Operação do MP revela milhões movimentados enquanto comerciantes e até hospitais seguem sob ameaça e sem resposta efetiva do Estado
nquanto o Ministério Público do Pará e a Polícia Civil anunciam o desmonte de uma engrenagem milionária do crime organizado, nas ruas da Região Metropolitana de Belém e do interior do Estado, a realidade segue marcada pelo medo, pela extorsão e pela ausência de amparo imediato às vítimas.

Deflagrada em 24 de abril, a “Operação Babayaga” expôs o núcleo financeiro do Comando Vermelho no Pará, com a prisão de investigados apontados como operadores da facção e a identificação de uma movimentação estimada em R$ 57 milhões.
A ação, conduzida pelo Gaeco em conjunto com a Polícia Civil, mirou crimes como organização criminosa armada, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, evidenciando o grau de sofisticação e estrutura da facção no Pará.
Fora dos autos e das coletivas oficiais, o que se vê é outro é uma realidade ainda mais aterrorizante, com a expansão territorial e o controle cotidiano imposto pelo crime.
Em bairros de Belém, Ananindeua e Barcarena, comerciantes relatam uma rotina silenciosa de coação. A chamada “taxa do crime” virou regra informal. Quem paga, segue funcionando. Quem se recusa, entra na mira.
A ameaça não é abstrata, é direta, personalizada e, muitas vezes, imediata. Em Ananindeua, um proprietário de clínica popular relata que médicos e pacientes passaram a ser ameaçados por telefone.
Do outro lado da linha, criminosos se identificam como integrantes de facção e deixam o recado: ou a “taxa” é paga, ou o estabelecimento será incendiado. Casos como esse deixaram de ser exceção. Tornaram-se padrão.
Dados do estudo Cartografias da Violência na Amazônia 2024, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Mãe Crioula, apontam que o Comando Vermelho se consolidou como a principal facção atuante na capital paraense, e em cidades estratégicas da região metropolitana.
A contradição é evidente: de um lado, operações robustas, com inteligência, mandados judiciais e apreensões que revelam o fluxo financeiro do crime; de outro, uma população exposta, que denuncia - quando denuncia - sem garantias de proteção ou resposta rápida.
Embora a “Operação Babayaga” represente um avanço no enfrentamento estrutural às facções, atingindo o coração financeiro da organização, ela escancara também uma lacuna: a dificuldade do Estado em traduzir essas ações em segurança concreta no dia a dia de quem está na ponta.
O resultado é um cenário em que o crime organizado não apenas movimenta milhões, mas regula territórios, impõe cobranças e dita regras, enquanto comerciantes, empresários e até unidades de saúde operam sob ameaça constante. Entre o caixa bilionário das facções e o balcão de quem tenta trabalhar, há um vazio que ainda não foi ocupado pelo poder público.

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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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