País tornou-se involuntariamente o epicentro em uma batalha pelo futuro da economia mundial; trata-se de uma partida de xadrez que está longe de terminar.
o longo das últimas décadas, as intervenções militares e as pressões geopolíticas dos Estados Unidos foram frequentemente justificadas ao público sob os rótulos de "combate ao terrorismo", "promoção da democracia" ou "guerra às drogas". No entanto, essa balela não resiste a uma análise sequer superficial. Um olhar ligeiro sobre a história revela um padrão constante que remonta a um acordo secreto firmado em 1974, que definiu a economia global e garantiu a supremacia americana. O verdadeiro motivo por trás da constante pressão sobre a Venezuela não é a democracia ou os direitos humanos, mas algo muito menos prosaico: a sobrevivência do próprio sistema do petrodólar, que sustenta a hegemonia econômica dos Estados Unidos há meio século.

Em 1974, em meio à crise do petróleo e à desvinculação do dólar do padrão-ouro, o então secretário de Estado americano Henry Kissinger arquitetou um acordo revolucionário com a Arábia Saudita. Este pacto, conhecido como “o acordo do petrodólar”, estipulava que todo o petróleo vendido globalmente seria cotado em dólares americanos. Em troca, os Estados Unidos ofereceriam proteção militar à monarquia saudita.
Esse acordo aparentemente técnico criou algo extraordinário: uma demanda global artificial e constante por dólares americanos. Como todos os países precisam de petróleo e o petróleo é cotado em dólares, todas as nações são forçadas a manter reservas significativas de dólares para suas transações energéticas. Este mecanismo permitiu aos Estados Unidos um privilégio único - a capacidade de imprimir moeda globalmente aceita sem sofrer as consequências inflacionárias típicas. O petrodólar financiou o complexo militar industrial americano, permitiu déficits comerciais crônicos e sustentou o estado de bem-estar social, tudo enquanto transferia efetivamente o custo da criação monetária para o resto do mundo.
A história recente revela um padrão sombrio do que acontece com os líderes que ousam desafiar este sistema:
Saddam Hussein (2000-2003). Em setembro de 2000, o Iraque anunciou que passaria a vender seu petróleo em euros em vez de dólares. Em 2003, os Estados Unidos invadiram o país sob a falsa alegação de armas de destruição em massa. Saddam foi deposto, executado após um julgamento questionável, e o petróleo iraquiano retornou imediatamente ao sistema de dólares.
Muammar al-Gaddafi (2009-2011). O líder líbio propôs uma moeda pan-africana lastreada em ouro - o dinar de ouro - para transações petrolíferas. E-mails vazados de Hillary Clinton confirmam que esta iniciativa foi “a principal razão” para a intervenção da Otan. Em 2011, a Líbia foi bombardeada, Gaddafi foi brutalmente assassinado, e o país mergulhou no caos, incluindo o retorno dos mercados de escravos.
Agora, a atenção se voltou para a Venezuela, que representa a ameaça mais significativa ao sistema do petrodólar desde sua criação. Com impressionantes 303 bilhões de barris em reservas comprovadas - 20% do total mundial, mais que a Arábia Saudita -, a Venezuela possui o equivalente a cinco vezes as reservas do Iraque e da Líbia combinadas.
Desde 2018, o governo venezuelano tem implementado sistematicamente uma estratégia de “libertação do dólar”: vendendo petróleo ativamente em yuan chinês, euros e rublos; estabelecendo canais de pagamento direto com a China que ignoram completamente o sistema SWIFT; solicitando formalmente adesão ao Brics - bloco composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul; e alinhando-se com os três principais agentes da desdolarização global: China, Rússia e Irã.
Esta não é uma ameaça teórica, mas prática. Não é um embate de ideologias, mas de moedas e poder. A Venezuela possui reservas suficientes para financiar a desdolarização por décadas e está criando infraestruturas paralelas ao sistema financeiro ocidental.
A retórica oficial americana sobre “democracia” e “direitos humanos” na Venezuela contrasta com sua aliança histórica com ditaduras sanguinárias, narcotraficantes notórios e declarações reveladoras. Stephen Miller, ex-conselheiro de segurança interna dos EUA, afirmou há algumas semanas: “O suor, a engenhosidade e o trabalho árduo dos americanos criaram a indústria petrolífera na Venezuela. Sua expropriação tirânica foi o maior roubo de riqueza e propriedade americana já registrado.”
Esta declaração expõe a lógica subjacente: a alegação de que os recursos naturais de um país soberano “pertencem” às corporações que os desenvolveram historicamente. Seguindo esse raciocínio, todas as nacionalizações de recursos na história - incluindo a do próprio petróleo saudita pela Aramco - constituiriam “roubo”.
O ataque à Venezuela ocorre em um momento de vulnerabilidade crescente do sistema do petrodólar:
1.Rússia: Desde as sanções relacionadas à Ucrânia, a Rússia vende petróleo e gás em rublos, yuans e outras moedas não ocidentais, criando um mercado paralelo significativo.
