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Ousadia

CV compra drones com capacidade para transportar até 20 fuzis entre favelas

Polícia identificou treinamento de criminosos do Complexo do Alemão com aeronaves de grande porte usadas em áreas agrícolas

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  • Da Redação | Com O Globo
  • 23/05/26 10:00
CV compra drones com capacidade para transportar até 20 fuzis entre favelas

Rio de Janeiro, RJ - Que o tráfico usa, há algum tempo, drones para monitorar e atacar rivais e forças policiais, já é sabido. Os criminosos, porém, começaram a investir em equipamentos cada vez mais robustos e modernos e em treinamento para operá-los. A polícia descobriu que traficantes do Complexo do Alemão, na Zona Norte, controlado pelo Comando Vermelho (CV), adquiriram drones de grande porte para transportar armas e drogas. São aeronaves de carga ou para uso agrícola, com capacidade de transportar até 80kg - o equivalente a 20 fuzis FAL ou AR-15.


A imagem de um treinamento com um veículo aéreo não tripulado, com cerca de três metros de comprimento, foi flagrada pela câmera de uma aeronave da Polícia Militar. A data em que o voo ocorreu não foi divulgada.


De acordo com informações recebidas pela Subsecretaria de Inteligência da Secretaria estadual de Segurança Pública, o treinamento para operar esses drones estaria sendo feito por um brasileiro que voltou da guerra na Ucrânia, no Leste Europeu, onde teria atuado como voluntário no conflito contra a Rússia. Além disso, ele também seria o encarregado de repassar para os traficantes algumas técnicas usadas em combates militares. Já se sabe que o suspeito chegou a permanecer por pelo menos um ano participando do confronto militar.


Souvenir da guerra


Ao retornar para o Rio, segundo a Subsecretaria de Inteligência, o homem presenteou o traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, um dos integrantes da cúpula do CV, com uma espécie de souvenir de guerra: uma placa balística (peça que faz parte do colete à prova de balas) usada pelo próprio soldado durante sua participação no conflito.


Numa das imagens flagradas por policiais durante o monitoramento aéreo, é possível contar pelo menos dez pessoas ao lado de um drone que se prepara para decolar. O sobrevoo aconteceu em uma área aberta e com poucas residências próximas.


O veículo aéreo não tripulado que aparece na gravação, do tipo usado em campos agrícolas para pulverização ou em entregas, pode percorrer uma distância de até 12 quilômetros e tem custo estimado em mais de R$ 200 mil. A partir do Complexo do Alemão, um drone desse tipo tem autonomia para chegar a outras favelas controladas pelo CV, como Cidade de Deus, Jacarezinho, Complexo do Lins e Complexo do Chapadão.


A aeronave também tem capacidade para percorrer a distância entre as comunidades da Gardênia Azul, em Jacarepaguá, e da Muzema, no Itanhangá (ida e volta). As duas favelas têm territórios controlados pelo CV e estão separadas, uma da outra, por cerca de cinco quilômetros.


É das duas comunidades que homens armados costumam sair para tentar invadir Rio das Pedras. A localidade é considerada berço de nascimento da milícia, sendo a única da região do Itanhangá que continua em poder de paramilitares.


— O nosso novo foco é impedir que eles usem essa nova ferramenta para implementar o fluxo de armas e drogas entre as comunidades sem o perigo de interceptação pela polícia — diz o delegado Pablo Sartori, subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança do estado.


De acordo com a polícia, os treinamentos com drones são feitos em uma área do Complexo do Alemão. É na comunidade citada e no Complexo da Penha, que fica ao lado, que está escondida a maior parte dos bandidos da cúpula do CV ainda em liberdade. Além de Doca, estariam lá Carlos da Costa Neves, o Gardenal, apontado como o responsável pela segurança do bando e pela expansão territorial do tráfico na área de Jacarepaguá, e Pedro Paulo Guedes, o Pedro Bala. Este último seria gerente-geral do tráfico.


Outro chefe da facção criminosa que estaria no Alemão é Luciano Martiniano da Silva, o Pezão. De acordo com dados do site do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), junto, o quarteto soma 82 mandados de prisão expedidos pela Justiça em seus respectivos nomes. Todos são considerados foragidos.


Não é a primeira vez que o tráfico usa militares ou ex-militares para operacionalizar drones. Em setembro de 2024, o então cabo da Marinha Rian Maurício Tavares foi preso por policiais federais após uma investigação apontá-lo como suspeito de ser o responsável por operar drones para o CV. Uma aeronave não tripulada teria sido usada, inclusive, para lançar granadas na Gardênia Azul, em fevereiro do mesmo ano, quando a comunidade ainda era controlada por milicianos.


Segundo a Marinha, o ex-cabo foi licenciado do serviço ativo da corporação, “a bem da disciplina”, em 27 de fevereiro de 2025, deixando de integrar os quadros da corporação. O ex-militar está preso na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná - os advogados Orlando Clímaco e Rafael Teixeira, responsáveis pela defesa de Rian, informaram que um pedido de relaxamento da prisão já foi apresentado à Justiça. O recurso ainda não foi julgado.


Já em 28 de outubro de 2025, drones de pequeno porte voltaram a ser usados por bandidos do CV, durante uma operação nos complexos da Penha e do Alemão. Na ocasião, as aeronaves foram utilizadas, segundo a polícia, para monitorar os carros da Polícia Civil e da Polícia Militar. A ação acarretou um tiroteio que durou nove horas. O confronto deixou 117 suspeitos mortos. Cinco policiais também morreram na troca de tiros.


Aliado da polícia


Em maio de 2026, a Polícia Civil criou a Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (Coant), estrutura responsável por organizar e planejar o “uso institucional de drones” em ações de investigação e inteligência e em missões emergenciais em todo o Estado do Rio. A corporação acredita que o serviço poderá auxiliar, entre outras coisas, na realização de levantamentos, buscas por criminosos e acompanhamento de operações em tempo real, além da coleta de provas visuais.


Importados da China, os drones de seis modelos diferentes - entre eles, os que têm sensores térmicos para localizar suspeitos escondidos em área de mata e aqueles que fazem imagens noturnas - poderão ajudar ainda na realização de operações policiais. Eles têm capacidade para captar e transmitir imagens, em tempo real, para um centro de monitoramento, localizado na Cidade da Polícia, no Jacaré. Segundo a polícia, o equipamento será operado por um agente treinado e capacitado.


Segundo a corporação, cada drone foi comprado para atender a determinada ação da polícia. Alguns, por exemplo, têm câmeras com zoom para fazer imagens a longa distância e autonomia de voo que pode chegar a mais de uma hora.


Um dos modelos comprados pela polícia também é equipado com câmeras de reconhecimento facial e de leitura de placas, podendo ser interligado ao sistema usado pela corporação para fazer a identificação de pessoas procuradas pela polícia ou de veículos roubados. Já uma outra aeronave é própria para fazer voos furtivos, ou seja, sem que a presença dela seja notada com facilidade.


Os valores gastos com os drones fazem parte de um pacote de compra de equipamentos de inovações tecnológicas para a corporação. Nos dois últimos anos, os gastos - que incluem ainda a aquisição de softwares para extração de dados telemáticos — chegaram à casa de R$ 2,1 milhões.


Foto: Divulgação

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.