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EMBATE

Do passaporte à inelegibilidade, as coincidências entre Daniel Santos o MP

Poucas horas após rechaçar promotor autor de parecer favorável, Daniel Santos vira alvo de ação eleitoral que pede sua inelegibilidade

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 01/11/26 17:00
Do passaporte à inelegibilidade, as coincidências entre Daniel Santos o MP
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política paraense anda pródiga em coincidências institucionais. Na segunda-feira, 26, o governador eleito Daniel Santos chamou de “bandido” o promotor de Justiça Arnaldo Célio da Costa Azevedo, depois de receber dele um parecer favorável à devolução do passaporte e à retirada da proibição de deixar o País. A manifestação do integrante do Ministério Público do Pará (MP) contrariou, ao menos em parte, a expectativa de quem acompanha o histórico de embates entre os dois. Daniel Santos, em vez de agradecer a consideração institucional, preferiu a cordialidade habitual das redes sociais.

Promotor Arnaldo Azevedo comandou o Gaeco nas investigações da administração de Daniel Santos em Ananindeua/Fotos: Arquivo.
Azevedo não é um personagem periférico nessa história. Foi integrante do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), estrutura do MP que participou de investigações de grande repercussão envolvendo a administração de Daniel Santos em Ananindeua, quando o então prefeito da cidade ainda era apenas um possível nome de oposição ao governo nas eleições de outubro passado. Azevedo também ocupou a coordenação do Centro Integrado de Investigação e, em janeiro deste ano de 2026, assumiu a coordenação do Grupo de Atuação Especial de Inteligência e Segurança Institucional (GSI).

Histórico de embates

Trocando em miúdos: embora hoje Azevedo não seja o atual coordenador do Gaeco, isso não diminui sua participação no histórico das investigações que alcançaram o núcleo político e administrativo do então prefeito, hoje governador eleito do Pará.

E é justamente esse passado que ajuda a compreender a temperatura do episódio atual. Nas duas operações realizadas contra Daniel e seus aliados, o aparato investigativo do Ministério Público avançou sobre suspeitas de corrupção, fraudes em licitações e lavagem de dinheiro relacionadas à administração municipal. Daniel e pessoas de sua confiança foram alcançados pelas apurações. Entre elas, Ed Wilson Dias e Silva, um dos auxiliares mais próximos do então prefeito, que ocupou posições estratégicas na Prefeitura de Ananindeua e na Assembleia Legislativa durante a trajetória política de Daniel.

Ed Wilson chegou a enfrentar medidas cautelares pessoais e patrimoniais, além de restrições decorrentes da condição de investigado em um procedimento criminal que também alcançava Daniel e outros servidores. A situação teve um desfecho importante no último dia 28 de outubro de 2026, quando o desembargador Pedro Pinheiro Sotero, do Tribunal de Justiça do Pará, acolheu a manifestação do próprio Ministério Público pelo arquivamento da investigação em relação a Ed Wilson.

Morde e assopra 

A dimensão das investigações, portanto, não foi pequena. À época, o Gaeco mobilizou instrumentos de investigação, operações e medidas judiciais contra integrantes do entorno administrativo de Daniel, quando ele ainda era prefeito e despontava como possível nome de oposição na disputa pelo governo estadual. O então prefeito, por sua vez, classificava as investigações como perseguição política e contestava as acusações.

O curioso é que quando o calendário eleitoral já produziu um governador eleito, o mesmo ambiente institucional apresenta uma sucessão de acontecimentos bastante peculiar.

Na segunda-feira, enquanto Daniel atacava Arnaldo Azevedo, o Ministério Público Eleitoral protocolava no Tribunal Regional Eleitoral do Pará uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral contra o próprio governador eleito, a deputada federal Alessandra Haber e o deputado estadual eleito Alexandre Gomes. A ação, assinada pelo procurador regional eleitoral Bruno Araújo Soares Valente, pede o reconhecimento de abuso de poder econômico e político em razão do projeto Olhar Cidadão, além da inelegibilidade dos três por oito anos.

