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ELEIÇÕES 2026

PT recalibra o Pará e esvazia planos da família Beto Faro em congresso nacional

Além de confirmar disputa interna, alto comando do partido muda eixo no Senado e complica negociação com MDB no Pará.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 27/04/26 11:25
PT recalibra o Pará e esvazia planos da família Beto Faro em congresso nacional
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 8º Congresso Nacional do PT, realizado em Brasília no fim de semana, funcionou como um divisor de águas para o partido no Pará. O encontro não apenas reposicionou a estratégia nacional para 2026, como também deixou à mostra fissuras antigas na seção estadual - agora agravadas por movimentos de cúpula que atropelaram planos locais.

 

Ausência do senador no evento confirma as informações sobre o crescente desalinhamento com a direção nacional/Fotos: Divulgação.

A ausência do senador Beto Faro e da deputada federal Dilvanda Faro foi sentida - e interpretada. Nos bastidores, o gesto foi lido como sintoma de desalinhamento com a direção nacional. O recado veio em forma de articulação: o grupo ligado ao ex-ministro José Dirceu avançou sobre o tabuleiro paraense e reposicionou o jogo do Senado.

Um novo desenho

A principal inflexão envolve a construção de uma candidatura ao Senado com o ex-ministro Celso Sabino, do PDT, tendo a ex-governadora Ana Júlia Carepa como primeira suplente. A equação atende a dois objetivos do PT nacional: ampliar interlocução no Congresso e garantir um nome competitivo em uma disputa considerada estratégica para a governabilidade.

No próprio congresso, Ana Júlia tratou de encerrar rumores: disse estar apta e disposta a compor a chapa. A sinalização contraria versões atribuídas ao entorno dos Faro de que ela teria recusado a posição.

Efeito dominó

A nova engenharia política produz impacto direto na relação com o MDB no Pará. Ao reduzir o espaço do PT na composição majoritária, esvazia a pressão pela vaga de vice na chapa da governadora Hana Ghassan. Com isso, o MDB ganha margem para buscar um nome com maior densidade eleitoral em segmentos onde hoje é mais frágil - especialmente entre lideranças evangélicas e no agronegócio.

Em leitura pragmática, a ideia é ampliar capilaridade e disputar votos em áreas de influência da direita, inclusive na órbita do prefeito de Ananindeua, Daniel Santos.

Racha exposto

Dentro do PT paraense, o ambiente azedou. Dirigentes críticos aos Faro foram explícitos no congresso: acusam o senador de conduzir um projeto próprio, desconectado das diretrizes nacionais. O diagnóstico é de perda de capilaridade – hoje, o partido governa apenas um município entre os 144 do Estado, apesar de manter bancadas relevantes na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal, além de uma cadeira no Senado que, aos olhos de integrantes do partido, pode perder.

A disputa interna tem nome e consequência. O grupo dos Faro tenta emplacar o deputado estadual Dirceu Ten Caten como vice. Se não houver espaço, aliados de Marabá ameaçam reposicionamento - inclusive com candidatura à Câmara Federal, o que embaralha o projeto de eleição do filho de Beto Faro, Yuri Faro.

Coordenação e comando

Outro movimento relevante em discussão é a possível entrega da coordenação da campanha presidencial no Pará ao ex-senador Paulo Rocha e à ex-governadora Ana Júlia. A ideia reforça o eixo nacional e retira protagonismo do grupo hoje dominante no diretório estadual.

No pano de fundo, há preocupação com os palanques de Lula. A direção nacional busca reduzir riscos e ampliar governabilidade futura, com atenção redobrada ao Senado. A leitura em Brasília é objetiva: menos ruído regional, mais previsibilidade em votos e alianças.

Cálculo do MDB

Do lado do governo estadual, o diagnóstico é de conforto relativo. Com o PT enfraquecido na negociação local, o MDB passa a escolher com mais liberdade o perfil do vice. Interlocutores apontam que o foco está em setores capazes de ampliar base eleitoral e reduzir a influência adversária em nichos específicos. A avaliação também considera o histórico recente: a necessidade de manter boa relação com o governo federal sem abrir mão de uma engenharia eleitoral própria.

O congresso do PT não apenas redefiniu prioridades nacionais - ele redesenhou o mapa político do Pará. Ao deslocar o eixo da disputa para o Senado e reduzir o espaço de manobra local, a direção nacional impôs um novo equilíbrio. Para os Faro, o recado foi direto. Para o MDB, abriu-se uma janela. Para as eleições deste ano, o jogo mudou - e ainda está longe de estabilizar.

Ana Júlia volta ao jogo, ainda que para coordenar a campanha de Sabino, segundo os bastidores.


Fator Lula favorece
Sabino em percurso
pela centro-esquerda

Sem nome próprio competitivo, campo progressista do partido no Pará se reorganiza e aposta em solução híbrida com aval de Lula.

Redação | Newton Pereira

 A disputa pelo Senado no Pará volta a expor uma fragilidade histórica da centro-esquerda: a dificuldade de sustentar candidaturas competitivas próprias. Em 2026, esse vazio reaparece - e empurra o campo progressista para uma alternativa fora do eixo tradicional: o deputado federal Celso Sabino.

