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AMAZÔNIA SAQUEADA

Brasil deixa porta escancarada e vê riquezas mudarem de mãos sem licença

Entre o contrabando histórico e a indústria global, riquezas amazônicas mudam de mãos enquanto o Estado assiste.

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  • Da Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 19/12/25 17:00
Brasil deixa porta escancarada e vê riquezas mudarem de mãos sem licença
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e o Brasil não é um trem descarrilhado, parece. Fronteiras porosas, fiscalização frouxa e um sistema alfandegário cheio de atalhos ajudam a explicar por que riquezas amazônicas continuam mudando de mãos - quase sempre sem pedir licença. O resultado é um País que domina conhecimento, genética e biodiversidade, mas perde mercado, escala e protagonismo.

Desleixo oficial deixou o tambaqui cruzar a fronteira e hoje tem a China na liderança da produção; o açaí, por enquanto, vai escapando a cobiça internacional/Fotos: Divulgação.
A cobiça não é nova. No fim do século 18, o botânico britânico Henry Wickham contrabandeou sementes de seringueira da Amazônia para a Inglaterra. O gesto pavimentou plantações na Ásia e ajudou a quebrar o ciclo da borracha no Norte do Brasil. Dois séculos depois, o roteiro se repete, com menos aventura e mais omissão.

Nos anos 1990, empresas japonesas registraram a marca “cupuaçu” e patentes associadas no exterior, cobrando royalties de produtos brasileiros feitos com um fruto amazônico. Só após pressão diplomática e reação institucional o Brasil conseguiu reverter parte do prejuízo. Ainda assim, a lição parece não ter sido aprendida.

Hoje, os “avanços” sobre a biodiversidade amazônica assumem outra forma: produção fora do território de origem, escala industrial e domínio de mercado. Dois casos ilustram o paradoxo - o açaí e o tambaqui.

Identidade deslocada

Símbolo cultural do Norte, o açaí passou a ser cultivado em larga escala no Nordeste. No Ceará, a produção irrigada avança e o Estado já figura entre os dez maiores produtores do País. A meta, antes considerada ousada, virou realidade: abastecer o mercado interno e exportar derivados.

A lógica é simples. Embora seja uma palmeira associada a áreas alagadas, o açaí se adapta bem à irrigação controlada. No Ceará, a produção ocorre o ano inteiro, sem depender do extrativismo.

“O Ceará tem um diferencial: produzimos açaí o ano todo. Não é extrativismo, é produção irrigada”, afirma o empresário Alberto Félix, diretor da Agropar Fazenda de Açaí. O projeto começou com cinco hectares próprios e avança para áreas de terceiros e novas propriedades.

Dados do IBGE mostram que o cultivo no Estado começou em 2022, em seis municípios, com 475 toneladas. Em 2023, chegou a sete municípios e 671 toneladas, com Paracuru liderando, ao atingir 300 toneladas. Em 2024, a Grande Fortaleza aparece como maior produtora, com 216 toneladas, seguida por Limoeiro do Norte, com 170.

Nada disso ameaça, por ora, a liderança do Pará, que mantém produção anual acima de 1,5 milhão de toneladas. Mas o movimento sinaliza algo maior: a desconexão entre origem cultural e lógica de mercado.

Tambaqui chinês

Se o açaí ainda preserva hegemonia brasileira, o tambaqui já cruzou uma fronteira mais sensível. Nativo da bacia amazônica e símbolo da piscicultura do Norte, o peixe passou a ser produzido em escala industrial fora do país. A China lidera hoje a produção e a exportação mundial.

O sucesso chinês não é casual. O tambaqui reúne atributos valiosos para a aquicultura intensiva: crescimento rápido, rusticidade, boa conversão alimentar e carne apreciada. Tolera variações ambientais e alcança peso comercial em ciclos curtos - exatamente o que o modelo industrial exige.

A China incorporou a espécie à sua matriz aquícola por meio de programas controlados de introdução, melhoramento genético e cultivo tecnificado. Opera com escala, logística integrada, processamento industrial e exportação contínua. Resultado: ultrapassou o Brasil em volume total produzido.

Paradoxo amazônico

O paradoxo é evidente. O Brasil segue como referência científica e genética do tambaqui. Os principais bancos genéticos estão no País. Técnicas de reprodução induzida, larvicultura e engorda tropical foram desenvolvidas aqui, em universidades e centros de pesquisa nacionais.

Boa parte do conhecimento aplicado hoje na Ásia tem origem brasileira. Ainda assim, o País perdeu escala industrial. A diferença está no modelo econômico. Enquanto a China trata o tambaqui como commodity global, o Brasil ainda o encara, em grande medida, como peixe regional. Aqui, predomina o consumo fresco, as feiras locais e os mercados regionais - o que limita padronização, volume e inserção internacional.

Mesmo assim, a produção brasileira alcançou 113,6 mil toneladas em 2023, segundo o IBGE. Potencial não falta. Clima, água, área disponível e conhecimento científico estão dados. Falta decisão.

Governos não reagem

A trajetória do açaí e do tambaqui expõe uma fragilidade estrutural: o Brasil protege mal o que produz melhor. Domina a biodiversidade, mas não a transforma em estratégia de Estado. Entre o contrabando histórico e a indústria global, a Amazônia segue como fornecedora involuntária de oportunidades.

O País assiste, registra estatísticas e publica estudos. Outros planejam, escalam e faturam. O trem segue em movimento - e ninguém parece interessado em puxar o freio. 


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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.