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LUTA PELA TERRA

Desde o massacre de Carajás, há 30 anos, Brasil conta 1.149 mortes no campo

Estatísticas chega ao impressionante número de 1 morte no campo a cada 10 dias desde a tragédia no sudeste do Pará

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  • Da Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 18/04/26 17:00
Desde o massacre de Carajás, há 30 anos, Brasil conta 1.149 mortes no campo
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xiste um antes e um depois do dia em que 19 trabalhadores rurais foram emboscados pela Polícia Militar do Pará e assassinados no trecho da rodovia PA-150 conhecido como Curva do S, em Eldorado do Carajás. Desde então, o dia 17 de abril de 1996 é um marco na história da disputa pelo direito à terra no Brasil.

 

No Brasil, 145 mil trabalhadores seguem acampados irregularmente, 30 mil deles somente no Pará/Foto: Divulgação.

Três décadas após seu mais simbólico episódio de violência no campo, o Brasil segue marcado pelas tensões fundiárias. O número de conflitos segue em rota ascendente enquanto o país vive um acirramento de embates que se espraiam dos fóruns da política institucional às comunidades rurais.

Desde 1996, ano do massacre de Carajás, o Brasil teve média de uma morte no campo a cada 10 dias, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CP). Ao todo, foram 1.149 pessoas assassinadas de 1996 a 2025.

O número de conflitos no campo cresceu, superando a marca de 2.000 casos desde 2022 - os dados mais recentes são de 2024, quando o Brasil registrou 2.185 conflitos, segunda maior marca desde 1985. 

A triste história

Em 1996, cerca de 1.100 pessoas ligadas ao MST saíram em marcha de Curionópolis, no sudeste do Pará, em direção a Belém. A rodovia foi bloqueada e o então governador do Pará, Almir Gabriel, do PSDB, determinou a desobstrução da pista. Os sem-terra resistiram e a polícia decidiu pelo confronto: 19 sem-terra foram mortos e outras 60 pessoas ficaram feridas, entre trabalhadores rurais e PMs. Dos 155 policiais que participaram da ação, apenas dois oficiais que comandaram a operação foram condenados.

Impunidade e omissão

Apesar da repercussão, inclusive internacional, provocada pelo caso, os conflitos seguem como marca persistente no Brasil. No sudeste do Pará, onde aconteceu o massacre de 1996, as disputas agrárias incluem mais de 190 fazendas ocupadas e cerca de 20 mil famílias envolvidas.

Os relatórios da CPT apontam não só uma persistência, mas uma reconfiguração da violência no campo desde as mortes em 1996. Uma das marcas que permanecem é a da impunidade, que se reflete em episódios posteriores como os massacres de Pau D’Arco, no Pará, e o de Colniza, no Mato Grosso.

Os dois casos aconteceram em 2017, ano em que 74 pessoas foram assassinadas em conflitos no campo, maior número da série histórica. Em Pau D’Arco, foram dez sem-terra mortos em uma ação conjunta das polícias Militar e Civil - os 16 policiais suspeitos ainda não foram julgados.

Perfil das vítimas

Nesses 30 anos, também houve mudança no perfil das vítimas. Nos anos 1990, a maioria dos mortos eram trabalhadores sem-terra e posseiros. Nos últimos anos, cresceram os ataques contra indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais - em 2024, os indígenas lideraram as estatísticas de mortes no campo.

A pauta contrária aos movimentos de luta pela terra ganhou espaço no Congresso Nacional, com o fortalecimento da bancada ruralista e propostas legislativas que buscam restringir ocupações, endurecer punições e, em alguns casos, enquadrar as ações como terrorismo.

Esse discurso ganhou força a partir da ascensão de Jair Bolsonaro em 2018, quando a crítica aos movimentos de reforma agrária foi incorporada de forma explícita à agenda presidencial. Segundo a CPT, os conflitos no campo também são agravados pelo passivo de famílias acampadas, que em todo o Brasil chegam a 145 mil - sendo 30 mil delas apenas no Pará.

Estímulo à violência

E como um discurso leva a outro, movimentos formados por donos de propriedades tornam o embate ainda mais acirrado. Um deles é o "Invasão Zero", que reúne proprietários rurais com o objetivo declarado de impedir invasões de terra, muitas vezes atuando com homens armados e sem o respaldo da Justiça.

A entidade diz que age de forma pacífica e que luta pelos seus direitos de forma legal. Movimentos de reivindicação de terras falam em ação coordenada entre grupos políticos e setores econômicos contra a reforma agrária.

Mais matérias OLAVO DUTRA

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.