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ESCALADA DA CRISE

Mendonça afasta chefão da PF e crise no Supremo chega ao coração da polícia

Decisão do ministro contra Andrei Rodrigues e diretor de Inteligência expõe escalada do conflito na corte e coloca a Polícia Federal no centro da disputa

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 08/09/26 17:00
Mendonça afasta chefão da PF e crise no Supremo chega ao coração da polícia
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crise que há dias atravessa o Supremo Tribunal Federal acaba de mudar de endereço - e de tamanho. O ministro André Mendonça determinou hoje o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. A medida, tomada individualmente, ainda será submetida à Segunda Turma do STF, mas já produz um efeito político e institucional difícil de ignorar: pela primeira vez, a disputa que opõe integrantes da corte alcança diretamente o comando da principal polícia judiciária do País.

 

Medida deverá ser submetida à Segunda Turma ainda hoje, mas seus efeitos já alcançam a polícia judiciária do País/Fotos: Divulgação.

Não se trata, portanto, de mais um capítulo da troca de acusações entre ministros. Quando um integrante do Supremo afasta preventivamente o chefe da PF, o problema deixa de estar restrito aos gabinetes. Ele chega à estrutura que conduz investigações criminais, administra informações de inteligência e exerce papel central em inquéritos que envolvem autoridades dos três Poderes. E é justamente aí que a história fica mais delicada.

Relatório é estopim

A decisão de Mendonça está relacionada à produção de relatórios internos da Polícia Federal que acabaram utilizados no episódio que levou Alexandre de Moraes a encaminhar pedido de investigação contra o próprio colega. Moraes apontou possíveis indícios de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução de procedimentos relacionados às operações Sem Desconto e Compliance Zero.

Mendonça, por sua vez, considerou de extrema gravidade a elaboração e utilização de documentos que, segundo ele, apresentariam problemas de autenticidade e regularidade. Um dos pontos mais sensíveis é a alegação de que teria havido monitoramento de integrantes do próprio Supremo. O ministro afirmou ter sido acompanhado pela PF durante mais de 30 dias.

O resultado é uma situação quase surreal: um ministro do Supremo questiona procedimentos adotados pela Polícia Federal; outro ministro utiliza elementos produzidos pela própria PF para pedir investigação contra ele; e agora o relator determina o afastamento dos dois principais responsáveis pela estrutura policial envolvida na produção desses elementos. É o tipo de roteiro que, em qualquer democracia madura, exigiria mais do que torcida.

PF entra no ringue

A decisão de Mendonça atinge justamente o ponto mais sensível da relação entre Judiciário e Polícia Federal: a autonomia da investigação.

O afastamento preventivo não significa condenação dos dois dirigentes nem comprova, por si só, qualquer irregularidade criminal. Mas revela que o ministro entendeu existir risco suficiente para retirar temporariamente do cargo o diretor-geral da instituição e o responsável pela área de Inteligência enquanto os fatos são apurados. Além dos afastamentos, Mendonça determinou providências para investigar as circunstâncias relacionadas aos documentos questionados.

O problema é que, a partir de agora, qualquer movimento da PF relacionado ao caso estará sob uma lupa ainda maior.

A corporação, que deveria ser vista como instrumento de Estado, passa a ser personagem de uma disputa institucional que envolve ministros do órgão máximo do Judiciário. E isso cobra um preço: o cidadão comum pode começar a perguntar quem investiga quem, quem fiscaliza quem e, principalmente, quem controla os investigadores quando os investigados ocupam os mais altos cargos da República.

Diante do espelho

A crise já havia ultrapassado o limite do razoável antes mesmo da decisão desta terça-feira. Moraes havia encaminhado a Fachin documentos da PF que, segundo ele, apontariam irregularidades na atuação de Mendonça. Fachin, presidente do Supremo, retirou o pedido do chamado inquérito das fake news e determinou que o caso tramitasse em procedimento próprio, além de pedir manifestação da Procuradoria-Geral da República e ouvir os envolvidos.

Agora, Mendonça coloca no centro do palco justamente a Polícia Federal.

A dimensão da crise pode ser medida pela reação de 13 ministros aposentados e ex-presidentes do STF, que divulgaram carta pedindo uma resposta institucional de Fachin diante do que classificaram como a “mais aguda crise” da história da Corte. O documento não cita nomes, mas surge no exato momento em que o conflito entre Mendonça e Moraes se transforma em uma disputa aberta sobre procedimentos, informações policiais e limites de atuação de ministros.

Segura o volante

É essa talvez a pergunta mais importante que fica depois da decisão.

O STF tem a obrigação de preservar a independência da Polícia Federal. A PF, por sua vez, precisa demonstrar que suas estruturas de investigação e inteligência não podem ser utilizadas para disputas internas, interesses pessoais ou guerras de poder. E os ministros da Corte precisam compreender que, quando uma instituição inteira é colocada no meio de uma contenda entre seus próprios integrantes, a autoridade do Supremo também fica exposta.

Mendonça pode ter tomado uma decisão juridicamente fundamentada. A Segunda Turma ainda vai examiná-la. Andrei Rodrigues e Leandro Almada têm direito à defesa e à presunção de inocência - mas o fato político já está posto.

O ministro afastou preventivamente o chefão da PF e, quando o chefe da polícia passa a ser afastado por ordem de um ministro do Supremo em meio a uma guerra interna da própria corte, já não se trata de crise entre autoridades, mas de uma crise de confiança nas instituições - dessas que, 

ao contrário de um diretor-geral, não se afasta por decisão liminar.

Papo Reto

 •Treze ex-ministros do STF, dez deles ex-presidentes da Corte, romperam o silêncio: falam em “gravíssimos fatos”, perda de confiança popular e risco à estabilidade democrática. 

•Quando quem conhece o Supremo por dentro diz que esta é a pior crise de sua história, já não há tapete grande o bastante para esconder a sujeira.

•Depois das mensagens de Vorcaro atribuídas a contatos com o ministro Alexandre de Moraes, os 13 ex-ministros exigem "sessão pública e investigação rigorosa". 

•O recado é devastador: o STF chegou ao ponto em que seus próprios ex-integrantes precisam lembrar aos atuais que crise institucional não se resolve com silêncio - resolve-se com transparência. 

•Cassiterita arrancada ilegalmente da Terra Yanomami, “esquentada” para ganhar aparência legal, transformada em estanho e colocada no mercado internacional. Eis o caminho descrito pelo MPF em denúncia que levou a White Solder ao banco dos réus. 

•A empresa aparece em cadeias de fornecimento de grandes multinacionais expondo uma pergunta incômoda: de que valem selos, auditorias e discursos ambientais se ninguém consegue garantir de onde veio a matéria-prima?

•São Paulo já contabiliza dezenas de milhares de casos de dengue em 2026, reacendendo o alerta para a doença.  

•Em plena Amazônia, onde clima, chuvas e condições de saneamento favorecem a proliferação do Aedes aegypti, informação epidemiológica atualizada também é instrumento de prevenção. 

•A Sespa mantém o monitoramento das arboviroses, mas os dados consolidados mais recentes de 2026 não aparecem de forma clara nas páginas públicas consultadas pela coluna.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.