Burburinho dá como certo acordo pelo qual Helder cede a vaga de vice de Hana ao PT com aval de Lula; contrapartida envolveria prefeito de Ananindeua.
om o fim do primeiro semestre de 2026 no horizonte, o cenário eleitoral começa a ganhar contornos mais definidos. As especulações dão lugar às negociações de bastidor que moldarão as sucessões estaduais e federal. No vocabulário político, os "xadrezistas" mantêm os olhos fixos no tabuleiro, atentos aos sinais de fragilidade dos adversários e às brechas institucionais que podem permitir uma jogada decisiva.

Até as pedras - e a Justiça Eleitoral - sabem que a atual vice-governadora do Pará, Hana Ghassan, é o nome natural para a sucessão de Helder Barbalho. No entanto, a "herdeira política" do grupo governista não tem tido vida fácil. A começar pela demora no anúncio do nome que comporá sua chapa como vice-governador, que expõe um ruído interno: a insistência do PT em ocupar um lugar que os estrategistas da Casa Civil desenham para ser preenchido por uma liderança evangélica.
Há ainda a insistente desconfiança da base governista com os rumos do Estado, já que Hana assumirá o Executivo quando Helder Barbalho renunciar para concorrer ao Senado ou a vice-presidente, conforme especulam jornalistas do Planalto.
Pré-candidato ao governo, o prefeito de Ananindeua, Daniel Santos, movimenta-se desde 2023 como uma alternativa à candidatura oficial. Sua aproximação e posterior assunção do comando do PSB no Pará o colocaram para dentro da base de Lula, embora, paradoxalmente, ele também capitaneie descontentamentos regionais e arregimente forças contrárias à reeleição do presidente.
A disputa, que já era um ruído nos corredores da política paraense, acendeu um alerta no comando nacional do PT. O partido, que deseja manter relevância na composição do Executivo estadual, viu na indefinição da vice uma oportunidade de pressão.
Autor da cilada na qual colocou o deputado estadual Dirceu Ten Caten - indicado pela legenda como vice na chapa governista sem garantias -, o senador Beto Faro, na condição de presidente do PT no Pará, articulou uma investida junto à cúpula nacional da legenda. A suposta mensagem levada a Lula foi direta: o PT precisa ocupar a vaga de vice-governador na chapa encabeçada por Hana. Na verdade, Beto precisa tirar Ten Caten da disputa federal, onde quer emplacar ao mesmo tempo a reeleição da mulher e a eleição do filho. A justificativa pública, no entanto, é tanto pragmática quanto simbólica: garantir que a sigla tenha assento na mesa de decisões do principal colégio eleitoral da Amazônia e fortalecer a campanha presidencial de Lula na região.
O encontro entre Lula e Helder Barbalho, mediado pela demanda do PT paraense, selou um suposto acordo - mas com uma condição que revela a habilidade política do governador do Pará. Lula comunicou a Helder que o PT deve, sim, compor a chapa majoritária. Helder, atento ao cenário nacional e ciente de que a polarização entre Lula e a oposição será feroz, assentiu de imediato. Contudo, como um jogador experiente, não abriu mão de uma contrapartida estratégica.
Para ceder a vaga de vice ao PT, Helder condicionou a decisão a um favor que exige a articulação fina do Planalto. A proposta apresentada por Helder a Lula visa desarmar a pré-candidatura de Daniel Santos ao governo. A ideia é que o presidente da República interceda junto ao vice-presidente Geraldo Alckmin, do PSB, para que este, utilizando seu capital político e diálogo com o partido, convença o prefeito de Ananindeua a recuar da disputa majoritária neste momento. Jovem, com menos de 40 anos, Daniel pode esperar a eleição seguinte para se lançar ao governo. Além disso, esse acordo desarmaria o palanque da oposição bolsonarista, que se agrupa ao lado de Daniel por conveniência e ausência de um quadro à altura para empreender a disputa com chances reais.
"Isso tornaria a eleição de Hana muito mais simples e menos dispendiosa, mas o custo para Helder teria que ser maior", afirma Sérgio dos Santos, sociólogo e consultor político. "Daniel nunca escondeu de ninguém o desejo de ver a deputada Alessandra Haber, sua esposa, como secretária de Saúde - e isso teria que estar garantido."
Contudo, segundo boatos que circularam em Brasília, a troca envolveria Helder oferecer a Daniel Santos uma das vagas ao Senado Federal na chapa governista e um assento no conselho do Tribunal de Contas dos Municípios, o (TCM. Para viabilizar o acordo, o governador se comprometeria a retirar a pré-candidatura de Chicão Melo, do União Brasil, à mesma Câmara Alta, abrindo caminho para que Daniel dispute a eleição senatorial com o apoio da máquina estadual. Na prática, Helder sinaliza a eleição - e não apenas a candidatura - da segunda vaga ao Senado para Daniel, criando um cenário de "porto seguro" que pode ser tentador demais para o prefeito recusar.
