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BASTIDORES

Fiéis trocam templo por rua e contestam troca de pastor na Assembleia de Deus

Afastamento repentino do pastor Marcelo Campelo, anunciado sem aviso prévio, provoca protesto público no Umarizal e reabre ferida interna sobre decisões administrativas e uso de patrimônio da igreja.

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  • Da Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 06/01/26 08:25

Novo episódio expõe uma crise que revela fissuras internas, disputas sobre poder e um desgaste que ultrapassou os muros do templo/Fotos: Divulgação-Redes Sociais.


O


que parecia caminhar para ser apenas o primeiro culto do ano da Assembleia de Deus no templo da rua Diogo Móia, no Umarizal, bairro nobre de Belém, terminou de forma inusitada na noite de domingo, 4. Fiéis deixaram o interior da igreja e ocuparam a rua em frente ao prédio para protestar contra a retirada do pastor Marcelo Campelo da condução da congregação.

 A manifestação teve início após o anúncio, feito no próprio culto, do afastamento de Campelo e da posse imediata de um novo pastor. A decisão foi comunicada pessoalmente por Samuel Câmara, presidente da Convenção das Assembleias de Deus no Brasil e principal liderança da Assembleia de Deus em Belém.

Anúncio sem aviso

Segundo relatos de fiéis, não houve aviso prévio nem explicação detalhada sobre a mudança. O que seria uma transição administrativa acabou provocando revolta, gritaria e a interrupção do culto. Parte significativa da congregação deixou o templo em protesto.

Vídeos que registram o episódio circularam rapidamente nas redes sociais. Um deles, publicado no perfil @falafarizeu, no Instagram, já acumulava milhares de reações até a noite de domingo. Nas imagens, fiéis afirmam que “a igreja não concordou com a mudança” e criticam a forma como a decisão foi conduzida.

Louvores na rua 

Do lado de fora, os fiéis se reuniram em frente ao templo, entoaram louvores e fizeram orações em apoio a Marcelo Campelo. O gesto simbólico transformou a rua em espaço de culto improvisado - e de contestação aberta à direção da igreja.

Campelo afirmou que estava de férias com a família quando foi surpreendido pela decisão. Negou qualquer falta de ordem moral ou disciplinar e declarou que estaria sendo alvo de perseguição interna por se posicionar contra decisões administrativas da presidência da igreja.

Episódio de R$ 2 milhões

Entre os fiéis e lideranças locais, ganhou força a interpretação de que o afastamento teria relação direta com o posicionamento público de Campelo contra o aluguel do Centro de Convenções Centenário, na avenida Augusto Montenegro, por cerca de R$ 2 milhões, durante cinco dias da COP30, em novembro passado.

À época, a cessão do espaço pelo governo do Pará gerou forte repercussão e críticas dentro e fora do meio evangélico, sobretudo após o local ser utilizado para eventos culturais e de outras religiões durante a chamada “COP30 dos Municípios”. A denúncia e os questionamentos foram feitos nas redes sociais do próprio pastor Marcelo.

A versão de Câmara

Em outro vídeo, gravado durante a tentativa de comunicar a mudança à congregação, Samuel Câmara afirma conhecer Marcelo Campelo há mais de 20 anos e diz que o procurou “como nunca fez antes” para conversar. Ele agradece ao pastor e à esposa, Luana, e afirma estar orando pelo casal.  Câmara tentou enquadrar a decisão como uma “mudança de ciclo”, ressaltando laços de amizade e colaboração histórica. A fala, porém, foi abafada pela reação da plateia, já visivelmente indignada.

Perseguição ou decisão?

Marcelo Campelo reiterou que foi surpreendido com a decisão e classificou o afastamento como retaliação interna, motivada exclusivamente pelo questionamento financeiro envolvendo a COP30. Ele afirmou não estar envolvido em qualquer irregularidade.

Em declaração registrada em vídeo, Campelo disse ainda que “há pessoas que já fizeram coisas horríveis contra a congregação e continuam lá”, sem citar nomes. Segundo ele, até o novo pastor teria sido informado da decisão poucas horas antes do culto, também pego de surpresa. Na manifestação em frente à igreja, fiéis exigiram auditoria e prestação de contas sobre contratos firmados para a Conferência.

Contrariedade além

O desconforto não ficou restrito ao templo do Umarizal. Em novembro, outros pastores e lideranças - especialmente do segundo e terceiro escalões - já haviam demonstrado irritação com a decisão de alugar o Centro de Convenções, alegando falta de consulta e preocupação com a imagem pública da igreja.

A Assembleia de Deus em Curuçá chegou a publicar Nota de Repúdio, classificando o episódio como “uso inadequado” de um patrimônio que seria “símbolo da fé, do sacrifício e da união de milhares de irmãos simples e trabalhadores humildes”.

Reação e desgaste

Nas redes sociais, a decisão de Samuel Câmara divide opiniões. Há manifestações de apoio, mas também críticas contundentes e até convocações informais de boicote a pregações ligadas à família Câmara.

Um comentário resume o tom da oposição: “A igreja é de Cristo e não do homem. É triste ver uma liderança que persegue quem segue os princípios de Deus”. Outro questiona se há espaço para divergência interna ou se “quem se posiciona contra a família Câmara será trocado de templo ou banido”.

O episódio expõe uma crise que vai além da troca de pastores. Revela fissuras internas, disputas sobre poder e gestão e um desgaste que, desta vez, ultrapassou os muros do templo e ganhou as ruas - e a internet.

Papo Reto

•Sobre a recente matéria reportando a crise trabalhista no Hospital Ofir Loyola, a partir da declaração de nulidade dos contratos celetistas, declarada pela PGE, sabe-se agora:

Foi o Ministério Público do Trabalho, através do procurador Sandoval Alves da Silva (foto), e não o MP, quem promoveu a audiência com os dirigentes do hospital e validou o parecer da PGE.

•O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Pescados, Eduardo Lobo, abriu a caixa de ferramenta e criticou as consequências o tal modelo de gestão compartilhada dos recursos pesqueiros e aquícolas do Brasil entre o Ibama e o MPA.

"O que vivemos hoje é um ambiente de profunda revolta; o modelo de gestão compartilhada colocou uma pedra no caminho do setor produtivo", disse ele.

•Mais: "é uma contradição empresários e trabalhadores sofrerem com 'decisões arbitrárias, tomadas sem explicação técnica consistente' do Ministério da Pesca, que, por exemplo, liberou um aumento de pescadores com seguro-defeso de 680 mil para algo em torno de 2,8 milhões, enquanto as exportações aos EUA e União Europeia seguem sufocadas e os brasileiros perdendo competitividade no mercado nacional frente aos exportadores."

A tentativa de um "acordão nacional" para salvar Daniel Vorcaro, através de uma indenização pelo fechamento do Banco Master - e estancar a sangria que ameaça a reputação de autoridades nos três poderes da República, é mais do que se imagina.

•É isso que estaria por trás de tanta aberração jurídica vista nos últimos dias, num tema que deveria ser 100% técnico, mas parece ter todos os ingredientes para estremecer os arraiais políticos. Palavra da GloboNews.


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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.