Partido retoma proposta de democratização do Judiciário em meio à crise que colocou STF, PF e Congresso no centro da disputa política.
Partido dos Trabalhadores voltou a colocar o Judiciário no centro de sua agenda política. E não se trata apenas de uma manifestação ocasional. Em junho deste ano, o partido promoveu em Brasília o seminário “Caminhos para Democratização e Autocorreção do Sistema de Justiça Brasileiro”, reunindo dirigentes, juristas, professores e parlamentares para discutir uma reforma estrutural do sistema de Justiça.

A proposta não nasceu agora. Em seu plano de governo de
2018, o PT já defendia mais transparência e “controle social” na
administração da Justiça, além de mudanças na composição do CNJ e do CNMP e a
criação de ouvidorias externas ocupadas por representantes da sociedade civil.
O mesmo documento propunha mandatos para integrantes do STF e das cortes
superiores. O que mudou foi o ambiente político.
Em 2026, o PT retomou a discussão com força. O
presidente nacional da legenda, Edinho Silva, afirmou que não existe democracia
forte sem um Judiciário forte e defendeu uma reforma capaz de aproximar as
instituições da sociedade civil. Na programação do seminário partidário, uma
das mesas tratou justamente de “democratização, inovação e representatividade”
no sistema de Justiça. Outra discutiu mecanismos de fortalecimento e acesso à
Justiça. O próprio PT apresentou o encontro como continuidade do compromisso
assumido no 8º Congresso Nacional da legenda.
A expressão parece virtuosa. E pode ser. Em uma democracia,
nenhuma instituição pública deveria estar acima da fiscalização, da
transparência ou da responsabilização. O problema começa quando se tenta
estabelecer quem fiscaliza, com que poderes e sob quais limites.
O Judiciário não é eleito pelo voto popular, mas
também não existe fora da Constituição. Sua independência é uma garantia contra
a interferência dos demais Poderes - inclusive contra o Executivo e o
Legislativo. Ao mesmo tempo, independência não pode significar ausência de
controle.
O programa petista fala em ampliar transparência,
fiscalização e accountability, rever privilégios corporativos e
criar mecanismos que aproximem o Judiciário da sociedade. A resolução mais
recente também defende reformas nas cortes superiores e maior participação da
sociedade civil nos mecanismos de controle. Nada disso, isoladamente, significa
que o partido queira “mandar nos juízes”, mas também seria ingênuo tratar a
discussão como se ela estivesse acontecendo em um vácuo político.
O Brasil vive uma fase em que decisões judiciais passaram a
interferir diretamente em eleições, funcionamento do Congresso, investigações
policiais, redes sociais, empresas, partidos e disputas entre os próprios
Poderes. O STF ganhou uma centralidade política que seria impensável décadas
atrás. Ao mesmo tempo, cresceu o debate sobre ativismo judicial, decisões
monocráticas, limites da atuação de ministros e a relação entre Judiciário e
política. É nesse ambiente que o PT volta a falar em democratização e
controle social da Justiça. E talvez a questão mais importante não seja saber
se o Judiciário precisa ser controlado.
A questão é quem controla os controladores.
Executivo e Legislativo têm mecanismos periódicos de controle popular:
eleições. O Judiciário tem garantias próprias de independência, corregedorias,
CNJ, recursos, processos disciplinares e os demais instrumentos previstos na
Constituição, mas a criação de novos mecanismos de participação social precisa
responder a uma pergunta elementar: como impedir que aquilo que nasce como
controle democrático termine transformado em instrumento de pressão partidária
sobre decisões judiciais?
O debate poderia, inclusive, prestar um serviço ao País se
ultrapassasse a guerra entre “defensores” e “inimigos” do STF. Controle não é
necessariamente interferência e independência não é necessariamente impunidade.
Democratização não pode significar submissão da Justiça à maioria política do
momento e fiscalização social não pode se transformar em uma espécie de
autorização para governos e partidos escolherem quais decisões judiciais
consideram legítimas. Se a Justiça precisa ser fiscalizada, quem fiscaliza
quem fiscaliza a Justiça?’ É uma pergunta simples, a resposta, nem um
pouco.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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