"Imagine a economia que um acordo assim significaria", ironiza um ex-aliado de Daniel, hoje abrigado na máquina do Estado.
A grande questão que paira no ar é se Daniel Santos aceitará essa "troca de posições" e, principalmente, se permanecerá no PSB, dada a pressão que a cúpula bolsonarista no Estado exerce em torno do prefeito de Ananindeua. "A proposta tem o sabor amargo do recuo, mas o doce aroma de uma cadeira no Senado - um cargo de oito anos e com enorme projeção nacional", pondera Sérgio dos Santos.
Nos bastidores, acredita-se que a recusa de Daniel ao chamado de Alckmin poderia isolá-lo ainda mais, forçando-o a enfrentar a máquina estadual sem o guarda-chuva do governo federal e ao abrigo precário de um bolsonarismo dividido. Daniel afirma que apenas duas coisas unificam o bolsonarismo local: "os despautérios verbais e o desejo de derrotar Helder. Fora isso, são divididos em diferentes frações e grupos de interesse. Sem o farol, se fragmentariam em mil pedaços".
É sob pressão desse conglomerado de extrema-direita que emerge a movimentação de Daniel Santos em direção ao Republicanos. Embora a negociação tenha sido interpretada por muitos como uma imposição do PL - que, em troca de apoio, exigiria que o prefeito estivesse em uma sigla de menor tensão ideológica para não atrapalhar a polarização nacional -, o movimento pode ser lido também como um sinal de autonomia e de preparação para o confronto. Migrar para o Republicanos, partido do Centrão com forte apelo evangélico, daria a Daniel Santos uma plataforma nacional sem o ônus de estar filiado a uma legenda com a qual Lula mantém restrições. “Republicanos não é um partido ideológico, como de resto nenhum partido do Centrão o é. São partidos de interesse, que se movem em torno do dinheiro e do poder que os governos emanam”, analisa Sérgio dos Santos.
A política no Pará está à véspera de um confronto ou vive um daqueles momentos de redefinição de rota? Helder Barbalho, ao condicionar a vice do PT à pacificação da base, joga a responsabilidade da articulação para o colo de Lula e Alckmin. Se conseguir emplacar o acordo, o governador elimina a principal pedra no sapato de sua sucessora, amplia sua governabilidade e mantém o controle sobre as principais nominatas da chapa. Se falhar, o cenário se complica: o PT terá a vice, mas Daniel Santos poderá ir para a disputa, rachando de modo vertical o campo governista.
Para Lula, a jogada é igualmente delicada. Atender a Helder é fortalecer um aliado estratégico na Amazônia, mas pode desgastar a relação com o PSB e com Alckmin, que terá a difícil missão de convencer um correligionário a abrir mão de um projeto pessoal em nome da governabilidade.
O desfecho dessa novela, que agora envolve o Planalto, o MDB e as forças vivas do Pará, deve ser conhecido nos próximos dias, quando os sinais amarelos do xadrez político finalmente se converterem em movimentos definitivos sobre o tabuleiro.

•Portas fechadas? O que se diz é que o governador Helder Barbalho (foto), que esteve em Brasília acompanhado pelo Secretário de Justiça e presidente estadual do Republicanos, Evandro Garla, acaba de fechar a porta desse partido para o prefeito de Ananindeua, Daniel Santos.
•Helder se reuniu com o deputado federal e presidente Nacional do Republicanos, Marcos Pereira, garantindo a manutenção do partido na sua base de apoio e zerando as chances do prefeito de migrar para a legenda.
•A se confirmar a informação, por essa porta também não deve passar o ex-ministro Celso Sabino, que a um mês do prazo de filiação ainda continua sem partido, tendo como caminho mais provável o Podemos, do senador Zequinha Marinho. Parece uma sinuca de bico; e é.
•Precisou desabar o caos no Oriente Médio para o Ministro da Defesa, José Múcio, criar coragem para defender publicamente investimentos nas Forças Armadas brasileiras, completamente sucateadas pelo tempo que está no "tucupi".
•Aliás, Múcio fez uma grande descoberta: “não existe mais ninguém desarmado no mundo”. Faz sentido.
•Ninguém estranhe se petistas próximos de Lula, preocupados com a reeleição, conseguirem convencer o presidente a repaginar sua atitude diplomática, dando um "chega pra lá" no embolorado Celso Amorim, quem manda de fato no Itamarati.
•Eles querem um Lula priorizando os reais interesses do País e não ideologias e líderes ultrapassados.
•Lulinha admitiu que visitou fábrica de cannabis às custas do "Careca do INSS", segundo o "Estadão".
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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