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SAÚDE PÚBLICA

Bets drenam consumo, adoecem trabalhador, quebram negócios e preocupam empresas

Avanço das apostas online deixa de ser apenas entretenimento, reduz poder de compra das famílias, chega aos departamentos de RH e leva governos a reagirem com restrições e programas de tratamento.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 04/08/26 09:00
Bets drenam consumo, adoecem trabalhador, quebram negócios e preocupam empresas
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s apostas esportivas online já não são tratadas apenas como uma modalidade de entretenimento. O crescimento acelerado das chamadas bets passou a produzir efeitos que ultrapassam o universo dos jogos e começam a atingir a economia, as relações familiares, o mercado de trabalho e até a saúde pública.

 

Reflexos da jogatina já não perturbam apenas o ambiente familiar, mas o próprio comércio, com fuga de mais de R$ 140 bi, segundo o Banco Central/Fotos: Divulgação.

Na metade de julho, a Prefeitura do Rio de Janeiro decidiu proibir publicidade de casas de apostas em espaços públicos municipais. A justificativa foi direta: o impacto social das apostas já se aproxima do observado com produtos reconhecidamente nocivos, como o cigarro.

A decisão foi embasada em números que impressionam. Enquanto o governo federal arrecadou cerca de R$ 4,5 bilhões em tributos sobre o setor, estimativas apontam que R$ 143,8 bilhões deixaram de circular no comércio brasileiro para abastecer plataformas de apostas.

Especialistas avaliam que esse dinheiro deixou de financiar compras, investimentos familiares e consumo de bens e serviços, afetando diretamente diversos segmentos da economia.

O destino do dinheiro

O fenômeno alterou o comportamento do consumidor. Empresas passaram a disputar espaço não apenas com concorrentes tradicionais, mas também com plataformas digitais que funcionam vinte e quatro horas por dia e permitem apostas instantâneas por meio do Pix.

Estudos do Banco Central mostram que bilhões de reais são movimentados mensalmente pelas plataformas, consolidando o sistema de pagamentos instantâneos como principal porta de entrada para o mercado das apostas. O resultado é percebido pelo comércio.

Parte da renda disponível das famílias simplesmente deixa de chegar às lojas, supermercados, restaurantes e prestadores de serviços para alimentar um mercado cujo retorno financeiro beneficia poucas pessoas e concentra enormes volumes de recursos.

Problema nas empresas

Os reflexos também aparecem dentro das empresas. Departamentos de Recursos Humanos passaram a receber relatos de trabalhadores endividados, conflitos familiares e dificuldades financeiras diretamente relacionados às apostas.

Segundo a Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), o jogo compulsivo já provoca afastamentos, redução de produtividade e problemas de saúde mental. Sem protocolos consolidados para enfrentar essa nova realidade, muitas empresas recorrem a orientações disponíveis na internet e encaminham funcionários para atendimento especializado oferecido pelo Sistema Único de Saúde.

Grandes indústrias brasileiras, incluindo fabricantes de eletrodomésticos, produtos de limpeza e empresas do setor siderúrgico, passaram a promover campanhas internas de conscientização e programas de acolhimento voltados aos empregados que apresentam sinais de dependência.

Doença reconhecida

O transtorno do jogo, conhecido como ludopatia, é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde. O diagnóstico ocorre quando apostar passa a ocupar posição central na vida da pessoa, comprometendo relações familiares, trabalho e vida financeira.

Dados do INSS mostram que, em 2025, primeiro ano completo do mercado regulamentado, os afastamentos relacionados ao transtorno aumentaram quase 60% em comparação com o ano anterior.

Embora o número ainda seja pequeno diante do total de benefícios concedidos, especialistas alertam que a maioria dos pacientes apresenta outros transtornos associados, como ansiedade, depressão e dependência de álcool e drogas. Essa combinação amplia os impactos sociais e econômicos da doença.

Justiça acompanha

A discussão também chegou ao Judiciário. O Tribunal Superior do Trabalho analisa processos que discutem se a ludopatia deve receber tratamento semelhante ao dado à dependência química em casos envolvendo demissões por justa causa. O entendimento poderá influenciar futuras decisões trabalhistas em todo o País, à medida que o número de casos aumenta.

Casos locais

No Pará, o tema também já apareceu em episódios políticos. Durante o recente conflito interno do Partido Liberal, envolvendo acusações entre o deputado federal Éder Mauro e o vereador Zezinho Lima, surgiu a informação de que Lucas Rego de Brito - apontado como intermediário entre os dois grupos - teria praticado atos investigados em razão de uma suposta dependência em apostas esportivas.

Independentemente da responsabilização individual, o episódio ilustra como o vício em jogos deixou de ser um problema restrito ao ambiente familiar e passou a aparecer também em disputas políticas, relações profissionais e investigações policiais.

Corrida para tratar

Enquanto o mercado das apostas continua crescendo, o poder público tenta reduzir seus efeitos. Desde março deste ano, o Ministério da Saúde oferece atendimento especializado por telemedicina para pessoas com transtorno do jogo, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês. Também existem iniciativas como os Jogadores Anônimos e serviços especializados do Hospital das Clínicas da USP.

A procura por ajuda, porém, tende a crescer em ritmo muito superior à capacidade instalada. No fim das contas, o dinheiro perdido nas apostas não desaparece apenas do bolso do apostador. Ele também deixa de movimentar o comércio, compromete empresas, afeta famílias, sobrecarrega os serviços de saúde e cria um novo desafio para o mercado de trabalho e para o próprio Estado brasileiro.

Papo Reto

Chamou atenção, nos bastidores, que em pelo menos dois municípios visitados recentemente o senador Beto Faro (foto) evitou citar os nomes de Helder Barbalho e da governadora Hana Ghassan. Em política, silêncio também é discurso. Pode significar muita coisa. Ou absolutamente nada.

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Barcarena voltou a aparecer no mapa da excelência estudantil. A aluna Manuela Bentes Amorim Luzia, de 12 anos, conquistou medalha de ouro na Copernicus Olympiad - Global Round 2026, em Nova York, ficando entre os 10 melhores competidores. A irmã, Maitê, e Ana Beatriz Martins também trouxeram menções honrosas para o Pará.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.