Alta dos alimentos em Belém chega a 9,17% no ano; famílias recorrem a cartão, empréstimos e parcelamentos para fechar as contas do mês.
custo da cesta básica em Belém chegou a R$ 727,70 em abril, segundo levantamento do Dieese em parceria com a Conab. No primeiro quadrimestre de 2026, a alta acumulada foi de 9,17%, pressionando ainda mais o orçamento das famílias em um cenário no qual o salário-mínimo segue sem acompanhar a escalada do custo de vida.

Os números do endividamento revelam a dimensão do problema. Dados nacionais mostram que 80,4% das famílias brasileiras estão endividadas e que 82,8 milhões de pessoas estão inadimplentes. Entre as famílias com dívidas, quase 85% dependem do cartão de crédito.
O problema se agrava quando entram em cena os juros. Em 2026, o rotativo do cartão alcança 425% ao ano, enquanto o crédito pessoal supera 118% anuais. Na prática, o trabalhador recebe salário, paga alimentação, água, luz, transporte e ainda precisa reservar parte da renda para o banco. No fim do mês, falta dinheiro para viver.
A contradição desafia economistas e especialistas: se os indicadores apontam crescimento da economia, por que milhões de brasileiros continuam fazendo empréstimos para comprar comida e fechar as contas domésticas?
Para a população, a resposta é mais simples do que os gráficos oficiais conseguem demonstrar. Não existe dignidade quando a renda acaba antes do mês. O que falta, dizem consumidores e especialistas, é salário compatível com o custo real de vida, comida acessível e condições mínimas para sobreviver sem depender de dívida permanente.
A trajetória da cesta básica em Belém mostra a velocidade da deterioração do poder de compra. Em janeiro, o custo foi de R$ 673,55; em fevereiro, R$ 674,12; em março, R$ 700,68; até atingir R$ 727,70 em abril.
No início do ano, houve breve alívio. Em janeiro, a pesquisa do Dieese apontou redução de 3,48% em relação ao mesmo período de 2025, reflexo da política de valorização do salário-mínimo, que ampliou temporariamente o poder de compra da população.
O respiro, porém, durou pouco. Em poucos meses, a inflação dos alimentos voltou a consumir parcela crescente da renda familiar, recolocando milhares de trabalhadores em situação de aperto financeiro.
O fenômeno não se limita ao Pará. Em todo o Brasil, supermercados, farmácias e postos de combustível passaram a oferecer parcelamentos até para despesas cotidianas, transformando compras rotineiras em prestações mensais.
A diretora técnica do Dieese, Adriana Marcolino, alerta que o crédito destinado originalmente à aquisição de bens duráveis passou a funcionar como complemento de renda para despesas ordinárias. “O crédito é importante porque financia bens de consumo duráveis e bens de maior valor”, observa.
Especialistas também chamam atenção para um erro comum entre consumidores: considerar o limite do cartão como parte da renda disponível. “A pessoa que ganha R$ 5 mil e possui mais R$ 5 mil de limite no cartão não tem renda de R$ 10 mil”, alerta a economista Isabela Tavares. Segundo ela, a falta de educação financeira contribui para decisões de consumo que acabam ampliando o ciclo de endividamento.
Plataformas de orientação financeira e programas de renegociação, como o Desenrola 2, surgem como tentativa de aliviar o problema. Ainda assim, economistas avaliam que se trata apenas de solução emergencial.
A raiz da crise permanece estrutural: enquanto o custo de vida sobe em velocidade maior que a renda, milhões de brasileiros continuam financiando a própria sobrevivência.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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