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POLÍTICA REATIVA

Sobre chuvas e alagamentos na Grande Belém: o "Cisne negro" não escolhe lados

“Que a tragédia sirva ao menos para o eleitor lembrar que gestão pública não se resume a selfies, sorrisos em palanques”.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 27/04/26 08:00

Para além da natureza dos desastres, não se deve mais admitir políticos desastrosos, irresponsáveis e ineficazes/Fotos: Divulgação.


A


s águas que castigaram Belém nas últimas semanas não foram apenas torrenciais; foram reveladoras. O volume histórico que se abateu sobre a capital paraense, alagando ruas, destruindo casas e arrastando pertences de famílias inteiras expôs com violência aquilo que muitos já sabiam, mas poucos queriam enfrentar: a Região Metropolitana de Belém, incluindo Ananindeua e Marituba, está irremediavelmente despreparada para o que o clima já decidiu entregar.

O conceito de “Cisne negro”, desenvolvido por Nassim Taleb, aplica-se perfeitamente ao que se vivencia neste período - mas com uma distorção perigosa. Para Taleb, cisnes negros são eventos raros, imprevisíveis e de impacto catastrófico. No entanto, as enchentes em Belém não são mais raras - nem imprevisíveis. Os modelos climáticos já apontavam há anos para a intensificação das chuvas na Amazônia Oriental. O que falta não é informação, mas vontade política.

Falta o dever de casa

O que se presencia na Região Metropolitana de Belém, portanto, se não foi exatamente um cisne negro, foi um cisne cinzento - um evento previsível, anunciado e aguardado que se transforma em tragédia porque as prefeituras de Belém, Ananindeua e Marituba simplesmente não fizeram o dever de casa. E aqui não se trata de apontar um gestor ou outro, ou um lado do outro de uma disputa de narrativas que já cansou.

Trata-se de um padrão sistêmico de ineficiência que atravessa gestões, partidos e décadas.

Aplicando o modelo de múltiplos fluxos de John Kingdon ao caso paraense, vê-se claramente como o fluxo de problemas - as enchentes recorrentes - e o fluxo de soluções - planos de drenagem, contenção de encostas, desassoreamento de canais - jamais se encontram com o fluxo político - justamente porque a política local prefere apagar incêndios a afiar machados. 

Os “empreendedores” de que fala Kingdom, aqueles atores com capacidade de articular e integrar os fluxos, simplesmente não existem nessas prefeituras porque os quadros que as integram não são escolhidos com base em aparato técnico, mas de compadrio político. Ou, quando existem, são atropelados pela lógica do muddling through - o “ir levando” incrementalista tão bem descrito por Charles Lindblom.

Cruel, mas previsível

O resultado está nas imagens que circularam o País inteiro: famílias sobre lajes, móveis boiando, crianças sendo resgatadas em botes improvisados. Em Marituba, bairros inteiros viraram lagos. Em Ananindeua, a infraestrutura urbana - já precária em dias normais - simplesmente colapsou. E em Belém, a capital que sediou a COP30 em 2025, as ruas do entorno do centro de convenções ficaram submersas. A ironia é tão cruel quanto previsível.

Todos lembram: após a tragédia da Boate Kiss, em Porto Alegre, leis foram aprovadas. Tardiamente. Após mortes. Essa é a lógica do “estilo reativo” de política pública: só se age quando o corpo já está na mesa.

Na Região Metropolitana de Belém a população tem que contabilizar mortes por falta de draguem de canais? Até que se limpem os bueiros? Até que o lixo deixe de ser empurrado para baixo do tapete? Quantas famílias desabrigadas para que Ananindeua apresente um plano de macrodrenagem? Quantos prejuízos para que Marituba pare de autorizar loteamentos em áreas de várzea?

O asfalto pelo voto 

O problema, contudo, é mais profundo do que a incompetência técnica - embora ela seja monumental: trata-se de politicagem. A mesma politicagem que transforma obras de infraestrutura em cabos eleitorais; que troca asfalto por voto; que enterra projetos de longo prazo sob a urgência falsa da próxima eleição. As prefeituras não agem porque agir preventivamente não dá voto. Dar voto é distribuir cesta básica na enchente. Dar voto é aparecer de bote no Jornal Nacional. Dar voto é inaugurar meia dúzia de bloquetes depois da tragédia.

Enquanto isso, o “Cisne negro” - ou cinzento - segue voando sobre a Amazônia. E não virá sozinho. A ciência é clara: eventos extremos serão mais frequentes e mais intensos. A pergunta não é se outra tempestade como as das últimas semanas voltará a desabar sobre Belém. A pergunta é se, quando ela desabar de novo, os gestores terão feito algo além de esperar - e filmar?

Equilíbrio pontuado

Alguns desastres podem ser naturais, mas não se deve mais naturalizar políticos desastrosos, irresponsáveis e ineficazes. Que a tempestade sobre Belém sirva, enfim, como a pontuação necessária na Teoria do Equilíbrio Pontuado - o choque que interrompe o longo período de estabilidade da incompetência e força a mudança. Ou então, que sirva ao menos para que o eleitor lembre, na próxima urna, que gestão pública não se resume a sorriso em palanque. Resume-se a não deixar que a chuva leve embora o que as famílias levaram uma vida para construir.

Porque o “Cisne negro”, quando pousa, não faz distinção entre eleitor de situação e de oposição. Ele alaga a casa de todos. 

Papo Reto

·Faltam cadeiras para os pacientes e acompanhantes no recém-inaugurado Caps Júlia Seffer. Ao reunir pacientes do Paar, Curuçambá, Maguari e outros bairros do município, o então prefeito Daniel Santos (foto) centralizou o atendimento no Julia Seffer, bairro de difícil acesso por transportes públicos.

·No Tribunal de Justiça do Pará, foi novamente adiado o julgamento do IRDR que discute a base de cálculo do piso do magistério - se apenas vencimento-base ou base somada à GNS.

·Nova data: dia 29. O tema segue sensível, com efeito direto na folha e na segurança jurídica das carreiras.

·A fala da desembargadora Eva do Amaral, comparando eventual perda de penduricalhos a “situação de escravidão”, dominou o noticiário por horas e gerou reação negativa.

·O episódio reacende o debate sobre remuneração no Judiciário e comunicação institucional em tempos de escrutínio permanente.

·Entre trocas na gestão, pressão por serviços, ruídos nas redes e temas sensíveis no Judiciário, a semana reforça um ponto: percepção pública virou ativo central. E ela muda rápido.

·Dados da Transparência Brasil mostram o Pará na 7ª posição em subsídio médio bruto mensal do Judiciário na Amazônia Legal (R$ 66,5 mil).

·O Maranhão lidera com R$ 120,3 mil. São médias sem benefícios extras, o que mantém a discussão sobre a diferença entre subsídio e remuneração total.

·Levantamento aponta crescimento expressivo de apreensões de dinheiro em espécie pela Polícia Federal entre 2022 e 2025.

·O total saltou de R$ 125 milhões para R$ 4,4 bilhões - valores corrigidos. O Rio de Janeiro aparece em terceiro lugar (R$ 29 milhões), atrás de São Paulo (R$ 57 milhões) e Rio Grande do Sul (R$ 32 milhões).

·Especialistas ponderam: o avanço pode refletir maior eficiência investigativa, não necessariamente aumento da criminalidade. No pano de fundo, operações de grande porte e investigações financeiras de alto impacto.


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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.