Votos pela anistia expõem a elasticidade da aliança com o Planalto e revelam que, na política, a gravidade nunca é neutra.
pêndulo de Foucault não corre, não faz barulho, não se avexa. Mas, enquanto se move, comprova uma verdade incontornável: não há como escapar da gravidade. Na política, ela atende por outros nomes - conveniência, cálculo, sobrevivência -, mas o efeito é o mesmo.

E o movimento de ontem em torno da chamada PL da Dosimetria, alternativa disfarçada da anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro, expôs com clareza esse vaivém silencioso entre o Planalto e alguns de seus mais valiosos aliados.
Entre eles, o governador do Pará, Helder Barbalho.
Desde a segunda metade do primeiro mandato, Helder construiu uma posição rara na política brasileira: altos índices de aprovação, reeleição folgada, controle absoluto do tabuleiro local e projeção nacional - e internacional - como nenhum outro governador do Pará havia alcançado. A COP30 consolidou essa vitrine. Belém ganhou nova face, e a Amazônia passou a ser apresentada não apenas como problema, mas como ativo geopolítico.
Nesse caminho, a parceria com Lula foi decisiva. Não apenas institucional, mas simbólica. Helder tornou-se um dos esteios regionais do presidente, alguém capaz de garantir palanque, votos e narrativa em uma região estratégica. Lula, por sua vez, ofereceu respaldo político, investimentos e protagonismo internacional. Um noivado sólido - ao menos na aparência.
Mas todo pêndulo revela seus desvios quando submetido a forças externas. E a votação da PL da Dosimetria foi uma delas. Dos deputados federais do Pará alinhados ao governo Helder, praticamente todos votaram sim ao projeto que reduz penas e, na prática, reabre o caminho para aliviar a situação de condenados na chamada tentativa de golpe - inclusive Jair Bolsonaro, hoje varrido do mapa eleitoral pelo STF.
A exceção ficou restrita ao PT. No MDB de Helder e Jader Filho, o recado foi ainda mais eloquente: voto unânime favorável, salvo ausências estratégicas: Elcione Barbalho, mãe, e José Priante, primo; e a deputada Renilce Nicodemos.
A pergunta inevitável paira no ar: é essa a parceria de Helder com Lula?
O movimento não pode ser tratado como acidente. Trata-se de corporativismo político em estado puro - o instinto de preservação que une adversários quando o sistema se sente ameaçado. Não se votou apenas sobre penas ou dosimetria: votou-se sobre precedentes, sobre quem pode ser alcançado amanhã pela mesma régua que hoje mede Bolsonaro.
Nesse ponto, o pêndulo se desloca lentamente, mas sem hesitação. Lula, condenado no passado, preso e depois descondenado, sabe o peso simbólico da anistia. Sabe também o custo político de conceder anistia, ou de fingir que não viu quando aliados a pavimentam.
E Helder joga com duas gravidades. De um lado, o Planalto, hoje indispensável para sustentar entregas, protagonismo e a própria narrativa da COP30. De outro, o Congresso e o bloco de centro-direita, onde se decide o futuro imediato de quem hoje governa, mas também de quem amanhã pode responder. No frigir dos ovos, se Lula estiver forte em 2026, Helder estará junto - e brigará alto, talvez até por uma vaga de vice. Se Lula fraquejar, o apoio pode se diluir na vastidão amazônica, sem rompimentos explícitos, sem declarações ruidosas, mas apenas com o pêndulo seguindo seu curso natural.
Os números nacionais ajudam a compreender o quadro: 122 deputados de partidos com ministérios votaram a favor da PL da Dosimetria - quase 42% da base governista. E não foi traição; foi instinto.
Como todo mundo está careca de saber, a política brasileira não opera no binário moral. Ela oscila, mede forças, ganha tempo. E raramente escolhe um lado antes de saber onde o chão é mais firme. O pêndulo segue seu trajeto, indiferente a discursos e juras públicas. Helder observa, calcula e se move com ele. Lula sente o peso da história.
Bolsonaro, mesmo fora do jogo eleitoral, continua a distorcer o campo gravitacional.
No fim, a pergunta não é quem apoia quem - mas até quando, e a que preço, cada um suportará a força invisível que insiste em puxar tudo de volta para o centro do poder.

•A Assembleia Legislativa ficou votar - e aprovar - hoje o reconhecimento da obra da cantora e compositora Lucinnha Bastos (foto) como Patrimônio Cultural e Imaterial do Pará. Justo reconhecimento aos 30 anos da carreira de Lucinha (foto), amiga da coluna.
•Acontece nesta quarta, 10, a votação dos nomes que integram a lista para escolha de juízes substitutos e titular no Tribunal Regional Eleitoral do Pará, o TRE-PA.
•A recomposição do documento que será enviado do TSE sofre mudanças a pedido da Corte, que havia barrado dois candidatos.
•Caso aprovados os nomes, o documento segue para as mãos do presidente Lula, a quem cabe decisão final sobre a escolha.
•A 2ª Promotoria de Justiça de Barcarena expediu Recomendação orientando a Secretaria de Saúde para assegurar o fornecimento do medicamento Duloxetina 60mg a pacientes que possuem indicação clínica no município.
•A determinação, assinada pelo promotor de Justiça Hélio Rubens Pinho Pereira, foi emitida após registro, no MP, sobre a interrupção no fornecimento do medicamento pela rede pública de saúde.
•A Duloxetina é um antidepressivo que age no cérebro para tratar depressão maior, transtorno de ansiedade generalizada e diversas condições relacionadas à crônica, como fibromialgia, neuropatia diabética, dor lombar crônica e dor associada à osteoartrite.
•O reconhecimento legal das uniões homoafetivas e a crescente aceitação social criam expectativas promissoras para o mercado de casamentos e festas, em 2026.
•O estudo “Projeção de Casamentos Civis no Brasil” prevê 931.300 casamentos nesta modalidade. A expansão das celebrações impacta fornecedores e gera renda para milhares de pessoas.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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