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ERA UMA VEZ…

Emendas Pix jorram, mas, em deserto de cordeiros, não há "água pra cachorro"

Ex-promoter convertido em cineasta improvisado cruza fronteiras, foge da própria biografia e termina encurralado por um negócio mal resolvido em Belém.

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  • Por Olavo Dutra | Especial
  • 13/12/25 08:00
Emendas Pix jorram, mas, em deserto de cordeiros, não há
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iz a lenda que, no dia em que ele partiu - vestido com a elegância extravagante que só os excêntricos sustentam -, a floresta perdeu o encanto. A coruja calou; o delegado dormiu de sobrancelha baixa pela primeira vez em meses; os incendiários recolheram-se sem avisar.

Naquela sexta-feira, por volta da meia-noite, rostos pálidos e desanimados voltaram para Belém atravessando a escuridão sem música. Em um mundo invertido, era a mata que apagava o fogo dos homens.

 

A saga de um cineasta improvisado - ou seria de um ex-promoter ? - que, jogando com o destino, acabou levando um calote/Fotos: Arquivo.

O dono do redemoinho?

C. Apenas C - figura que circulava entre políticos, artistas, raves, cachorros, projetos ambientais e um senso de desordem poética.

“Tchau”, ronronou a preguiça fardada da guarita.

O homem cruzou um país a pé para fazer filmes.

No México - escala temerária para quem pretende chegar aos Estados Unidos pela porta lateral, sem cartão de embarque -, começa a verdadeira saga de C.

Ali, entre coiotes, passos silenciosos e sonhos de Hollywood, o ex-promoter transformado em cineasta de ocasião viveu o enredo que jamais conseguiu filmar.

Ele conta que “virou estatística” antes de virar americano: dias retido na fronteira, noites dormidas ao relento, documentos confiscados, ligações clandestinas para Belém, susto com helicóptero, farol de caminhonete, sirene, tornozeleira. Tornozeleira?

Saiu de lá meio filósofo, meio pirado, meio artista - mas vivo. E com a certeza de que, no universo clandestino, a Lei de Murphy opera sem intervalo.

Estabeleceu-se nos EUA como pode: trabalhou em tudo, até que a vida entra em modo aeromoça: “por motivos de força maior, sua permanência será encerrada”.

Cassaram cartões, cassaram documentos, cassaram planos.

De volta à Belém, sem alianças, sem estabilidade e sem a Green Card da esperança” C viu uma única saída concreta: transformar o potencial hídrico do terreno que possuía - vazão para engarrafar água até para cães - em negócio.

A mata silenciosa

Era um pedaço imenso de terra - 30 campos de futebol - onde C promovia festas que a crônica oral da região descreve como “épicas”.

Mas agora a fantasia cedeu lugar ao pragmatismo: água. Muita água. Água mineral de alto potencial comercial.

Então, o destino bateu à porta: um casal poderoso, desses que orbitam com naturalidade entre gabinetes de Brasília, templos de fé e estruturas de gestão com mais gavetas do que transparência, enviou recado.

Estavam interessadíssimos na fonte.

As “emendas pix” irrigavam as “bondades sociais” comandadas por eles como água de igarapé na cheia.

E negócios paralelos - tal e qual minas, por assim dizer - contribuíam para um fluxo financeiro tão ousado quanto discreto.

A oferta veio rápida: R$ 1,150 milhão, em seis parcelas, tudo firmado “no bigode”, amarrado num contrato rígido, quase medieval.

C - agora apenas Señor C, cidadão paraguaio recém-naturalizado, com documento plastificado que exibe com orgulho punk -, aceitou.

Quando o filme trava

A primeira parcela atrasou: culpa da liberação lenta das verbas celestiais das emendas instantâneas. Da segunda à quinta, veio tudo com soluços, diferenças, ligações aflitas. Mas veio.

A sexta, não. E aí a trama engrossa.

Um “setor alternativo” que o casal manejava enfrentou um revés daqueles que costumam render operação federal e manchete abafada.

A máquina travou e, com ela, o pagamento final.

Enquanto isso, C filmava no exterior, imaginando que a vida real esperaria o desfecho.

Não esperou.

Quando voltou – já morando oficialmente no Paraguai, aproveitando facilidades de fronteira e fugindo de complicações americanas -, descobriu que seu advogado havia mudado de lado.

E que o casal se movia com eficiência de Estado para “regularizar” o imóvel, com carimbos, ofícios, recursos, despachos e aquela névoa típica das burocracias criadas para ninguém entender, apenas assinar.

A água some do balde

C perdeu. A floresta, a fonte, o projeto de água mineral, as festas, o barracão, o sonho.

Nem sete palmos de chão restaram.

O valor faltante - algo em torno de R$ 250 mil atualizados - nunca pingou.

E o negócio evaporou como poça de verão no asfalto da BR.

Na versão de C, o casal queria usar a futura engarrafadora como lavanderia. Não falta água. Na versão “oficial”, tudo não passou de mal-entendido contratual.

Nos bastidores, processos correm, somem, reaparecem, viajam entre fóruns, repousam em gavetas aromatizadas com cafezinho.

Sobre desertos e água

A única fonte que continua jorrando é a natural - mas não para C. Enquanto o casal planeja lançar sua “água abençoada”, com fé, marketing e muita criatividade, C, do exílio voluntário, promete contar tudo com riqueza de detalhes.

Já começou.

E, como sempre, a moral da história se encaixa com precisão amazônica: quem domina as emendas tem poder, quem controla a água tem ouro, e quem perde tudo numa tacada só aprende rápido que, no País dos milagres parlamentares, até a água precisa de carimbo para existir.

Este filme ainda não acabou. O roteiro prevê o epílogo na mesa do STF, triller policial e novas denúncias. Em breve.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.