiamento estável, laboratórios funcionando, bolsas, infraestrutura e perspectiva profissional.

A ironia é que, enquanto os Estados Unidos correm o risco de expulsar parte dos cérebros que ajudaram a construir sua liderança científica, países como o Brasil continuam assistindo à saída de seus próprios talentos em busca de melhores condições.

A guerra pelo conhecimento já começou. E ela não será vencida necessariamente por quem tiver mais universidades, mais dinheiro ou mais laboratórios. Será vencida por quem conseguir convencer os melhores cérebros a ficar.

E, nesse campeonato, cérebro também é ativo econômico. Quem manda embora pode descobrir tarde demais que não existe orçamento capaz de comprar de volta o tempo perdido.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.