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TRIBUNAL

Em Belém, redes sociais transformam coerência em moeda política permanente

Casos envolvendo liderança indígena do Psol, um secretário da Prefeitura de Belém e a família Bolsonaro mostram cobrança por coerência pública e viram combustível.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 19/05/26 08:15

Julgamento público das redes define “quem é bom” e “quem é mau”, mas, quando se trata de política, resultados podem ser impactantes/Fotos: Arquivo-Redes Sociais.


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expressão “à mulher de César não basta ser honesta; tem que parecer honesta” é um provérbio histórico que, volta e meia, reaparece em destaque - especialmente em tempos de redes sociais, onde o julgamento público define rapidamente “quem é bom” e “quem é mau”. Na política, o parecer supera, muitas vezes, o próprio ser.

Na última semana, o velho ditado ganhou força em diferentes escalas: do caso envolvendo a liderança indígena Auricélia Arapiun, em Santarém, passando pelo secretário executivo de Ordem Pública de Belém, Vítor Magalhães, até alcançar a família Bolsonaro, em Brasília. Em comum, todos enfrentaram o mesmo tribunal contemporâneo: a cobrança pública por coerência entre discurso, imagem e prática.

De mãe para filho

A liderança indígena Auricélia Arapiun, de Santarém, conhecida nacionalmente após a ocupação da sede da Seduc, em janeiro do ano passado, viu o nome dela mergulhar em forte desgaste nas redes sociais após a prisão do filho, Renato Fonseca, de 39 anos, acusado de agredir fisicamente a esposa e a sogra.

Auricélia - que se apresenta nas redes como “amazônida, defensora de direitos humanos, pré-candidata a deputada estadual do Pará, pelo Psol, e mãe” -, passou a ser cobrada publicamente não pelos atos do filho, mas pela expectativa de coerência diante de um caso de violência contra mulher ocorrido dentro do próprio círculo familiar.

Renato foi autuado com base na Lei Maria da Penha e encaminhado à carceragem após ocorrência registrada na Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher. O caso rapidamente repercutiu em Santarém e ganhou grande circulação nas redes sociais.

As críticas não responsabilizavam Auricélia diretamente, mas questionavam o silêncio inicial da liderança, historicamente identificada com pautas de direitos humanos e proteção às mulheres. “Quando a cobrança de uma liderança é pública para uns, a sociedade espera o mesmo posicionamento quando o assunto acontece perto de quem sempre cobrou”, escreveu um internauta.

O blogueiro Edinei Ferreira também publicou comentário que repercutiu bastante nas redes: “Quem cobra posicionamento da sociedade, levanta bandeiras e exige justiça dos outros, também precisa falar quando a violência contra mulheres aparece dentro do próprio círculo”.

Depois de dias de pressão, Auricélia divulgou nota pública afirmando que escrever aquele posicionamento foi “um dos momentos mais difíceis” da vida dela, mas que “o silêncio nunca foi opção”. “Repudio qualquer prática de violência contra mulher e entendo que os fatos precisam ser apurados com seriedade, e que ele deve responder por seus erros e enfrentar as consequências que a legislação determina”, afirmou.

“Nenhuma mãe deseja ver seu filho reproduzindo a mesma misoginia que tentamos combater todos os dias. Mais do que punição, este momento nos convoca à urgência da transformação”, encerrou a nota.

Secretário atrapalhado

O secretário executivo de Ordem Pública de Belém, Vítor Magalhães, também atravessou dias turbulentos. Desde que assumiu o cargo na gestão do prefeito Igor Normando, do MDB, Vítor transformou as redes sociais em vitrine permanente da política de fiscalização e disciplina urbana da prefeitura. Mas acabou sendo vítima da própria narrativa que ajudou a construir.

Vítor foi flagrado estacionando uma BMW branca, modelo 2018, em vaga destinada a pessoas com deficiência. Ao tentar justificar o episódio, alegou que havia uma criança nessa condição dentro do veículo, embora as imagens divulgadas não mostrassem a presença dela.