Desde a redemocratização, o desempenho da esquerda e de aliados no Senado oscilou entre momentos de protagonismo e longos intervalos de dependência de arranjos mais amplos. Em vários ciclos, o campo progressista chegou competitivo, mas não converteu força política em vitória.

Em 1982, a vaga ficou com Hélio Gueiros, impulsionado pela estrutura do então PMDB. Em 1986, com duas cadeiras em jogo, Almir Gabriel venceu com apoio ampliado, enquanto Jarbas Passarinho assegurou a outra. Já em 1990, Ademir Andrade foi o nome da centro-esquerda, mas não levou.

O cenário mudou em 1994, quando duas vagas permitiram a eleição de Jader Barbalho e do próprio Ademir. Em 1998, Ana Júlia Carepa ficou em segundo. Em 2002, ela reverteu o resultado e se elegeu, repetindo a lógica de recuperação já vista antes.

Nos anos seguintes, a irregularidade persistiu. Em 2006, Mário Cardoso teve votação expressiva, mas não venceu. Em 2010, a eleição foi marcada por disputas judiciais que embaralharam o resultado até decisão final do STF. Em 2014, Paulo Rocha garantiu a vaga para o campo progressista. Em 2018, porém, nenhuma candidatura alinhada à esquerda avançou. Em 2022, houve retomada com a eleição de Beto Faro.

Vácuo aberto

O problema reaparece em 2026. PT e Psol, principais forças do campo, optaram por não lançar nomes próprios com viabilidade eleitoral. Paulo Rocha ficou fora da disputa; Edmilson Rodrigues não entrou no jogo; e Ursula Vidal tende a buscar vaga na Câmara. Na prática, a centro-esquerda chega ao pleito sem candidatura competitiva ao Senado.

Tabuleiro montado

O desenho da eleição indica uma vaga fortemente associada ao grupo governista, com o ex-governador Helder Barbalho como presença central. No campo da direita, aparecem nomes como Éder Mauro e Zequinha Marinho.

Esse arranjo reduz o espaço de migração do eleitorado progressista, que tende a resistir a candidaturas mais ideológicas do campo oposto. Ao mesmo tempo, o peso da máquina pública amplia a vantagem de candidaturas alinhadas ao governo estadual.

Solução fora da curva

É nesse intervalo que ganha corpo o nome de Celso Sabino. Ex-ministro do Turismo no governo Lula e com atuação destacada na agenda da COP30, Sabino surge como alternativa de convergência. A leitura em Brasília é de que ele reúne dois ativos raros: capacidade de diálogo com a centro-esquerda e trânsito consolidado no centro e na centro-direita.

A passagem pela presidência da Comissão Mista de Orçamento ampliou sua capilaridade no estado, especialmente junto a prefeitos e lideranças do interior - fator que pesa em eleições majoritárias.

Aposta nacional

O apoio do presidente Lula é o elemento que consolida essa construção. Nos bastidores, a articulação inclui a possibilidade de composição com nomes do PT na suplência - entre eles, a ex-governadora Ana Júlia Carepa.

Sem candidato próprio, a centro-esquerda paraense caminha, portanto, para uma solução pragmática: sustentar um nome competitivo fora de seus quadros formais, com o objetivo de manter presença no Senado. É menos uma escolha ideológica - e mais um movimento de sobrevivência política.

Papo Reto

•A Prefeitura de Belém acaba se contradizendo nessa história de reforma do Cine Olympia - mais uma vez. Depois de afirmar, em nota oficial, há um ano, que “não há, no projeto, qualquer redução no tamanho da sala de exibição”, a conversa mudou.

Semana passada, avisou que a capacidade da sala foi reduzida para 255 poltronas, visando “maior conforto”. Antes da reforma e por muito tempo, o número de poltronas naquela casa de exibição era de cerca de 400 lugares. 

•O cinema, inaugurado em 1912, encerrou atividades temporariamente em 2020, por conta da pandemia e está fechado desde então, mesmo que em obras de restauração.

O grupo de jornalistas do WhatsApp mantido pela comunicação da Prefeitura de Belém se tornou alvo de gozações pesadas entre os jornalistas. 

•A cada pauta anunciada oficialmente pela aquela Secretaria de Comunicação, todos no grupo ficam à espera do desdobramento: a pauta é cancelada, quase sempre. 

Muitas das vezes, são pautas de bastante relevância canceladas sem maiores explicações. O que parece é que não está havendo uma comunicação mais afinada no alto escalão da gestão Igor Normando (foto).

•A bancada do PT na Câmara apresentou um projeto de lei conjunto que proíbe o funcionamento de todas as plataformas de apostas no Brasil. 

O Senado analisa dois projetos que propõem reajuste e atualização anual da bolsa de médicos residentes. As propostas preveem valores entre R$ 7,5 mil e R$ 8.105, com correção pela inflação.

Mais matérias OLAVO DUTRA

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.