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DATA CENTER

Empresa tem prazo até domingo, 6, para se explicar ao MP sobre licenciamento

MP cobra explicações da Elea sobre empreendimento que pode consumir energia equivalente à de 410 mil residências.

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  • Da Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 29/08/26 09:00
Empresa tem prazo até domingo, 6, para se explicar ao MP sobre licenciamento
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relógio está correndo para a Elea Data Centers. Termina no domingo, 6 de setembro, o prazo dado pelo Ministério Público do Pará (MP) para que a empresa explique como pretende implantar em Belém o BEL1, empreendimento anunciado como o primeiro data center voltado à Inteligência Artificial da Amazônia, sem que exista, até o momento, pedido formal de licenciamento ambiental em análise nos órgãos ambientais consultados pelo próprio Ministério Público.

 

Com capacidade potencial de 100 MW, estrutura pode formar “ilhas de calor” em Belém, segundo observações do MP/Fotos: Divulgação.

O empreendimento está previsto para começar a operar no segundo trimestre de 2027 e receberá investimento inicial de R$ 250 milhões. A primeira etapa terá capacidade de 7,5 MW, mas o projeto poderá ser ampliado até 100 MW - consumo de energia equivalente, segundo estimativa apresentada no caso, ao de aproximadamente 410 mil residências paraenses. É aí que a história deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser ambiental, urbana e política.

Um novo inquérito

O MP instaurou novo inquérito civil para investigar o projeto. A apuração está sob responsabilidade do promotor Márcio Maués, da área de Meio Ambiente, Defesa Comunitária e Cidadania, em Barcarena.

Entre as preocupações estão justamente os impactos que ainda precisam ser dimensionados: consumo de energia, eventual demanda por água, aumento da temperatura, poluição sonora e efeitos sobre as comunidades próximas.

O empreendimento poderá ser instalado na área de Miramar, no bairro do Barreiro, onde funcionava a antiga usina termoelétrica de Miramar, na avenida Arthur Bernardes. O terreno pertence à Axia Energia, apontada como parceira estratégica da Elea. E aqui aparece o primeiro ponto que o MP quer esclarecer.

“Não há processo...”

 Ao ser consultada pelo Ministério Público, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belém informou que não existe atualmente procedimento administrativo para o licenciamento do BEL1. Mais do que isso: a Semma afirmou não haver processo de licenciamento, estudos técnicos ou documentos correlatos em análise, nem registros de consultas ou audiências públicas relacionados ao empreendimento.

 A Secretaria de Meio Ambiente do Pará também informou não haver processo aberto sobre o projeto e atribuiu a competência para análise ao município. Em resumo: há projeto, investimento anunciado, área definida, parceiro energético, previsão de operação e capacidade projetada - mas, segundo os órgãos ambientais consultados pelo MPPA, não há processo de licenciamento em andamento. É justamente essa equação que o Ministério Público quer entender.

Coração de Belém

A Elea apresenta o BEL1 como uma estrutura de alta eficiência ambiental. A empresa afirma que a Axia fornecerá energia 100% renovável e que o sistema de refrigeração por expansão direta, conhecido como DX, não utiliza água. Mas a sustentabilidade anunciada pela empresa não encerra a discussão.

 Um data center com capacidade potencial de 100 MW significa uma estrutura de enorme demanda energética instalada em uma área urbana densamente ocupada. E o próprio MP chama atenção para outro risco: a formação de “ilhas de calor” em uma cidade que já enfrenta temperaturas elevadas.

 Também estão no radar o ruído produzido pelos equipamentos, a luminosidade, a infraestrutura necessária para operação e os possíveis efeitos sobre a população dos bairros próximos.

 Miramar, Barreiro, Sacramenta e Pratinha estão entre as áreas apontadas pelo MP como próximas ao local do empreendimento. Segundo o inquérito, não houve consulta pública aos moradores dessas comunidades.

 A corrida

O caso paraense acontece em meio a uma corrida internacional para atrair grandes estruturas de processamento de dados destinadas à Inteligência Artificial. A conta, entretanto, não é apenas tecnológica. Data centers exigem enormes quantidades de energia, infraestrutura de transmissão, sistemas de refrigeração e áreas adequadas para operação contínua.

No Brasil, a discussão chegou ao Senado. Em audiência realizada pela Comissão de Ciência e Tecnologia no início de agosto, especialistas discutiram justamente os impactos socioambientais dessas estruturas e defenderam regras capazes de proteger populações, comunidades tradicionais e a própria economia local.

 A discussão também alcança o governo federal. Durante a formulação das primeiras propostas do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima ficou inicialmente fora das discussões centrais.

 A explicação para a pressa é conhecida: o Brasil tenta aproveitar uma janela de oportunidade aberta pela expansão mundial da Inteligência Artificial e pela necessidade de grandes empresas de tecnologia encontrarem novos mercados com disponibilidade de energia.

O problema é quando a velocidade da corrida começa a ultrapassar a capacidade de planejamento. A conta que vem junto com o investimento

Entidades do setor de tecnologia e estudos ligados a órgãos governamentais defendem maior flexibilização do licenciamento para data centers, sob o argumento de que são estruturas sem emissão direta de poluentes atmosféricos e, portanto, diferentes de indústrias tradicionais. Mas essa definição não elimina os impactos.

Uma instalação capaz de chegar a 100 MW pode não produzir fumaça, mas consome energia em escala industrial, exige infraestrutura permanente e altera a dinâmica urbana do território onde se instala.

No caso do BEL1, o Ministério Público quer saber se essa conta foi devidamente calculada antes da obra avançar.

E há uma pergunta que paira sobre o empreendimento: como um projeto anunciado para entrar em operação em 2027, com investimento inicial de R$ 250 milhões e expansão prevista até 100 MW, chegou tão longe sem que os órgãos ambientais tenham sequer um processo de licenciamento em análise? A resposta agora está nas mãos da Elea.

O prazo termina domingo. E, desta vez, não será a Inteligência Artificial que terá de responder.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.