Espécie enfrenta risco de perda genética que dificultam conservação, cultivo e uso racional da planta
Santarém, PA - A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) tem avançado na construção de uma estratégia integrada de conservação e uso sustentável da Uncaria tomentosa, conhecida como unha-de-gato. A espécie medicinal é amplamente utilizada na Amazônia e vem sendo associada a riscos de erosão genética em função da exploração extrativista e da fragmentação ambiental. Essa erosão pode resultar em menor capacidade de adaptação, maior vulnerabilidade a doenças e risco de extinção.
A iniciativa integra ações de pesquisa, extensão e inovação em saúde desenvolvidas no âmbito do projeto FarmaFittos, que envolve a Ufopa, a Arquidiocese de Santarém, a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) de Santarém e instituições parceiras, como a Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), responsável por parte do desenvolvimento científico associado à conservação genética da espécie.
Estudos científicos, como os conduzidos pela professora Dra. Ana Maria Soares (Unaerp), apontam que a variabilidade genética da Uncaria tomentosa se encontra distribuída de forma desigual entre populações naturais, muitas vezes isoladas, o que pode comprometer a capacidade adaptativa da espécie e sua sobrevivência a longo prazo. Esse cenário reforça a necessidade de estratégias que integrem conservação, cultivo e uso racional da planta, visando diminuir o processo de erosão genética.
A Uncaria tomentosa é uma planta medicinal valiosa e de grande interesse do Sistema Único de Saúde (SUS). É conhecida por suas propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e imunomoduladoras.
Ciência e biodiversidade
Na Ufopa, esse trabalho com a unha-de-gato vem sendo desenvolvido desde meados de 2024, a partir da implantação de um banco de germoplasma, uma estrutura para conservação da espécie, e de técnicas de multiplicação de plantas em ambiente controlado, no Laboratório do Núcleo de Bioativos do projeto de pesquisa e extensão Maniva Tapajós. Parte desse material genético foi introduzido por meio de cooperação com a Unaerp e vem sendo reproduzido localmente, garantindo a preservação de diferentes genótipos da espécie.
Segundo os pesquisadores envolvidos, o objetivo não é apenas conservar a planta, mas também criar condições para seu uso sustentável, evitando a pressão sobre populações naturais.
“O trabalho tem sido desenvolvido com foco na conservação da diversidade genética associada ao cultivo orientado, o que permite reduzir a coleta predatória e, ao mesmo tempo, ampliar o acesso seguro à planta para uso medicinal”, afirma o professor Dr. Wilson Sabino, docente do Instituto de Saúde Coletiva (Isco) da Ufopa e coordenador do Grupo de Extensão FarmaFittos.
Fortalecimento comunitário
Atualmente, o projeto entra em uma nova fase, com a meta de produção de aproximadamente 1.000 mudas de Uncaria tomentosa até o final de 2026. Essa etapa será realizada em parceria com o Projeto Saúde e Alegria e com agricultores familiares de comunidades ribeirinhas do Alto Tapajós.
Além da produção, a iniciativa envolve processos de capacitação comunitária, com foco no cultivo sustentável da espécie e na valorização dos sistemas produtivos locais.
A proposta é que as mudas produzidas a partir de material geneticamente conservado sejam incorporadas aos territórios, promovendo uma alternativa ao extrativismo predatório e contribuindo para a geração de renda e o fortalecimento da autonomia das comunidades.
Integração com o SUS
As ações do FarmaFittos passaram a integrar uma estratégia institucional vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS), por meio de um termo de cooperação técnica firmado entre a Prefeitura de Santarém, a Ufopa e a Arquidiocese de Santarém.
O acordo prevê a implementação da primeira fase do programa Farmácia Viva, incluindo a produção de insumos vegetais, elaboração de protocolos clínicos, mobilização comunitária e fornecimento de mudas, em conformidade com as diretrizes nacionais de fitoterapia no SUS.
Essa articulação estabelece uma governança compartilhada, na qual a universidade atua na base científica, a gestão pública na coordenação e financiamento das ações, e a Arquidiocese na mobilização social e territorial.
Atualmente, o projeto trabalha com as plantas erva-baleeira, chambá, erva-penicilina, folha-da-fortuna, açafrão, e outras espécies, que estão sendo cultivadas em um espaço da Arquidiocese de Santarém, o Centro de Formação Emaús, localizado à rodovia Curuá-Una.
Foto: Aritana Aguiar
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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