Sequência atemporal

A iniciativa foi divulgada oficialmente em 28 de outubro, dois dias depois do protocolo. O Ministério Público Eleitoral aponta que o projeto de atendimento oftalmológico gratuito teria sido utilizado para promoção pessoal e eleitoral, com exposição de fotografias, nomes e materiais personalizados dos políticos. Também questiona a origem dos recursos empregados nas ações.

É importante separar as responsabilidades: a ação eleitoral não foi proposta por Arnaldo Azevedo, tampouco há elemento documental que permita atribuir a ele sua articulação. Trata-se de uma iniciativa da Procuradoria Regional Eleitoral, em outra esfera de atuação do Ministério Público. 

O que chama a atenção é a sequência temporal: o parecer favorável a Daniel e o ataque público ocorreram no mesmo dia em que a ação eleitoral foi protocolada, embora sua divulgação tenha acontecido posteriormente. E há outro elemento que torna a sequência ainda mais interessante. 

No mesmo 28 de outubro em que o MP Eleitoral tornou pública a ação que pede a inelegibilidade de Daniel, o Tribunal de Justiça do Pará publicou a decisão que encerrou a investigação contra Ed Wilson. De um lado, uma nova frente de questionamentos judiciais sobre o grupo político; de outro, o reconhecimento de que não havia elementos suficientes para sustentar a investigação contra um de seus integrantes mais próximos.

Contém ironias

A ironia do destino é que promotor que já esteve associado a investigações que causaram enorme desconforto ao grupo político de Daniel acabou, por circunstâncias próprias de sua atuação institucional, protagonizando um episódio em que ofereceu ao governador eleito uma manifestação favorável, no qual a resposta foi um ataque público do governador eleito. E, quase simultaneamente, outra estrutura do Ministério Público apresentava à Justiça Eleitoral um pedido capaz de comprometer o futuro político do mesmo personagem.

O clima pesado, agora, vem do fato de que com Daniel eleito governador, a relação com os integrantes do sistema de Justiça continua longe de ser protocolar. O parecer favorável de Arnaldo Azevedo não foi suficiente para produzir uma trégua, se é que era essa a intensão. E a ação eleitoral que veio a público na sequência acrescentou mais um capítulo a uma história que parece não querer terminar.

No Pará, aparentemente, a memória institucional é longa, os processos têm vida própria e as coincidências de calendário são sempre muito oportunas. Resta saber se, no novo governo, Daniel Santos conseguirá conviver melhor com as instituições que, durante sua passagem por Ananindeua, tanto trabalho lhe deram.

Papo Reto

•O deputado estadual Ronie Silva (foto), estaria cabisbaixo. Pediu a Daniel Santos a direção do Detran, onde sua mulher já ocupou cargo de direção, mas teria chegado atrasado: o vereador Braga Pereira, de Ananindeua, já havia apresentado o irmão como pretendente à vaga.

•Ronie atirou antes da hora regulamentar. Quando puxou o gatilho, o alvo já tinha dono.

•Inaugurado em outubro de 2025, o BRT completou seu primeiro ano integrando o transporte da Região Metropolitana de Belém sem reunir unanimidade.

•A estrutura está entregue, mas muitos cobram regularidade, segurança e tempo menor de viagem.

•Dois grandes escritórios de advocacia de Belém teriam se associado, durante a campanha, em um contrato estimado em R$ 35 milhões. Encerrada a eleição, o contratante teria sumido até das redes sociais.

•A coluna ainda busca esclarecer os termos do contrato e confirmar a identidade do contratante. Afinal, 35 milhões não são troco esquecido no balcão, nem notas lançadas ao sabor do estreito que separa uma parte da Europa da África

•Uma construção na Domingos Marreiros, entre a Generalíssimo e a 14 de Março, chama atenção antes mesmo da inauguração.

•Segundo informações recebidas pela coluna, a fachada não exibe a placa exigida pelo Creci. A destinação do imóvel fica para outra rodada.

•Primeiro, a placa; depois, a surpresa. Ou será que a surpresa é justamente o que ainda não está escrito na fachada?

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.