A partir daí, as redes passaram a resgatar outros episódios envolvendo o mesmo automóvel, entre eles uma infração gravíssima registrada em Salinópolis, além de estacionamento sobre ciclofaixa. O caso ganhou ainda mais repercussão porque o veículo não aparecia na declaração de bens apresentada por Vítor à Justiça Eleitoral durante a campanha de 2024, quando informou não possuir patrimônio a declarar.

O desgaste se ampliou exatamente porque a imagem pública construída pelo secretário sempre esteve associada ao discurso de ordem, fiscalização e respeito às regras.

Bolsonaro e o filme

Em Brasília, a família Bolsonaro também enfrentou uma semana de desgaste envolvendo o filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O episódio começou quando o site Intercept Brasil questionou o senador Flávio Bolsonaro, do PL, sobre informações de que o banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao banco Master, teria financiado a produção do longa. Flávio reagiu de forma dura, negando qualquer relação e acusando o repórter de militância política.

Horas depois, porém, vieram à tona informações e documentos que apontavam envolvimento do empresário com o projeto cinematográfico. O caso ganhou nova dimensão quando surgiu a informação de que Eduardo Bolsonaro aparecia no contrato do filme como produtor executivo, com prerrogativas de supervisão financeira e artística.

O discurso e a prática

Nos bastidores políticos de Brasília, o episódio passou a ser tratado como mais um desgaste para a família Bolsonaro em meio às investigações envolvendo o banco Master e personagens próximos ao grupo político. Mais uma vez, o problema maior não foi apenas o conteúdo das denúncias, mas a contradição entre as primeiras declarações públicas e os fatos que surgiram em seguida.

O velho ditado sobre a mulher de César atravessa séculos porque continua atual. Em tempos de redes sociais e vigilância permanente, reputação virou patrimônio político. E, muitas vezes, o desgaste começa não necessariamente pelo erro em si, mas pela distância entre o discurso público e a prática privada.

Papo Reto

•O torcedor paraense, em especial o azulino, sentiu um gosto especial com a convocação do goleiro Weverton (foto), que fez sua estreia como profissional no Leão, em 2007, emprestado pelo Corinthians.

•A estreia de Weverton pelo Leão, no auge de seus 19 anos, foi contra o Gama, num empate por 3 a 3, pela Série B. Em 2008, o goleiro voltou para o Corinthians.

•Com a colheita praticamente concluída, a safra de soja do Brasil bateu novo recorde, mas os produtores rurais seguem cada vez mais apertados.

•As cotações da soja estão a R$ 122,27 na média de maio, mas com as altas nos custos sobra pouco para o produtor. O aperto piorou desde que o Irã começou a ser atacado.

A alta do petróleo encareceu fertilizantes e óleo diesel. O BC já sinalizou dificuldades para diminuir os juros. Em suma, assim como as famílias, os produtores estão endividados.

•O governo do Estado homologou a promoção funcional de mais de 800 servidores do Detran - 500 beneficiados com a promoção funcional e 282 com a progressão. 

A medida considera a legislação estadual que trata do PCCR do órgão, além do decreto que regulamenta o processo de desempenho para fins de progressão e promoção.

•Um ato da Mesa do Senado, editado em 2010, impede que o nome de Jorge Messias volte a ser analisado para uma vaga no STF neste ano, contrariando o desejo do presidente Lula.

Integrantes do governo, porém, avaliam que há margem para negociar e apontam, como possível precedente, um caso envolvendo o ministro Alexandre de Moraes em 2005.

•Hackers, a pedido do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, tentaram acessar o celular do jornalista Lauro Jardim, colunista do O Globo, segundo investigação da Polícia Federal.

•A tentativa ocorreu em julho de 2025. Vorcaro foi preso em março deste ano com indícios de que planejou um assalto contra Lauro Jardim apenas para dar uma 'surra' no jornalista.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.