BRT nasce lotado, mas descarrila com erros de projeto e de gestão de tráfego CNJ afasta cartório, portas se fecham e Tracuateua vira "refém de vizinhos" UFPA troca vocação acadêmica por palanque político e quebra no lado fraco
FAMÍLIA & RENDA

Aposentadoria vira renda familiar e expõe adultos que não assumem filhos

Avós sustentam lares, criam netos e absorvem custos que o Estado e a família transferiram em silêncio.

  • 42 Visualizações
  • Da Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 26/01/26 17:00
Aposentadoria vira renda familiar e expõe adultos que não assumem filhos
O


Brasil construiu, sem debate público e quase sem estatística oficial dedicada, uma engrenagem social perversa: aposentados passaram a ocupar o papel de última âncora financeira de famílias inteiras. Em milhares de lares, o benefício previdenciário deixou de ser renda de descanso para se tornar salário coletivo, bancando alimentação, aluguel, escola, remédios e, não raro, a criação integral dos netos.

Pais ausentes que “não assumem e nem entregam” repassam a conta adiante e criam não um conflito doméstico; mas estrutural/Fotos: Divulgação.

 Colchão social

Os dados gerais confirmam o fenômeno. Levantamentos do IBGE e de institutos de pesquisa social mostram que cresce o número de domicílios sustentados majoritariamente por pessoas com mais de 60 anos. Em muitos casos, o idoso é o único rendimento estável da casa. Aposentadoria e pensão viraram colchão social informal - função que jamais foi pensada para o sistema previdenciário.

Inversão de papéis

A lógica tradicional foi invertida. Pais que deveriam contar com apoio dos filhos adultos assumem despesas permanentes de gerações mais novas. O discurso é sempre provisório - “até arrumar emprego”, “até o menino crescer”, “até a situação melhorar”. O provisório, porém, se cristaliza. O custo sobe de geração e o tempo passa sem que a responsabilidade volte para quem deveria exercê-la.

Nesse contexto, multiplicam-se histórias conhecidas: filhos adultos que retornam à casa dos pais com família formada; mães-solo que dependem integralmente dos avós; e pais ausentes que “não entregam” - não cuidam, não pagam, não assumem - e ainda repassam a conta para os pais da companheira. O conflito não é doméstico; é estrutural.

Um custo invisível

Criar netos na velhice cobra um preço alto. Há o impacto financeiro direto, que corrói um benefício já apertado, e o desgaste físico e emocional de quem deveria estar reduzindo o ritmo. Avós assumem rotinas escolares, consultas médicas, despesas imprevistas e responsabilidades legais sem qualquer proteção adicional do Estado.

Não há política pública robusta para esse contingente. A assistência social trata o fenômeno como exceção; a Previdência ignora o desvio de função; e o mercado simplesmente se beneficia do consumo sustentado por uma renda que não cresce. O resultado é um sistema que se equilibra à custa de quem já trabalhou a vida inteira.

Sem responsabilidade

O ponto sensível da discussão não é gênero, mas responsabilidade. A evasão do dever parental tornou-se socialmente tolerada, diluída em narrativas de crise econômica e desemprego crônico. O problema é real, mas não explica tudo. Há abandono, conveniência e acomodação - porque alguém, quase sempre os avós, cobre o rombo.

A Justiça até prevê pensão, mas a execução é lenta, falha ou inexistente. Na prática, o custo recai sobre quem não tem mais tempo de recompor renda. O silêncio social em torno disso ajuda a perpetuar o arranjo.

Conta futura

Enquanto isso, o País discute sustentabilidade do INSS sem olhar para dentro das casas. A aposentadoria virou política social informal, sem regra, sem amparo e sem reconhecimento. O Brasil envelhece transferindo responsabilidades para quem já deveria estar protegido - e naturaliza o desequilíbrio como se fosse virtude familiar.

A pergunta incômoda: quem sustenta quem neste País? E até quando os avós seguirão pagando uma conta que não contraíram?

Papo Reto

Lula (foto) celebrou as quatro indicações de O Agente Secreto ao Oscar e destacou o momento do cinema brasileiro. 

•O presidente também parabenizou Adolpho Veloso, indicado a Melhor Fotografia, afirmando que o reconhecimento internacional valoriza a cultura do país. 

"O Agente Secreto" vai além do cinema e propõe uma leitura política sobre hierarquia, burocracia e funcionamento do Estado, colocando as instituições no centro da narrativa. 

•PRF alertou para riscos à segurança viária na BR-040 devido à marcha liderada pelo deputado Nikolas Ferreira rumo a Brasília. 

Gleisi Hoffmann confirmou que será candidata ao Senado pelo Paraná. 

•O ministro da Justiça, Wellington César, convidou Chico Lucas, atual secretário de Segurança Pública do Piauí, para comandar a Secretaria Nacional de Segurança Pública. 

A aprovação do projeto que regulamenta a vistoria veicular provocou reação após comissão tornar obrigatória a inspeção para carros com mais de cinco anos. 

•O autor, Fausto Pinato, admitiu retirar o texto se a mudança for mantida. Na CCJ, o relator Kim Kataguiri promete excluir a exigência e rever o projeto. 

Pesquisa do Instituto Locomotiva revelou que 94% dos brasileiros associam o cigarro ilegal ao financiamento do crime organizado. 

•Levantamento indicou ainda cobrança por mais fiscalização e punições mais duras ao comércio ilegal.

Mais matérias OLAVO DUTRA

img
Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.