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ELEIÇÕES 2026

O cenário nacional, a dança das cadeiras no Pará e os dilemas de Daniel Santos

Burburinho dá como certo acordo pelo qual Helder cede a vaga de vice de Hana ao PT com aval de Lula; contrapartida envolveria prefeito de Ananindeua.

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  • Coluna Olavo Dutra | Colaboradores
  • 04/03/26 11:00
O cenário nacional, a dança das cadeiras no Pará e os dilemas de Daniel Santos
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om o fim do primeiro semestre de 2026 no horizonte, o cenário eleitoral começa a ganhar contornos mais definidos. As especulações dão lugar às negociações de bastidor que moldarão as sucessões estaduais e federal. No vocabulário político, os "xadrezistas" mantêm os olhos fixos no tabuleiro, atentos aos sinais de fragilidade dos adversários e às brechas institucionais que podem permitir uma jogada decisiva.

Ideia é que o presidente Lula interceda junto ao vice-presidente Geraldo Alckmin, do PSB, segundo comentários de bastidores/Fotos: Divulgação.
Se no plano nacional a polarização ideológica promete mais uma vez acirrar os ânimos em torno da disputa presidencial, nos Estados a batalha se dá no campo miúdo da acomodação de forças. No Pará, pelo que se comenta, essa dinâmica atingiu um ponto de ebulição nos últimos dias, com uma movimentação que envolve diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governador Helder Barbalho, do MDB, e os bastidores do Palácio do Planalto.

Imbróglio da sucessão

Até as pedras - e a Justiça Eleitoral - sabem que a atual vice-governadora do Pará, Hana Ghassan, é o nome natural para a sucessão de Helder Barbalho. No entanto, a "herdeira política" do grupo governista não tem tido vida fácil. A começar pela demora no anúncio do nome que comporá sua chapa como vice-governador, que expõe um ruído interno: a insistência do PT em ocupar um lugar que os estrategistas da Casa Civil desenham para ser preenchido por uma liderança evangélica.

Há ainda a insistente desconfiança da base governista com os rumos do Estado, já que Hana assumirá o Executivo quando Helder Barbalho renunciar para concorrer ao Senado ou a vice-presidente, conforme especulam jornalistas do Planalto.

A pedra no caminho

Pré-candidato ao governo, o prefeito de Ananindeua, Daniel Santos, movimenta-se desde 2023 como uma alternativa à candidatura oficial. Sua aproximação e posterior assunção do comando do PSB no Pará o colocaram para dentro da base de Lula, embora, paradoxalmente, ele também capitaneie descontentamentos regionais e arregimente forças contrárias à reeleição do presidente.

A disputa, que já era um ruído nos corredores da política paraense, acendeu um alerta no comando nacional do PT. O partido, que deseja manter relevância na composição do Executivo estadual, viu na indefinição da vice uma oportunidade de pressão.

Autor da cilada na qual colocou o deputado estadual Dirceu Ten Caten - indicado pela legenda como vice na chapa governista sem garantias -, o senador Beto Faro, na condição de presidente do PT no Pará, articulou uma investida junto à cúpula nacional da legenda. A suposta mensagem levada a Lula foi direta: o PT precisa ocupar a vaga de vice-governador na chapa encabeçada por Hana. Na verdade, Beto precisa tirar Ten Caten da disputa federal, onde quer emplacar ao mesmo tempo a reeleição da mulher e a eleição do filho. A justificativa pública, no entanto, é tanto pragmática quanto simbólica: garantir que a sigla tenha assento na mesa de decisões do principal colégio eleitoral da Amazônia e fortalecer a campanha presidencial de Lula na região.

O acordo e a condição

O encontro entre Lula e Helder Barbalho, mediado pela demanda do PT paraense, selou um suposto acordo - mas com uma condição que revela a habilidade política do governador do Pará. Lula comunicou a Helder que o PT deve, sim, compor a chapa majoritária. Helder, atento ao cenário nacional e ciente de que a polarização entre Lula e a oposição será feroz, assentiu de imediato. Contudo, como um jogador experiente, não abriu mão de uma contrapartida estratégica.

Para ceder a vaga de vice ao PT, Helder condicionou a decisão a um favor que exige a articulação fina do Planalto. A proposta apresentada por Helder a Lula visa desarmar a pré-candidatura de Daniel Santos ao governo. A ideia é que o presidente da República interceda junto ao vice-presidente Geraldo Alckmin, do PSB, para que este, utilizando seu capital político e diálogo com o partido, convença o prefeito de Ananindeua a recuar da disputa majoritária neste momento. Jovem, com menos de 40 anos, Daniel pode esperar a eleição seguinte para se lançar ao governo. Além disso, esse acordo desarmaria o palanque da oposição bolsonarista, que se agrupa ao lado de Daniel por conveniência e ausência de um quadro à altura para empreender a disputa com chances reais.

Simplificando as coisas

"Isso tornaria a eleição de Hana muito mais simples e menos dispendiosa, mas o custo para Helder teria que ser maior", afirma Sérgio dos Santos, sociólogo e consultor político. "Daniel nunca escondeu de ninguém o desejo de ver a deputada Alessandra Haber, sua esposa, como secretária de Saúde - e isso teria que estar garantido."

