Audiência hoje em Belém debate riscos da exploração na Margem Equatorial Caso Vorcaro revela R$ 30 milhões para documentário sobre Lula e mais suspeitas Sem avanço na infraestrutura, Marco do Saneamento para 2033 não passa de teoria
ERA DIGITAL

De carona, Marituba entra na vibe dos robôs e dos livros comprados a R$ 490

Prefeitura contratou R$ 3,26 milhões por “carona” em ata do Maranhão, com kits de informática a R$ 5,8 mil e livros que chegam a R$ 490

  • 615 Visualizações
  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 13/09/26 09:00
De carona, Marituba entra na vibe dos robôs e dos livros comprados a R$ 490
D


esde que Patrícia Alencar, do MDB, foi eleita prefeita de Marituba, em 2020, e reeleita em 2024, o município da Região Metropolitana de Belém passou a explorar uma imagem de gestão moderna, especialmente pelas redes sociais da prefeita, que reúne cerca de 1,5 milhão de seguidores no Instagram. Para se ter ideia, a governadora Hana Ghassan tem pouco mais de 250 mil seguidores na mesma rede.

 

Prefeita Patrícia Alencar entregou material a uma escola em dia que considerou histórico para Marituba/Fotos: Divulgação.

Agora, Marituba dá outro passo em direção à modernidade - desta vez, com robôs, laboratórios tecnológicos, cultura maker, educação digital e livros que chegam a custar R$ 490 por exemplar.

O investimento da prefeitura, por meio da Secretaria de Educação, chega a R$ 3.265.800,00, com um detalhe que coloca a contratação sob os holofotes: a origem dos preços provém de uma ata de registro de preços de Santa Luzia, no Maranhão, à qual Marituba aderiu.

Uma carona milionária

A contratação foi feita por meio da Ata de Registro de Preços nº 003/2026, originada do Pregão Eletrônico nº 51/2025, da Prefeitura de Santa Luzia, Estado do Maranhão.  A ata registra valor total de R$ 14.038.350,00 e contempla um pacote amplo de produtos e serviços: educação digital e midiática, Ciências, Matemática, aprendizagem steam, cultura maker, equipamentos tecnológicos, kits didáticos e capacitação de professores.

Marituba não realizou a licitação que estabeleceu esses preços. Optou pela chamada adesão ou “carona” em uma ata produzida por outro município. A legislação permite esse procedimento e a adesão, por si só, não significa irregularidade, mas a escolha abre espaço para uma pergunta elementar: se o município decide gastar mais de R$ 3 milhões utilizando preços definidos em uma licitação realizada a centenas de quilômetros de distância, o que exatamente está sendo comprado e por que esses preços são considerados vantajosos para o contribuinte de Marituba?

Robôs a R$ 5,8 mil

Os valores registrados ajudam a entender a dimensão da contratação. Entre os itens previstos aparecem kits de informática na faixa de R$ 5,8 mil por unidade. Há ainda materiais didático-pedagógicos com preços unitários de até R$ 490, enquanto determinados livros destinados aos anos iniciais do Ensino Fundamental aparecem por R$ 310 cada.

O pacote inclui também equipamentos para ambientes tecnológicos, impressora 3D, kits de robótica e materiais relacionados à cultura maker - conceito baseado no chamado “aprender fazendo”, com utilização de tecnologia, criatividade e colaboração. Tudo muito moderno, mas a questão é saber se também é economicamente vantajoso.

Os materiais, segundo a prefeitura, observam os critérios da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para Computação e da Política Nacional de Educação Digital (Pned).

Compra chega à escola

A contratação deixou de ser apenas papelada de processo administrativo. Em 22 de agosto, a Prefeitura de Marituba realizou, na Escola Cora Tereza, a entrega de livros, kits de robótica e outros materiais destinados à rede municipal de ensino. Segundo a prefeitura, foram distribuídos mais de 32 mil livros e mais de 2 mil kits de robótica e robótica sustentável, destinados a diferentes etapas da educação e a projetos da Secretaria de Educação, entre eles Robótica na Escola, Ideb a Todo Vapor, Alfabetiza Pará e Caderno de Atividades. A prefeita Patrícia Alencar participou da cerimônia e classificou a entrega como um dia histórico para Marituba. “São milhares de livros que vão fazer a diferença na vida de mais de 25 mil alunos”, afirmou.