2.Arábia Saudita: Tradicional âncora do sistema, a Arábia Saudita vem discutindo abertamente aceitar yuan chinês por petróleo, sinalizando uma possível ruptura histórica.
3.Brics+: A expansão do Brics inclui agora potências petrolíferas como Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos e Egito, que juntos controlam uma porcentagem enorme da produção global. Estes países estão desenvolvendo ativamente sistemas de comércio e pagamento alternativos.
4. Reservas internacionais: A participação do dólar nas reservas cambiais globais caiu de mais de 70% em 2000 para cerca de 58% em 2023, a menor porcentagem em décadas.
A pressão sobre a Venezuela deve ser entendida neste contexto existencial. Se o petrodólar entrar em colapso, os Estados Unidos enfrentarão consequências profundas:
1. Inflação Estrutural: Sem a demanda artificial por dólares, os Estados Unidos perderiam a capacidade de financiar déficits sem causar inflação significativa. A impressão monetária teria consequências domésticas imediatas.
2. Fim do Privilégio Exorbitante: O custo de empréstimos para o governo americano aumentaria drasticamente, potencialmente limitando gastos militares e sociais.
3. Multipolaridade Financeira: Um mundo com múltiplas moedas de reserva enfraqueceria o poder geopolítico americano e criaria centros de poder concorrentes.
4. Reconfiguração das Alianças: Países historicamente alinhados aos EUA poderiam reavaliar suas parcerias em função de novos arranjos econômicos.
A situação da Venezuela representa muito mais do que um conflito bilateral ou regional. Ela simboliza um ponto de virada na ordem global estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. O sistema do petrodólar, que parecia um pilar eterno da economia mundial, mostra sinais inequívocos de erosão.
A história ensina que os impérios frequentemente entram em declínio quando seus mecanismos de sustentação econômica falham. O império britânico perdeu sua hegemonia quando a libra esterlina perdeu seu status privilegiado. Agora, os Estados Unidos enfrentam um desafio similar.
A pressão sobre a Venezuela, da qual o sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa é apenas a ponta do iceberg, não é sobre fraude eleitoral, narcotráfico, socialismo ou democracia - é sobre a sobrevivência de um império. Manifesta a tentativa desesperada de preservar um sistema que beneficiou uma única nação às custas da soberania monetária de todas as outras. O que estamos testemunhando é a agonia de um sistema que está morrendo, e os espasmos violentos de um império que tenta preservar seus privilégios.
A direita brasileira, formada em sua maioria por reles imbecis, pedestres intelectuais e cleptocratas inveterados, comemora a intervenção militar trumpista, enquanto a direita europeia, mantendo a retórica nacionalista, a rechaça. Afinal, não há como ser patriota ou nacionalista em nenhum lugar do mundo sem defender a soberania nacional como principal pilar da ordem social. O bolsonarismo, nesse episódio, afirmou de modo cabal seu entreguismo.
O futuro provavelmente não pertencerá a um sistema unipolar centrado no dólar, nem necessariamente a uma hegemonia chinesa, mas a um mundo multipolar com múltiplas moedas de reserva e blocos econômicos concorrentes. A questão que permanece é se esta transição ocorrerá através de conflitos e coerção, ou através de uma reestruturação negociada do sistema financeiro global.
A Venezuela, com suas vastas reservas de petróleo e sua ousada desafiação ao dólar, tornou-se involuntariamente o epicentro desta batalha pelo futuro da economia mundial. O desfecho deste confronto pode muito bem definir a arquitetura financeira do Século XXI. O que estamos vendo é apenas um movimento de uma partida de xadrez que está longe de terminar.
Chico Cavalcante é jornalista, escritor e consultor político.

•Uma situação desesperadora envolveu ontem, domingo, uma idosa, filha e neta, e um visitante eventual na área de gastronomia do Parque da Cidade que demanda para a avenida Júlio Cezar.
•A porta do elevador travou durante 45 minutos. Um jornalista que integrava o grupo acidentalmente chegou a esmurrar a porta, que continuou travada e teve que acionar os bombeiros pelo celular, já que o pessoal da administração não atendeu aos chamados.
•Um pé-de-cabra cabra usado pelo Bombeiros resolveu a situação. Ao final, o grupo foi “informado” que esse tipo de incidente é recorrente: aconteceu duas vezes na semana passada.
•Lula (foto) sancionou a LDO de 2026 com regras voltadas a um ano eleitoral, antecipando o pagamento de emendas parlamentares e vetando o aumento do fundo partidário.
•O governo publicou o calendário oficial de feriados e pontos facultativos de 2026 para a administração federal.
•Serão nove feriados nacionais e dez pontos facultativos, com regras para datas locais e compensação de datas religiosas.
•Alexandre de Moraes negou novo pedido de prisão domiciliar de Bolsonaro e afirmou que a defesa não apresentou fato novo que justificasse a medida.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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