Há quem veja a IA como ameaça aos empregos; outros a tratam quase como solução universal; a realidade está entre os extremos
Durante muito tempo, imaginamos a inteligência artificial como coisa de ficção científica: máquinas capazes de pensar, computadores conversando com seres humanos e sistemas realizando tarefas antes exclusivas da inteligência humana. Esse futuro chegou.
E chegou mais rápido do que governos, empresas, universidades e trabalhadores estavam preparados para recebê-lo. A Inteligência Artificial já muda a maneira como produzimos, estudamos, trabalhamos, consumimos e administramos empresas. A questão, portanto, deixou de ser se a IA transformará o Brasil.
Ela já está transformando. A pergunta é: qual será o lugar do Brasil nessa revolução? Toda grande transformação tecnológica provoca entusiasmo e medo. Foi assim com a máquina a vapor, a eletricidade, o automóvel, o computador e a internet.
Agora acontece novamente. Há quem veja a IA como ameaça aos empregos. Outros a tratam quase como solução universal. A realidade está entre os extremos.
Tecnologias disruptivas eliminam algumas funções, transformam muitas outras e criam profissões que antes sequer existiam. O verdadeiro desafio brasileiro, portanto, não é proteger o trabalhador da tecnologia.
É prepará-lo para utilizá-la. E aí surge um problema particularmente grave para o Brasil.
Em um País marcado por enormes diferenças educacionais e sociais, a IA pode democratizar conhecimento, melhorar a educação, ampliar diagnósticos médicos, modernizar pequenas empresas, aumentar a produtividade e melhorar serviços públicos.
Mas também pode aprofundar desigualdades. Quem tiver boa formação, acesso à tecnologia e capacidade de utilizar essas ferramentas produzirá mais e terá maior competitividade. Quem permanecer fora dessa transformação poderá ficar ainda mais distante das melhores oportunidades.
Nasce uma nova divisão social: entre aqueles que sabem trabalhar com inteligência artificial e aqueles que não sabem. Esse já é um dos grandes desafios da educação brasileira. As empresas já perceberam a mudança. Dados da pesquisa TIC Empresas mostram que o uso de IA pelas empresas brasileiras passou de 13% em 2024 para 17% em 2025. Entre as grandes empresas, chegou a 50%.
E a tecnologia começa a chegar também aos pequenos negócios. Uma pequena empresa pode utilizar IA para controlar estoques, analisar vendas, atender clientes e organizar suas finanças. Um produtor rural pode cruzar informações climáticas. Um médico pode receber apoio na análise de exames. Um professor pode personalizar conteúdos. Estamos falando de algo muito maior do que uma nova ferramenta.
Estamos falando de produtividade. E poucas palavras são tão importantes para uma economia como a brasileira, que há décadas enfrenta dificuldades para crescer de forma sustentada.
A IA também pode revolucionar a administração pública. Sistemas inteligentes podem ajudar a identificar fraudes, cruzar milhões de informações, reduzir filas, acelerar processos, melhorar compras governamentais, prever demandas hospitalares e direcionar recursos públicos com maior eficiência.
O Brasil já estruturou investimentos bilionários para inteligência artificial, incluindo infraestrutura, formação profissional, inovação empresarial e aplicações em serviços públicos. Mas há uma advertência necessária. Tecnologia eficiente aplicada a processos ruins não resolve o problema. Pode apenas produzir ineficiência digitalizada.
Modernizar o Estado exige tecnologia, mas exige também gestão. Naturalmente, a inteligência artificial traz riscos: conteúdos falsos, manipulação de informações, discriminação algorítmica, invasão de privacidade, problemas de direitos autorais e uso indevido de dados. Precisamos de regras.
Mas existe enorme diferença entre regular riscos e impedir inovação. O Brasil não pode responder a uma das maiores revoluções tecnológicas da história criando outra montanha de burocracia.
A legislação deve proteger direitos, responsabilizar abusos e exigir transparência, sem impedir universidades de pesquisar, startups de inovar e empresas de competir.
Regulação deve funcionar como proteção, não como muro.
Aqui está talvez a questão primordial. As principais plataformas, chips, modelos e infraestruturas de inteligência artificial estão concentrados em poucas empresas e países. Se o Brasil limitar-se a consumir tecnologia produzida no exterior, poderá modernizar sua economia, mas continuará dependente.
Precisamos formar engenheiros, programadores, pesquisadores, cientistas de dados e empreendedores. Fortalecer universidades e centros de pesquisa. Ampliar nossa infraestrutura computacional. Estimular empresas brasileiras capazes de desenvolver soluções para problemas brasileiros.
E precisamos fazer isso agora. A inteligência artificial não possui projeto de País. Algoritmos não escolhem prioridades nacionais. Nós escolhemos.
Por isso, a discussão sobre IA não é apenas tecnológica. É econômica, educacional, social, ética e, sobretudo, estratégica. O Brasil está diante de uma das maiores transformações do nosso tempo. Podemos assistir novamente à revolução acontecer em outros lugares e depois comprar seus produtos.
Ou podemos participar dela. Não nos falta potencial. O que não podemos perder é tempo.
Porque talvez a grande divisão desta nova era não seja simplesmente entre homens e máquinas. Será entre pessoas, empresas e países que aprenderam a utilizar a inteligência artificial - e aqueles que ficaram olhando enquanto o futuro passava.
Foto: Divulgação
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José Croelhas é economista, consultor, escritor e palestrante
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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