Distrito histórico de Belém recebe promessa de reconstrução da Orla do Cruzeiro, mas carrega passivo urbano, social e estrutural ignorado há décadas.
Pacote inclui intervenções na Feira do Açaí, no Mirante, na Feira do Artesanato, na praça, na cobertura do anfiteatro, calçada e barracas/Fotos: Divulgação.
ntre a capital Belém e o distrito de Outeiro está Icoaraci - a antiga Vila Pinheiro -, um território de contrastes. Ao mesmo tempo bucólico e densamente povoado, o distrito convive há décadas com problemas típicos de grandes centros urbanos: crescimento desordenado, infraestrutura precária, serviços insuficientes e violência crescente.
A referência à Icoaraci ganha atualidade no contexto da COP30. Enquanto Belém recebeu uma série de obras estruturantes e Outeiro foi alçado a polo logístico e turístico com um novo porto, a chamada “Vila Sorriso” ficou à margem do grande pacote de investimentos, servindo basicamente como corredor de passagem entre dois pontos priorizados pelo poder público.
Nesta semana, porém, o distrito voltou ao radar. Durante as comemorações dos 410 anos de Belém, o Ministério das Cidades e o governo do Pará anunciaram a assinatura da ordem de serviço para a reconstrução da Orla do Cruzeiro - obra aguardada há anos por moradores e comerciantes.
O projeto prevê investimento declarado de R$ 13,85 milhões, com recursos operados pela Caixa Econômica Federal. Além da reconstrução da orla, o pacote inclui intervenções na Feira do Açaí, no Mirante, na Feira do Artesanato, na praça, na cobertura do anfiteatro, na calçada e nas tradicionais barracas de tapioca, todas no entorno da orla.
Também estão previstos dois novos espaços: uma área de recreação e esporte e barracas para venda de água de coco - símbolo histórico da identidade local. O discurso oficial aponta fomento ao turismo, geração de empregos e melhoria da mobilidade urbana.
No papel, o projeto parece devolver protagonismo a um dos polos gastronômicos mais tradicionais da Grande Belém. Na prática, porém, moradores alertam que a obra chega cercada de dúvidas antigas.
Leitor da coluna e morador de Icoaraci há décadas, lembra que a orla enfrenta problemas crônicos: calçadas deterioradas, iluminação deficiente e um muro de contenção constantemente castigado pela força das marés, colocando pedestres em risco.
“Ir à Icoaraci para comer peixe sempre foi um programa clássico de família. O vento, a paisagem e os restaurantes são atrativos, mas o abandono estrutural afasta”, resume.
O maior gargalo, segundo ele, segue sem resposta: estacionamento. “A rua se tornou estreita diante do volume de carros. Não existe espaço físico disponível. A orla precisa de uma área segura para estacionamento, mas ninguém explica como isso será resolvido.”
A dúvida é direta: haverá aterro? Desapropriação? Reorganização viária? Até agora, nenhuma dessas questões foi detalhada publicamente.
Para moradores, o anúncio da obra soa tardio e politicamente previsível. “O planejamento já era esperado. 2026 é ano eleitoral”, diz a fonte. E acrescenta: “A COP30 não deixou quase nada para Icoaraci, além da ponte sobre o rio Maguari. O impacto maior ficou em Outeiro.”
A avaliação reforça uma percepção comum no distrito: o de que Icoaraci segue sendo tratada como apêndice urbano, apesar de sua importância histórica, cultural e econômica.
Os entraves não se limitam à orla. O trapiche de Icoaraci - ponto de embarque para ilhas como Cotijuba - já foi interditado diversas vezes por risco estrutural. Entre 2017 e 2019, não eram raros os episódios de flutuantes afundando. Mesmo após a inauguração do novo Terminal Hidroviário, o trapiche antigo continua sendo utilizado, expondo passageiros a riscos.
Outro problema estrutural é o saneamento. A rede de esgoto tem mais de 50 anos e o abastecimento de água é irregular em grande parte do distrito. O resultado é impacto direto na saúde pública e na qualidade de vida da população - um problema histórico nunca enfrentado de forma sistêmica.
Nas últimas quatro décadas, Belém cresceu em direção a Icoaraci de forma acelerada e desordenada. A partir dos anos 1980 e 1990, mais de 40 grandes ocupações irregulares surgiram como alternativa de moradia mais barata. Programas habitacionais recentes tentaram mitigar o problema, mas os resultados ainda são pouco perceptíveis.
O traçado urbano sofreu. Ruas com asfalto de 20, 30 anos ou mais são comuns. Fora do núcleo original, buracos, lama e mato comprometem a mobilidade. Faltam vias adequadas para pedestres e ciclistas, enquanto vans e motocicletas dominam o transporte diário.
A expansão sem planejamento também trouxe outro efeito colateral: o avanço da violência. Alagamentos, acúmulo de lixo e degradação ambiental caminham lado a lado com o aumento da criminalidade.
Uma denúncia recorrente entre moradores e comerciantes é a cobrança da chamada “taxa do crime”. Mototáxis, pequenos comércios, restaurantes e prestadores de serviço só funcionariam mediante pagamento para evitar represálias - uma realidade que aprofunda o medo e a informalidade.
Símbolo do abandono, o Mercado de Icoaraci segue em obras desde 2023, ainda na gestão do ex-prefeito Edmilson Rodrigues (Psol). Orçada em R$ 13,7 milhões, a reforma prometia entrega em janeiro de 2024. Dois anos depois, não há previsão.
Os feirantes operam em espaço provisório, insalubre, com poeira, infiltrações e apenas um banheiro improvisado sob telhado metálico. O contraste entre promessa e realidade reforça o ceticismo local diante de novos anúncios.
A reconstrução da Orla do Cruzeiro pode ser, de fato, um ponto de virada para Icoaraci - ou apenas mais um capítulo de expectativas frustradas. Sem enfrentar os problemas estruturais que cercam o distrito, a obra corre o risco de ser mais cenário do que solução. Na vila, o desafio nunca foi apenas construir. Sempre foi planejar, manter e incluir.

•Dito e feito. A Setransbel deve ter ouvido o clamor da população do bairro da Brasília, em Outeiro, reportado pela coluna.
•O anúncio de que a empresa Nova Marambaia vai operar a linha 857 - Outeiro-Icoaraci-São Brás -, ainda que com apenas sete ônibus, sendo cinco "geladões", é um alívio para quem levava mais de 1h20 só para desembarcar em Icoaraci.
•A nova linha percorrerá Ramal do Itaiteua, avenida Paulo Costa, Nossa Senhora da Conceição, BL-10 - atravessa a ponte -, 7ª Rua de Icoaraci, avenida Lopo de Castro e Augusto Montenegro, até São Brás.
•O Senado deve votar em março o projeto que regula plataformas de streaming, já com fama internacional depois das críticas de Wagner Moura (foto) no Globo de Ouro.
•Governo, setor audiovisual e empresas digitais divergem sobre taxação e fomento. O roteiro promete conflito, com ou sem final feliz.
•Alunos da zona rural estão sob ameaça de não poderem ir às aulas - por conta do atraso de quatro meses no serviço de transporte escolar -, buracos "tapados" com cimento, comércio sufocado por impostos e taxas. Assim está Conceição do Araguaia, no sudeste do Pará, mergulhado no "apagão" da gestão.
•Em 2025, os partidos políticos movimentaram centenas de milhões de reais, com predominância de recursos do Fundo Partidário, principal fonte pública de financiamento das legendas.
•Os balanços enviados à Justiça Eleitoral também mostram aportes de filiados, dirigentes e doadores pessoas físicas.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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