Após críticas, gestão cria divisão para cuidar de parques e jardins; na Sacramenta, população quer discutir uso da Praça Dorothy Stang.
epois de uma semana de cobranças nas redes sociais e na imprensa sobre o que estava acontecendo nos lagos da Praça Batista Campos, a Prefeitura de Belém parece ter descoberto uma regra elementar da administração pública: a população tem o direito de saber o que está sendo feito na cidade.

A mudança de comportamento veio depois de dias de silêncio sobre a retirada dos peixes e a secagem dos lagos da Batista Campos. Trabalhadores já estavam no local havia uma semana quando a comunicação da prefeitura colocou porta-vozes em ação, produziu reportagens e, finalmente, o prefeito Igor Normando apareceu em vídeo para explicar a operação.
A novidade anunciada pelo prefeito é a criação de uma divisão específica para cuidar dos parques, praças e jardins de Belém. Já não era sem tempo. Uma cidade que possui centenas de espaços públicos não pode administrar sua manutenção como se fossem assuntos acessórios da máquina pública. A nova estrutura, porém, terá de fazer mais do que cuidar de jardins. Precisará cuidar também da informação. Praça abandonada é problema; praça em obras sem explicação também.
A Praça da República, que vinha sendo alvo de reclamações sobre iluminação, manutenção e segurança, está passando por uma revitalização. Segundo a prefeitura, quase 70% dos serviços já foram executados e as intervenções são realizadas preferencialmente no período noturno, para reduzir os impactos sobre a circulação de pessoas.
Depois de quase dez anos, a praça volta a receber uma reforma mais ampla. A prefeitura afirma que o desgaste provocado pelo tempo e pelo uso intenso se somou a atos de vandalismo que prejudicaram a conservação do patrimônio.
Na semana passada, os trabalhos incluíram recuperação das pedras portuguesas, varrição e lavagem do piso, pintura de coretos e monumentos, reparos em bancos, limpeza de canaletas e manutenção de diferentes estruturas. A Guarda Municipal também participa da operação para reforçar a proteção do espaço.
Não deixa de ser uma repetição da fórmula utilizada na reforma realizada entre 2016 e 2018, quando a Guarda mantinha dois pontos de vigilância na praça - um próximo ao Theatro da Paz e outro nas proximidades da rua Oswaldo Cruz. Os dois postos desapareceram ao longo dos anos.
A Praça Brasil, conhecida também como Praça do Índio, é outra que está em obras. A prefeitura informou que a requalificação atingiu 60% de execução e pretende transformar o espaço em uma espécie de parque urbano, ampliando as opções de lazer, esporte, convivência e alimentação. O investimento é de R$ 2 milhões em recursos próprios do Município. A proposta prevê a substituição de estruturas antigas e desgastadas e a reorganização dos espaços, com a promessa de preservação da arborização existente.
É o tipo de obra que, se bem executada e mantida, tende a melhorar a qualidade de vida de quem utiliza o espaço. O problema de Belém, historicamente, não costuma ser inaugurar praças. É mantê-las depois.
Se em Batista Campos, Praça da República e Praça Brasil a discussão é sobre manutenção e revitalização, na Praça Dorothy Stang, na Sacramenta, a questão é mais delicada: o que fazer com uma praça que a população já incorporou ao seu cotidiano?
O local foi reformado em 2024, recebeu Espaço Pet e 66 mudas de ipês e é utilizado para atividades esportivas, culturais, sociais e ambientais, além de feiras, encontros comunitários e ações de educação popular. Também se tornou referência para a cultura hip hop.
Agora, parte da área deverá dar lugar ao primeiro Super Postão da Saúde - a Policlínica Municipal e o futuro Postão da Família da Sacramenta. A ordem de serviço foi assinada por Igor Normando no fim de julho. A obra integra os investimentos da prefeitura para ampliar a rede municipal de saúde e contará com recursos superiores a R$ 17 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento, do Ministério da Saúde. A previsão de conclusão é novembro de 2027.
Ninguém, aparentemente, discorda da necessidade de ampliar o atendimento de saúde. A questão levantada pelos moradores é outra: por que a policlínica precisa ocupar justamente aquela praça?
A reação deu origem ao Movimento em Defesa da Praça Dorothy Stang, que organizou petição online e abaixo-assinado contra a forma como a decisão foi tomada. O grupo afirma não ser contrário à construção da unidade de saúde. O que cobra é transparência, consulta pública e discussão de alternativas. A pergunta é objetiva: existem outros terrenos, imóveis públicos ou áreas subutilizadas que poderiam receber o equipamento sem eliminar um espaço de convivência já consolidado?
No sábado, dia 8, moradores participaram de uma palestra e debate sobre o futuro da praça, com a presença do professor Bruno Soeiro Vieira, do curso de Direito da UFPA. A reivindicação é por um processo aberto de discussão antes que a intervenção avance definitivamente.
A Praça Dorothy Stang foi inaugurada em 2012. Portanto, não se trata de um terreno vazio à espera de alguma utilidade. É um equipamento público construído e apropriado pela comunidade ao longo de 14 anos.
Até o cinema paraense já registrou essa relação. A praça aparece no longa-metragem “Vatapá ou Maniçoba?”, dirigido por Fernando Segtowick e coproduzido pela TV Globo, exibido nacionalmente no Tela Quente no ano passado.
É justamente por isso que a prefeitura precisa separar duas coisas que parecem semelhantes, mas não são: informar a população sobre uma decisão já tomada e ouvir a população antes de tomar a decisão.
Na Batista Campos, a prefeitura finalmente começou a explicar o que estava fazendo depois de ser cobrada. Na Dorothy Stang, os moradores estão pedindo que a lógica seja invertida: querem ser ouvidos antes que a obra transforme definitivamente o espaço. A policlínica pode ser necessária. A praça também. O desafio da prefeitura é provar que uma não precisa necessariamente desaparecer para que a outra exista.
E talvez essa seja a principal lição da semana: Belém precisa de praças cuidadas, mas também precisa que seus moradores tenham voz sobre o que acontece com elas.
Papo Reto

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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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