Clã Bolsonaro troca votos por proteção: em vez de um candidato competitivo, ex-presidente apresenta ficha de negociação.
anúncio da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República parecia, à primeira vista, um gesto de força, mas, em menos de 48 horas, revelou-se um estalinho molhado: fez barulho, surpreendeu o mercado, desorganizou aliados - e sinalizou desistência antes mesmo da largada.

A decisão de Jair Bolsonaro enterrou, sem cerimônia, a aposta que vinha sendo tratada como “segura” por investidores e pela direita institucional: Tarcísio de Freitas. Governador de São Paulo, disciplinado, previsível, com trânsito no centro político e sem o desgaste familiar, Tarcísio era o nome capaz de enfrentar Lula com chances reais. Era - até o ex-presidente lembrar ao País que, no bolsonarismo, projeto pessoal vem antes de projeto de poder. O gesto não foi político. Foi transacional.
Ao lançar Flávio, Bolsonaro não apresentou um candidato competitivo; apresentou uma ficha de negociação. Nenhum dirigente partidário sério acredita que o senador tenha densidade eleitoral nacional para vencer uma eleição presidencial altamente polarizada. O clã sabe disso. O mercado sabe disso. Os aliados, principalmente, sabem disso.
Então por que lançar? Porque nem toda candidatura nasce para ganhar. Algumas existem para ser trocadas. A lembrança de Sir Robert Walpole - “todo homem tem um preço” - não é gratuita.
Em Brasília, essa moeda costuma ser silêncio, anistia, arquivamento ou esquecimento. E a pergunta que se impõe não é se Flávio chegará ao segundo turno. É quanto vale a desistência dele antes do primeiro.
A jogada ocorre num momento em que Jair Bolsonaro vive sob múltiplas pressões: investigações, denúncias, cercos jurídicos e a possibilidade concreta de responsabilização política e penal. O ex-presidente insiste no discurso público de liderança popular, mas nos bastidores se move como quem busca garantias.
Ao colocar o filho no tabuleiro, Bolsonaro cria um problema que só ele pode resolver- e cobra caro pela solução. A mensagem é clara: sem acordo, não haverá candidato viável da direita; com acordo, o clã sai ileso.
Do outro lado, o governo Lula ajuda pouco a si mesmo. O País convive com sinais de esgotamento fiscal, tensões no câmbio, denúncias recorrentes, desconforto crescente com a política externa e um ambiente institucional ruidoso. O presidente segue competitivo eleitoralmente, mas já não governa com a mesma folga - e isso é percebido.
Ainda assim, Lula permanece, paradoxalmente, o nome mais sólido do tabuleiro. Não por virtude, mas por ausência de alternativa clara. A polarização segue sendo o combustível, mesmo quando o tanque institucional está na reserva.
O Brasil entra em 2026 sem projeto nacional e com excesso de interesses pessoais. A direita não se emancipa do bolsonarismo; o bolsonarismo não quer vencer sem garantias; o centro assiste de fora; a esquerda aposta no desgaste do adversário - e o eleitor observa, desconfiado, o jogo de empurra.
Flávio Bolsonaro não é candidato. É ficha. Tarcísio não caiu nas pesquisas - caiu na conveniência. E Lula não avança - apenas resiste. Ao antecipar uma candidatura fraca, Bolsonaro antecipou também sua própria estratégia: não disputar o futuro, mas negociar o passado.
Ano que vem, mais do que escolher um presidente, o Brasil parece chamado a responder outra pergunta - bem menos nobre e bem mais perigosa: quanto custa, afinal, uma desistência?
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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