Fachin leva crise ao plenário, Moraes adia pronunciamento e o silêncio começa a dizer tanto quanto as falas; só falta “o machado voar do cabo”.
á momentos em que uma crise institucional deixa de ser apenas uma sucessão de fatos e passa a produzir sinais. Alguns são explícitos; outros aparecem nas entrelinhas. O Supremo Tribunal Federal chega à sessão extraordinária de terça-feira, 15, às 10h, exatamente nesse ponto: ninguém sabe ainda qual será o desfecho, mas já é possível perceber que alguma coisa mudou.

A decisão de Fachin parece ter duas intenções simultâneas. A primeira é jurídica: concentrar na Presidência do Supremo os procedimentos que envolvem ministros da própria Corte e evitar que decisões conflitantes continuem sendo tomadas por diferentes gabinetes. A segunda é política, no sentido mais institucional da palavra: impedir que a guerra entre Alexandre de Moraes e André Mendonça continue sendo travada por decisões individuais, despachos, contra-ataques e respostas públicas.
Fachin já retirou de Moraes a relatoria do inquérito das fake news e suspendeu as decisões conflitantes de Mendonça e Flávio Dino sobre o comando da Polícia Federal.
Ontem, em conversa com fontes em Brasília, a coluna apurou que esses movimentos do presidente do STF são uma tentativa de tirar o incêndio dos gabinetes e colocá-lo diante do colegiado, mas há um problema: quando uma crise chega ao plenário, na avaliação de uma fonte paraense com trânsito na Corte, ela deixa de ser controlável pelos bastidores.
Na terça-feira, os ministros terão de dizer, de uma forma ou de outra, se o relatório da PF deve ser descartado, se pode produzir consequências e se existem elementos para justificar uma investigação sobre Moraes e qualquer uma dessas alternativas terá preço.
Há outro sinal que merece atenção. O ministro Alexandre de Moraes havia convocado jornalistas para um pronunciamento ontem, às 11h. Preparou uma defesa pública, mas cancelou a manifestação pouco depois. A assessoria informou que a fala será remarcada. Segundo relatos publicados nesta quinta-feira, aliados aconselharam o ministro a esperar antes de se expor.
Não é possível saber se o adiamento representa cautela, estratégia ou simplesmente a decisão de não oferecer mais combustível à crise. É possível observar uma coisa, contudo: o ministro preferiu não falar antes de saber o que o plenário fará e isso muda a leitura. Se tivesse falado ontem, teria entrado na sessão de terça-feira depois de apresentar sua própria versão dos fatos. Agora, chegará ao plenário sem ter feito essa exposição pública. Se não é prudência, bem parece. Ou seria cálculo?
Ou nenhuma coisa, nem outra: talvez seja apenas a percepção de que, neste momento, qualquer palavra pode produzir mais problemas do que soluções. O fato é que o silêncio também passou a fazer parte da crise.
Há ainda um movimento menos institucional, mas igualmente revelador. Ontem pela manhã, em uma das bancadas jornalísticas da Globo acompanhadas pela coluna, chamou atenção uma espécie de revisão de cobertura: jornalistas passaram a admitir, ainda que com diferentes graus de ênfase, que determinados aspectos da atuação de Moraes e do próprio STF talvez não tenham recebido, durante muito tempo, o questionamento que agora recebem.
Não se trata de dizer que a Globo “mudou de lado”. Isso seria simplificar demais. Mas o simples exercício de rever o que foi visto - e principalmente o que não foi visto - é significativo. Na verdade, o jornalista Merval Pereira chegou a usar a expressão “mea culpa”.
A verdade é que, durante anos, parte do debate público sobre o Supremo ficou preso a uma divisão quase infantil: quem criticava Moraes era imediatamente associado ao bolsonarismo; quem o defendia era tratado como defensor da democracia. A realidade, como quase sempre, era mais complicada. Um ministro pode ter desempenhado papel decisivo na defesa das instituições democráticas e, ao mesmo tempo, ter suas decisões, métodos, relações e limites submetidos ao escrutínio jornalístico. Uma coisa não elimina a outra.
Talvez seja esse o ponto de inflexão. O que está acontecendo agora não permite mais que a discussão seja reduzida a “Moraes contra Bolsonaro”, “Moraes contra a direita” ou “Mendonça contra Moraes”.
Há um relatório da PF. Há mensagens. Há relações que precisam ser explicadas. Há decisões judiciais conflitantes. Há uma disputa sobre competência. Há uma crise no comando da Polícia Federal. Há um pedido da PGR pela nulidade de parte do procedimento.
E há, acima de tudo, uma pergunta que deixou de ser exclusivamente dos críticos do Supremo: quem fiscaliza os fiscalizadores?
A sessão de terça-feira, portanto, não será apenas mais uma sessão do STF. Será um teste. Teste para Fachin, que assumiu a tarefa de tentar controlar a crise. Teste para Mendonça, que terá de sustentar o caminho que escolheu para investigar os fatos. Teste para Moraes, que terá de conviver com a retirada de processos de suas mãos e com a exposição de informações que antes permaneciam restritas. Teste para os demais ministros, que precisarão decidir se a melhor defesa da Corte é proteger um de seus integrantes ou permitir que os fatos sejam examinados com a mesma régua que o próprio Supremo costuma aplicar aos demais. E será também um teste para o jornalismo, porque há uma diferença entre informar sobre uma crise e tomar partido dentro dela.
Talvez a pergunta mais importante da próxima terça-feira não seja quem ganhará a disputa entre Moraes e Mendonça. Talvez seja se o STF conseguirá demonstrar que é capaz de investigar a si próprio sem transformar investigação em proteção corporativa.
O País está de olho. Aliás, até quem olhava para o outro lado começou a olhar.
·A PM publicou em julho a exoneração de um coronel de um comando na capital e, pela mesma portaria, o transferiu para o Departamento de Pessoal.
·Na sequência, outra portaria colocou um major para responder cumulativamente pelo comando.
·O movimento está sob escrutínio na caserna até hoje. Teria sido mudança administrativa ou recado? A portaria não explica, mas a troca, registrada em três atos consecutivos, certamente chama atenção.
·Falando nisso, o deputado Coronel Neil trabalha para garantir a reeleição em outubro tratando de se voltar para suas origens policiais. Na caserna, a noção é de que a corporação precisa fortalecer seu representante no Legislativo estadual.
·Está ligado no noticiário? A Danone virou bola da vez ao fechar uma fábrica com 54 anos de história, encerrando a produção de iogurtes e cortando cerca de 230 postos de trabalho. O Actívia pagou o pato.
·Como dizia vovô João Dutra, “quando a reserva começa a virar dinheiro para fechar o mês, o discurso de prosperidade merece encontrar a realidade no caixa das famílias”.
·Ou, como avalia um observador do mercado e ex-presidente de banco: : não precisa ser economista para saber que a economia da propaganda não paga salário nem mantém linha de produção funcionando.
·Brasileiros retiraram R$ 10,5 bilhões a mais do que depositaram na poupança em agosto, terceiro mês consecutivo de sangria. Em 2026, somente maio registrou entrada líquida.
·O ministro da Justiça, Wellington César, celebrou a recondução de Andrei Rodrigues ao comando da PF e garantiu que a corporação seguirá atuando de forma autônoma, "doa a quem doer".
·Para a AGU, a recondução de Andrei Passos Rodrigues à direção da PF restaura a ordem pública e representa um passo rumo à superação da crise no STF.
·Ao comentar a crise no STF, Michel Temer - que indicou Moraes à Corte - defendeu que a disputa interna seja solucionada o quanto antes.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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