Resultado sem nota mínima e presença de dirigentes entre aprovados acendem questionamentos sobre critérios e isonomia
que era ventilado em voz baixa nos corredores do Tribunal de Justiça do Pará deixou de ser comentário de bastidor para ganhar forma oficial. A publicação, no Diário da Justiça de 31 de março, do resultado do Concurso de Remoções de Tabeliães e Oficiais Registradores não apenas confirmou expectativas como acendeu um sinal de alerta dentro da própria categoria.

O primeiro ponto de atenção está na composição dos aprovados. Nomes ligados à diretoria da Associação dos Notários e Registradores do Pará aparecem entre os classificados - o que, por si só, não configura irregularidade, mas passou a ser questionado nos bastidores. Para parte dos oficiais, a equação é conhecida: a atuação institucional, sobretudo em funções de representação, consome tempo e energia - dois ativos centrais para a preparação exigida em certames desse porte.
A leitura interna é direta e pouco disfarçada. Entre registradores e notários, há distinção clara entre quem mantém rotina contínua de estudo e atualização e quem, com o tempo, entra em zona de conforto. É nesse ponto que o resultado começou a ser visto com ressalvas por integrantes da própria classe.
Mas não é só. O formato do concurso ampliou o ruído. Diferentemente do que se observa em outros certames, não houve aplicação de nota de corte. Na prática, isso significa que todos os candidatos habilitados seguiram para as etapas seguintes, independentemente da margem de desempenho.
O efeito é imediato: a régua deixa de ser exclusivamente técnica na fase inicial e o peso da seleção é deslocado para as etapas posteriores - justamente aquelas em que entram critérios mais sensíveis, como prova prática e análise funcional.
Os números ajudam a explicar o desconforto. A primeira colocada na remoção alcançou nota 7,60, enquanto, no concurso geral de ingresso na carreira, o topo chegou a 9,60. A diferença, ainda que não conclusiva, passou a ser usada como parâmetro comparativo nos bastidores.
Além disso, há forte concentração de candidatos em uma faixa intermediária de desempenho - o que cria um “empate técnico” e aumenta a imprevisibilidade da próxima fase. Em condições normais, parte desse grupo seria filtrada por nota mínima. Aqui, segue inteira no jogo.
Nos bastidores, a avaliação é pragmática: ao dispensar a nota de corte, o tribunal reduz o risco de questionamentos formais por exclusão precoce. Em contrapartida, transfere a pressão para etapas posteriores, onde decisões tendem a ser mais subjetivas - e, portanto, mais sensíveis a contestações.
O episódio, que começou como murmúrio de corredor, já evoluiu para um debate mais amplo sobre critérios, nível de exigência e, sobretudo, isonomia entre os diferentes modelos de seleção dentro da própria carreira.
O que está em jogo vai além de um resultado específico: é a confiança no processo. E, como se sabe no meio jurídico, confiança não se impõe - se constrói. Quando abalada, dificilmente se recompõe em silêncio.

•Um dado extremo do funcionalismo estadual foi o clima de celebração entre auditores fiscais da Secretaria da Fazenda e integrantes do SindiFisco com a posse de Hana Ghassan (foto) no comando do governo.
•A chegada de uma colega de carreira ao topo do Executivo é vista como sinal de prestígio institucional - e, claro, como oportunidade de maior interlocução dentro do Palácio.
•Em 1º de abril, dia consagrado às inverdades, há notícias que parecem peças de ficção. Mas não são. Uma sessão no TJ/PB chamou atenção depois de juiz e advogado rememorarem o 31 de março de 1964 - marco do início da ditadura militar - em tom elogioso.
•Em tempos em que a política brasileira tropeça mais em narrativas do que em fatos - e onde, não raro, um "boi errado" atravessa o plenário digital antes de qualquer checagem - convém lembrar que a vocação para acreditar no improvável não é exatamente novidade.
•No longínquo 1º de abril de 1983, a revista inglesa “New Scientist”, em homenagem ao Dia da Mentira, publicou um achado "científico" de fazer inveja a qualquer laboratório tropical.
•O boimate, fruto da fusão entre o boi e o tomate. A promessa era tentadora - colher do pé algo já próximo de um filé ao molho.
•O gracejo atravessou o Atlântico e encontrou terreno fértil. A revista Veja, sem desconfiar da pilhéria, tratou o tema com seriedade editorial: ilustrou, explicou e ainda buscou respaldo acadêmico com um biólogo da USP.
•Quatro décadas depois, a tecnologia avançou, os algoritmos se sofisticaram e o ambiente informacional ganhou velocidade estonteante. Mas o impulso de acreditar - ou de compartilhar antes de conferir - segue firme, às vezes mais robusto que o próprio boimate.
•Moral da história: entre a sátira de ontem e as "verdades" apressadas de hoje, o risco continua o mesmo, o de trocar o pasto da realidade pelo terreno fértil da credulidade.
•E, para encerrar as histórias de 1º de abril envolve o filósofo São Tomás de Aquino. Conta-se que, ao ouvir a exclamação de um colega de mosteiro ("Olha um boi voando!"), o Doutor Angélico teria ido à janela para presenciar o insólito voo do animal.
•Diante do riso dos frades, respondeu com serenidade que era "muito mais provável um boi voar do que um frade mentir".
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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