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ALARME FALSO

Uso excessivo de alertas de chuva em Belém transforma ferramenta em ruído

O problema vai ser quando o perigo for real; banalização do serviço pela prefeitura pode cobrar um preço muito alto durante um temporal de verdade.

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  • Da Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 20/06/26 11:00
Uso excessivo de alertas de chuva em Belém transforma ferramenta em ruído
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história é antiga. O menino gritava “lobo” todos os dias para assustar os moradores da vila. Quando o lobo apareceu de verdade, ninguém mais acreditou. A fábula atravessou séculos porque traduz um comportamento humano simples: a repetição exagerada de um alerta acaba destruindo sua credibilidade.

Mecanismo teria sido acionado pela Prefeitura de Belém com frequência superior à prevista originalmente/Fotos: Divulgação.
Em Belém, algo parecido parece estar acontecendo com os alarmes de chuvas intensas enviados aos celulares da população. Criado para situações excepcionais e de alto risco, o sistema de alertas tem origem em protocolos de prevenção de desastres desenvolvidos por especialistas em gestão de crises. A ferramenta foi concebida para comunicar ameaças relevantes e iminentes, capazes de colocar vidas em risco ou exigir medidas urgentes de proteção da população.

 Mas, segundo relatos de pessoas ligadas à concepção do serviço, o mecanismo teria sido acionado com frequência muito superior à prevista originalmente.

E tudo vira emergência

 A lógica de qualquer sistema de alerta é simples: ele deve ser reservado para momentos em que a informação precisa romper a rotina e chamar imediatamente a atenção do cidadão. Quando o telefone toca, vibra ou emite um aviso especial, a expectativa é que exista uma ameaça concreta e diferenciada. O problema surge quando o recurso passa a ser utilizado para eventos que a população considera comuns ou previsíveis.

 Belém é uma cidade acostumada à chuva. Temporais, alagamentos localizados e mudanças bruscas no tempo fazem parte da rotina amazônica. Isso não significa que os riscos devam ser ignorados, mas exige critério redobrado na emissão de alertas públicos.

 Segundo fontes envolvidas na estruturação do sistema, a insistência em disparar avisos diante de praticamente qualquer previsão de precipitação teria provocado um crescente desgaste da ferramenta.

 Efeito da banalização

 Especialistas em comunicação de risco costumam apontar um fenômeno conhecido: a fadiga de alerta. Quando as pessoas recebem avisos repetidos que não se convertem em consequências visíveis ou proporcionais, tendem a ignorar as mensagens seguintes. É exatamente o oposto do objetivo original.

 O cidadão passa a acreditar que o alerta é apenas mais um aviso burocrático. A mensagem perde a capacidade de mobilização. O som deixa de provocar atenção e passa a gerar irritação. O risco é evidente: no dia em que uma situação realmente extrema exigir resposta rápida da população, parte dos destinatários poderá simplesmente desconsiderar o aviso.

 Conta chega depois

 Nos bastidores, a insatisfação de técnicos que participaram da concepção do serviço é atribuída à percepção de que critérios originalmente rígidos teriam sido flexibilizados por pressões administrativas para ampliar os disparos. Se isso ocorreu, a consequência mais grave não é política nem burocrática. É operacional.

 Ferramentas de emergência vivem de credibilidade. Quando ela desaparece, o sistema continua funcionando, os celulares continuam tocando e as mensagens continuam chegando - mas a confiança coletiva já foi embora. E confiança, nesse caso, não é detalhe.

 É justamente o que separa um alerta capaz de salvar vidas de uma notificação qualquer perdida entre dezenas de mensagens do dia. Afinal, o velho conto continua atual: depois de muitos alarmes para chuvas comuns, o problema não será fazer o celular tocar; será convencer alguém a acreditar nele.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.