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PREFEITOS NA RODA

Governador do Pará decide e pressiona por apoios políticos de olho nas eleições

Centralização de decisões, pressão e acordos expõem método de Helder na corrida às urnas.

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  • Da Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 17/01/26 11:00
Governador do Pará decide e pressiona por apoios políticos de olho nas eleições
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o Pará, a prévia da disputa eleitoral de 2026 tem sido menos um debate público e mais um exercício sistemático de força, na base da imposição, do tipo “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. À frente do governo estadual, o governador Helder Barbalho tem adotado uma postura marcada pela centralização absoluta das decisões e pelo uso explícito do peso institucional do cargo para enquadrar prefeitos, aliados e partidos da base.

 

Helder tem adotado uma postura marcada pela centralização absoluta das decisões para enquadrar prefeitos, aliados e partidos da base/Fotos: Divulgação

O recado, repetido em diferentes ambientes, é claro: o apoio político deixou de ser construção coletiva e passou a ser exigência, bem distante, na prática, do modelo democrático, restrito a discursos, ao que parece.

Esse método se manifesta na montagem da chapa de sucessão do governo e no desenho das candidaturas ao Senado. Helder trabalha simultaneamente em três frentes: garantir sua própria eleição como senador, consolidar sua influência sobre a segunda vaga, para a qual indicou o deputado estadual Chicão Melo, e pavimentar o caminho da sucessão com a candidatura da vice-governadora Hana Ghassan. 

Não tem pra ninguém

Das quatro vagas aos cargos majoritários, três são indicações diretas do próprio governador: a dele próprio, a de Hana e a de Chicão Melo. Nesse contexto, sobra ainda uma vaga, a de vice, que o PT acredita que seja sua, com a indicação do deputado Dirceu Ten Caten, mas, ao que parece, não tem nada garantido, tanto que o governador, até agora, se mantém silente, não dizendo absolutamente nada sobre isso; pelo contrário.

Decisões prévias

Nada disso, porém, passou por pactuação real com prefeitos aliados ou por diálogo consistente com lideranças partidárias. A construção política tradicional, baseada em negociação e convergência de interesses, foi substituída por comunicados unilaterais. Segundo relatos recorrentes de interlocutores, o governador tem afirmado que as escolhas já estão feitas desde acordos fechados ainda em 2022, restando à cúpula do MDB e partidos aos aliados, como PSDB-Cidadania, União, PP, PTB e PDT, entre outros tantos aliados que ajudaram na reeleição do governador Helder Barbalho, apenas a tarefa de ficar quieto e se adequar ao que foi previamente decidido.

Trocas materializadas

Fonte da coluna que acompanha o cenário político garante que a pressão não se limita ao plano discursivo. Prefeitos e lideranças de diferentes regiões do Estado relatam cobranças diretas por apoio irrestrito à chapa encabeçada por Hana Ghassan e às demais indicações do governador. O apoio institucional, muitas vezes materializado em convênios, obras e programas estaduais, passou a ser tratado como instrumento de fidelização política. 

O nome da imposição

Quem demonstra hesitação, ou flerta com caminhos próprios - ou diferentes -, é rapidamente lembrado de “quem está no comando”. Em algumas situações até em tom mais duro: “Se não fechar com todos, nem precisa me apoiar”, diz abertamente Helder aos interlocutores que demonstram vontade de apoiar outros candidatos que não os da sua preferência.

Jogo em outro campo

Na disputa ao Senado, esse ambiente de constrangimento se agravou após a declaração da pré-candidatura do então ministro do Turismo Celso Sabino, que aparece competindo em diversas pesquisas de alcance nacional. A tentativa de retirá-lo do jogo extrapolou o campo eleitoral e ficou evidente com a sua rápida expulsão do União Brasil e o repasse do controle do partido ao governador Helder Barbalho.

Nos bastidores, ganhou contornos de coerção política. Prefeitos e lideranças com alinhamento político com o ex-ministro e deputado federal passaram a relatar abordagens duras para que apoiem por completo o projeto político do governador, independente até das preferências eleitorais e apoio popular de cada qual, como se os investimentos públicos estaduais tivessem criado uma dívida pessoal com Helder e todos sejam obrigados a seguir suas determinações.

Caminho da sucessão

Na linha de largada da corrida eleitoral, o foco por apoios também se estende para a sucessão direta ao Palácio dos Despachos. A candidatura de Hana Ghassan, construída sob o guarda-chuva do atual governador, enfrenta um adversário com força eleitoral concreta. Trata-se do prefeito de Ananindeua, Daniel Santos. Diferentemente da vice-governadora, cuja projeção está diretamente associada à máquina estadual, Daniel construiu sua base a partir de uma gestão municipal de forte apelo popular e discurso de autonomia em relação ao governo estadual.

É justamente nesse ponto que a pressão sobre os prefeitos ganha nova dimensão. Para Helder, o embate Hana versus Daniel não é apenas uma disputa entre dois projetos, mas um teste de lealdade.

Quem não está comigo…

Prefeitos são chamados a escolher lados desde já, mesmo antes do início formal do processo eleitoral, sob pena de sofrerem isolamento político ou dificuldades no acesso ao governo estadual. O que deveria ser um debate de propostas começa a se desenhar como um plebiscito forçado de alinhamento.

Nos bastidores, o clima é de apreensão. Muitos gestores reconhecem a força do governo e da máquina estadual, mas também percebem o crescimento de uma alternativa que escapa ao controle direto do governador.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.