Mesma ata em Barcarena

A ata maranhense não ficou restrita a Marituba. Outros municípios demonstraram interesse, entre eles Coelho Neto, no próprio Maranhão, e Barcarena, no Pará, que também solicitou adesão. Na documentação de Barcarena aparecem 50 robôs educacionais a R$ 5.800 cada, num total de R$ 290 mil. Também chamam atenção os valores dos materiais didáticos. Uma coleção destinada à Educação Infantil aparece com 1.843 unidades a R$ 490 cada, alcançando R$ 903.070. Para os anos iniciais do Ensino Fundamental, há livros registrados a R$ 310 por unidade.

Barcarena também avançou na implantação do projeto Geração Tech, apresentado em agosto na escola Aloysio Chaves, com laboratórios de tecnologia, kits de robótica e materiais pedagógicos.

Quede a transparência?

Não há controvérsia sobre a importância de aproximar crianças e professores da tecnologia. Robótica, programação, laboratórios e novas ferramentas pedagógicas podem representar avanços importantes na educação pública. O debate é outro.

Uma prefeitura adere a uma ata de outro Estado e movimenta milhões de reais em produtos tecnológicos e material didático, transparência passa a ser parte do projeto. Então, quantos itens foram comprados? Qual o preço de cada um? Houve pesquisa de mercado além dos valores da ata? Por que a adesão foi considerada mais vantajosa do que uma contratação própria? E, sobretudo, quanto custaria a mesma solução se adquirida diretamente no mercado?

As perguntas não diminuem a importância da robótica nas escolas; ao contrário, ajudam a garantir que a modernidade chegue às salas de aula sem deixar para trás aquilo que deveria acompanhá-la sempre - a conta aberta para o contribuinte.

Papo Reto

•No TJ do Pará, sob o comando do desembargador Roberto Moura (foto), onde os bastidores às vezes falam mais alto que as togas, circula um comentário que resume bem o clima: “cada Poder Judiciário tem o Alexandre de Moraes que merece”. Outro, ainda mais direto, diz que “poder herdado amedronta até desembargadores”. A conferir.

•O candidato a deputado federal pelo Podemos, JB Maninho, de Redenção, decidiu abandonar a disputa eleitoral. Em ofício encaminhado ao partido, pediu as providências necessárias para encerrar formalmente sua participação na corrida. A desistência já provoca comentários nos bastidores da legenda.

•A avenida Liberdade voltou a apresentar rachaduras e sinais de deterioração. Registros que circulam nas redes mostram novas fissuras em trecho que já havia apresentado problemas.  via foi entregue em abril e chegou a ser interditada em junho depois que o asfalto cedeu.

•Desta vez, a Prefeitura de Belém reagiu rápido. O Complexo de São Brás ganhou reforço de segurança 24 horas, com posto fixo da Guarda Municipal e monitoramento de 148 câmeras. A providência vem depois de episódios de aglomeração, brigas e confusão no entorno.

•Ironia quase perfeita: a crise do STF ameaça cobrar de Lula uma conta que nasceu justamente no entorno de Alexandre de Moraes. Pesquisas apertam, o PT acende o sinal vermelho e aliados já aconselham o presidente a se afastar imediatamente do ministro "tóxico".

•Moraes, que chegou a atuar como ponte em articulações entre Lula e o comando do Congresso, agora ameaça transformar-se em peso eleitoral, uma espécie de mala sem alça abarrotada de chumbo.

•Quer dizer, o homem que ajudou a construir pontes para a sobrevivência política de Lula pode acabar virando a âncora que puxa sua reeleição para o fundo.

•A crise do caso Master chegou à PGR. Delegados da Polícia Federal pedem que Paulo Gonet se declare impedido de atuar nos procedimentos em que ele próprio é citado - e ainda denunciam efeito intimidatório sobre quem simplesmente cumpriu ordem judicial.

•A pergunta agora é inevitável: se investigadores passam a ser investigados enquanto autoridades mencionadas no relatório permanecem no comando das apurações, quem fiscaliza o fiscal?

•Veja o tamanho da crise. Fachin precisou lembrar a Flávio Dino que até no Supremo existe hierarquia institucional. Suspendeu a canetada que atropelou André Mendonça - e, de quebra, congelou o processo que expôs as mensagens de Moraes com Vorcaro. 

Mais matérias OLAVO DUTRA

img
Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.