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Mulheres na Ciência

Pesquisadoras da Ufopa estudam o murumuru como opção à liberação de fármacos

Estudos foram feitos na Ufopa em parceria com instituições de renome nacional e internacional

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  • Da Redação
  • 11/03/26 18:00
Pesquisadoras da Ufopa estudam o murumuru como opção à liberação de fármacos

Santarém, PA - Uma palmeira muito comum na região amazônica, Astrocaryum murumuru, ou simplesmente murumuruzeiro, que é rica em ácido láurico, mirístico e oleico, está sendo estudada no Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento Farmacotécnico e Cosmético (LPDF), ligado ao Instituto de Saúde Coletiva (Isco) da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) como alternativa sustentável aos sistemas de liberação de fármacos para uso na indústria cosmética e farmacêutica. Testes com a manteiga de murumuru como base para o desenvolvimento desses sistemas de liberação demonstraram "ótimo" desempenho.


Esse sistema de liberação de fármacos desenvolvido a partir de manteiga vegetal apresentou resultados promissores em testes laboratoriais, com excelente perfil de liberação e penetração cutânea, sem toxicidade. Os achados indicam potencial para a criação de formulações tópicas mais seguras, com menor risco de irritação e maior aceitabilidade pelos usuários. A proposta pode contribuir para tratamentos dermatológicos mais acessíveis e bem tolerados, ao mesmo tempo em que integra eficácia terapêutica e responsabilidade ambiental no desenvolvimento de novas tecnologias de saúde.


Evidências até agora


As implicações clínicas de uma liberação prolongada são explicadas pelas pesquisadoras Amanda Caroline Esquerdo da Silva e Profa. Dra. Kariane Mendes Nunes, coordenadora do LPDF. “É possível manter concentrações terapêuticas por um período mais prolongado com uma única aplicação, o que reduz a frequência de uso, melhora a adesão ao tratamento e aumenta o conforto e a segurança do paciente”, esclarece a pesquisadora Kariane Nunes.


De acordo com os estudos desenvolvidos ao longo de quatro anos e depois de 25 tentativas no laboratório, verificou-se que a estrutura de “mesofase hexagonal” foi determinante para a liberação sustentada do metronidazol. Isso significa que sistemas líquido-cristalinos são especialmente desenvolvidos para promover a chamada liberação controlada de fármacos.


“Na mesofase hexagonal, sua estrutura é formada por canais cilíndricos altamente organizados, que funcionam como verdadeiros 'reservatórios' microscópicos para o fármaco. Essa estrutura dificulta a difusão rápida do fármaco para o meio externo, fazendo com que ele seja liberado de forma gradual e sustentada ao longo do tempo”, explica Nunes.


Sob a orientação de Kariane Nunes, a pesquisa foi desenvolvida pela jovem cientista Amanda Esquerdo, 25 anos, como resultado de cooperação técnica vigente da Ufopa com a Università degli Studi di Parma (UNIPR, Itália) e a Universidade de Brasília (UnB). A equipe acaba de publicar um estudo em um renomado veículo científico, o Journal of Drug Delivery Science and Technology, intitulado “Advancing a surfactant-free sustainable drug delivery system based on the Amazon Astrocaryum murumuru butter for topical application”, que em tradução livre significa "Avanço de um sistema sustentável de liberação de fármacos, livre de surfactantes, baseado na manteiga amazônica de murumuru (Astrocaryum murumuru) para aplicação tópica”.


Valorização das cadeias produtivas locais


Amplamente utilizada na indústria cosmética, principalmente para tratamento capilar, a manteiga de murumuru pode ser uma alternativa sustentável ao uso de produtos sintéticos, por exemplo.


“O avanço é considerável do ponto de vista do desenvolvimento tecnológico sustentável e da valorização das cadeias produtivas locais, uma vez que reduz o uso de excipientes sintéticos, que podem prejudicar o meio ambiente e a saúde pública, e diminui os gastos com pesquisa e desenvolvimento de produtos farmacêuticos e cosméticos, já que os tensoativos são adjuvantes farmacêuticos caros, além de agregar valor às matérias-primas amazônicas, contribuindo para o avanço da bioeconomia regional”, completa Nunes.


Cosméticos verdes e floresta em pé


Além da relevância científica e da sustentabilidade destacadas pela pesquisadora Kariane, o diretor de Pesquisa da Proppit, Bruno Batista, ressalta quesitos estratégicos dos resultados dessa pesquisa, por exemplo: química verde, colaboração internacional, alternativa a insumos importados, protagonismo regional, inovação em saúde e inclusão de comunidades tradicionais. Segundo Batista, “o estudo prova que ingredientes naturais da região podem substituir surfactantes e excipientes sintéticos importados, fomentando uma base tecnológica local independente e ecologicamente correta”, isso tudo somado à promoção da valorização da sociobiodiversidade e da contribuição para a inclusão socioeconômica de comunidades da floresta que trabalham com a extração sustentável dessas sementes.


A partir de agora


Um pedido de patente e o aprimoramento da formulação. Esses são os próximos passos da pesquisa, de acordo com Kariane Nunes; ela acrescenta ainda que o foco neste segundo momento será a otimização da estabilidade, da eficácia e da reprodutibilidade do sistema desenvolvido.


“Paralelamente, pretendemos avançar com o depósito de pedido de patente, visando à proteção da tecnologia e à viabilização de uma futura transferência tecnológica. A partir dessa etapa, abre-se a possibilidade de estabelecer parcerias com a indústria farmacêutica ou cosmética, ampliando as perspectivas de aplicação prática do produto e potencial escalonamento para testes clínicos, conforme a maturidade tecnológica alcançada”.


Foto: Divulgação/Ufopa

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.