Imóvel da União abandonado há 15 anos vira abrigo para 60 famílias e põe Belém diante de seu drama urbano: sobra parede sem gente e gente sem parede.
esde o domingo da Independência, quem passa pela avenida Dr. Freitas, quase na esquina da Pedro Álvares Cabral, vê um recado em letras grandes pendurado num prédio verde: “Aqui acaba a escravidão do aluguel”. O endereço, um imóvel da União fechado havia 15 anos, agora atende por ocupação “Welfesom Alves” e abriga cerca de 60 famílias sem-teto.

A cena ilustra um drama conhecido das metrópoles brasileiras: o déficit habitacional. No Pará, ele atinge 796 mil famílias vulneráveis, segundo a Fundação João Pinheiro e o MDR. Só em Belém, 745 mil pessoas vivem em favelas ou comunidades precárias, e faltam 63 mil moradias na Região Metropolitana de Belém, conforme o Censo 2022.
O Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), responsável pela ocupação, calcula números ainda mais duros: 70 mil famílias da capital sem casa própria e 125 mil imóveis vazios esperando reforma. É o paradoxo amazônico - moradia não falta; falta política pública para conectar telhado e gente e a matemática é cruel: sobra parede sem gente e gente sem parede, ou por outro lado, onde termina o aluguel e começa o improviso social.
Os ocupantes organizaram um refeitório comum, arrecadam alimentos, água, produtos de higiene, brinquedos e livros para montar uma biblioteca. Querem mostrar que a luta coletiva pode ser mais eficiente que décadas de programas habitacionais que nunca chegaram a endereços como este.
Enquanto isso, os corredores do poder discutem como a cidade deve receber autoridades e turistas da COP30. A pressa para dar brilho à vitrine global contrasta com a lentidão para garantir o básico - teto, comida e dignidade.
O Brasil tinha 6 milhões de domicílios em déficit em 2022, segundo a Fundação João Pinheiro, 8,3% das habitações ocupadas. Mais da metade desse número vem do peso do aluguel: famílias com até três salários-mínimos gastando mais de 30% da renda para manter um lar.
Em Belém, 57% da população mora em favelas ou comunidades urbanas precárias. A equação mistura imóveis ociosos, custo elevado da construção e falta de planejamento habitacional.
As obras preparatórias da conferência climática também ajudam a empurrar famílias para a borda do mapa. Projetos de macrodrenagem em áreas como Tucunduba, Caraparu, Murutucu e Una demoliram casas e pagaram indenizações insuficientes para recomprar um teto decente. Muitas famílias foram parar em zonas tão frágeis quanto as que deixaram, trocando lama por poeira e insegurança.
Segundo o InfoAmazonia, 500 famílias foram desalojadas para abrir espaço a obras ligadas à COP, recebendo entre R$ 5 mil e R$ 40 mil. O resultado é que, enquanto Belém veste seu figurino de anfitriã sustentável, cresce o público invisível das calçadas, dos barracos improvisados - e agora também das ocupações.
A Ocupação Welfesom Alves é um lembrete incômodo: políticas de habitação não devem seguir o calendário das grandes conferências. Cada parede descascada daquele prédio verde conta que, sem um plano consistente, a “escravidão do aluguel” e o desabrigo continuarão a escrever o enredo urbano da cidade.
Enquanto o evento climático se aproxima, Belém precisa decidir se quer apenas maquiar problemas para estrangeiro ver ou se, de fato, vai enfrentar o desafio de garantir moradia digna para quem há muito tempo vive fora de qualquer estatística oficial - a não ser a de abandono.


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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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