Contudo, segundo boatos que circularam em Brasília, a troca envolveria Helder oferecer a Daniel Santos uma das vagas ao Senado Federal na chapa governista e um assento no conselho do Tribunal de Contas dos Municípios, o (TCM. Para viabilizar o acordo, o governador se comprometeria a retirar a pré-candidatura de Chicão Melo, do União Brasil, à mesma Câmara Alta, abrindo caminho para que Daniel dispute a eleição senatorial com o apoio da máquina estadual. Na prática, Helder sinaliza a eleição - e não apenas a candidatura - da segunda vaga ao Senado para Daniel, criando um cenário de "porto seguro" que pode ser tentador demais para o prefeito recusar. 

"Imagine a economia que um acordo assim significaria", ironiza um ex-aliado de Daniel, hoje abrigado na máquina do Estado.

A dança das siglas

A grande questão que paira no ar é se Daniel Santos aceitará essa "troca de posições" e, principalmente, se permanecerá no PSB, dada a pressão que a cúpula bolsonarista no Estado exerce em torno do prefeito de Ananindeua. "A proposta tem o sabor amargo do recuo, mas o doce aroma de uma cadeira no Senado - um cargo de oito anos e com enorme projeção nacional", pondera Sérgio dos Santos.

Nos bastidores, acredita-se que a recusa de Daniel ao chamado de Alckmin poderia isolá-lo ainda mais, forçando-o a enfrentar a máquina estadual sem o guarda-chuva do governo federal e ao abrigo precário de um bolsonarismo dividido. Daniel afirma que apenas duas coisas unificam o bolsonarismo local: "os despautérios verbais e o desejo de derrotar Helder. Fora isso, são divididos em diferentes frações e grupos de interesse. Sem o farol, se fragmentariam em mil pedaços".

Imposição externa

É sob pressão desse conglomerado de extrema-direita que emerge a movimentação de Daniel Santos em direção ao Republicanos. Embora a negociação tenha sido interpretada por muitos como uma imposição do PL - que, em troca de apoio, exigiria que o prefeito estivesse em uma sigla de menor tensão ideológica para não atrapalhar a polarização nacional -, o movimento pode ser lido também como um sinal de autonomia e de preparação para o confronto. Migrar para o Republicanos, partido do Centrão com forte apelo evangélico, daria a Daniel Santos uma plataforma nacional sem o ônus de estar filiado a uma legenda com a qual Lula mantém restrições. “Republicanos não é um partido ideológico, como de resto nenhum partido do Centrão o é. São partidos de interesse, que se movem em torno do dinheiro e do poder que os governos emanam”, analisa Sérgio dos Santos.

Cenário que se desenha

A política no Pará está à véspera de um confronto ou vive um daqueles momentos de redefinição de rota? Helder Barbalho, ao condicionar a vice do PT à pacificação da base, joga a responsabilidade da articulação para o colo de Lula e Alckmin. Se conseguir emplacar o acordo, o governador elimina a principal pedra no sapato de sua sucessora, amplia sua governabilidade e mantém o controle sobre as principais nominatas da chapa. Se falhar, o cenário se complica: o PT terá a vice, mas Daniel Santos poderá ir para a disputa, rachando de modo vertical o campo governista.

Para Lula, a jogada é igualmente delicada. Atender a Helder é fortalecer um aliado estratégico na Amazônia, mas pode desgastar a relação com o PSB e com Alckmin, que terá a difícil missão de convencer um correligionário a abrir mão de um projeto pessoal em nome da governabilidade.

O desfecho dessa novela, que agora envolve o Planalto, o MDB e as forças vivas do Pará, deve ser conhecido nos próximos dias, quando os sinais amarelos do xadrez político finalmente se converterem em movimentos definitivos sobre o tabuleiro.

Papo Reto

Portas fechadas? O que se diz é que o governador Helder Barbalho (foto), que esteve em Brasília acompanhado pelo Secretário de Justiça e presidente estadual do Republicanos, Evandro Garla, acaba de fechar a porta desse partido para o prefeito de Ananindeua, Daniel Santos.

•Helder se reuniu com o deputado federal e presidente Nacional do Republicanos, Marcos Pereira, garantindo a manutenção do partido na sua base de apoio e zerando as chances do prefeito de migrar para a legenda. 

A se confirmar a informação, por essa porta também não deve passar o ex-ministro Celso Sabino, que a um mês do prazo de filiação ainda continua sem partido, tendo como caminho mais provável o Podemos, do senador Zequinha Marinho. Parece uma sinuca de bico; e é.

•Precisou desabar o caos no Oriente Médio para o Ministro da Defesa, José Múcio, criar coragem para defender publicamente investimentos nas Forças Armadas brasileiras, completamente sucateadas pelo tempo que está no "tucupi".

Aliás, Múcio fez uma grande descoberta: “não existe mais ninguém desarmado no mundo”. Faz sentido.

•Ninguém estranhe se petistas próximos de Lula, preocupados com a reeleição, conseguirem convencer o presidente a repaginar sua atitude diplomática, dando um "chega pra lá" no embolorado Celso Amorim, quem manda de fato no Itamarati.

Eles querem um Lula priorizando os reais interesses do País e não ideologias e líderes ultrapassados.

•Lulinha admitiu que visitou fábrica de cannabis às custas do "Careca do INSS", segundo o "Estadão".

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.