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Eleições 2026

Na Globo, Flávio Bolsonaro e Lula trocam acusações, propostas e constrangimentos

Presidenciáveis, que aparecem empatados tecnicamente nas pesquisas, ajustaram suas estratégias para encontro a dois dias da eleição

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  • Da Redação | Com O Globo
  • 24/10/26 08:00
Na Globo, Flávio Bolsonaro e Lula trocam acusações, propostas e constrangimentos

Rio de Janeiro, RJ - No último debate da eleição de 2026, na noite desta sexta-feira, na TV Globo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) travaram embates sobre o legado dos dois últimos mandatos presidenciais, fizeram cobranças um ao outro sobre propostas de eventuais gestões e trocaram ataques envolvendo o combate ao crime organizado, tema que aparece em pesquisas como uma das principais preocupações do eleitorado brasileiro.


Após o debate de semana passada, na Band, ter repercutido de forma negativa entre o eleitorado, devido à sucessão de ofensas e à falta de respostas aos questionamentos, os dois candidatos à Presidência ajustaram suas estratégias no início do encontro de ontem.


Flávio fez acenos a governadores eleitos em diferentes regiões e elogiou programas da gestão do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), evitando desta vez retomar a ideia de reverter sua condenação por tentativa de golpe de Estado, que foi uma das tônicas do último debate. Lula, por sua vez, procurou resgatar episódios negativos da gestão de Bolsonaro em temas como a pandemia da Covid-19 e o combate ao desmatamento, contrapondo esta memória a aspectos de seu próprio governo nessas áreas.


Lula e Flávio reduziram o volume de ataques pessoais em comparação ao encontro anterior, na Band, mas tiveram um embate tenso no terceiro bloco do encontro. Ao ser questionado pelo candidato do PL sobre a retomada de territórios dominados por facções e ser acusado de defender a “saidinha de presos”, Lula citou a presença no estúdio de Cristiane Gomes da Silva, mãe da menina Ana Clara, de cinco anos, morta em 2021 em Niterói (RJ).


O suspeito do crime é o policial militar Bruno Dias Delaroli, cuja defesa foi assumida por Flávio, como advogado, quando o caso subiu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). A mãe da menina foi convidada pela comitiva de Lula, em um movimento para desestabilizar o adversário, que também foi adotado pela equipe de Flávio.


— Por que é que um senador da República evita que um policial assassino fosse julgado? O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil numa menina de cinco anos? — disse Lula.


Flávio, que vinha mostrando segurança em outros momentos do debate, hesitou na resposta e chegou a cometer uma gafe, referindo-se à mãe da menina como “senhora Ana Clara”, nome da filha.


— Foi uma tragédia o que aconteceu. (...) Era uma troca de tiros numa comunidade conflagrada. A senhora sabe que tem o tráfico de drogas ali. Eu quero ajudar a senhora a saber quem foi o autor desse disparo. Tenho confiança que não foi esse policial, que sequer foi julgado — argumentou.


Lula também aproveitou o último bloco do debate, com tema livre de perguntas entre os candidatos, para pressionar Flávio sobre seu envolvimento em um imbróglio sobre a propriedade de uma ilha em Angra dos Reis (RJ), alvo de inquérito da Polícia Federal (leia mais na página 12), e voltou a pressionar Flávio por uma quebra de sigilo bancário. 


Flávio, por sua vez, reagiu citando condenações de Lula por corrupção na Lava-Jato, que foram posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), e a apuração envolvendo o filho do presidente, Fábio Luís, o Lulinha, investigado por tráfico de influência. O senador também tentou associar o petista ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master — Lula, por sua vez, buscou vincular Flávio ao dono do Master e a outras suspeitas de fraude.


As regras do início do debate, que determinavam perguntas sobre regiões brasileiras definidas por sorteio e limitavam cada candidato a se manifestar apenas duas vezes por tema, acabaram reduzindo em um primeiro momento a virulência do encontro. O primeiro momento mais acirrado ocorreu quando Lula aproveitou uma pergunta sobre a região Norte para criticar a atuação do governo Bolsonaro na saúde e no meio ambiente. O atual presidente lembrou ainda uma declaração do então presidente na qual ele imitava a situação de um paciente de Covid com falta de ar.


— Ele só ouviu falar do Amazonas quando o pai dele apareceu rindo e imitando uma pessoa asfixiada por falta de oxigênio.

Flávio rebateu a acusação de Lula orientando os espectadores a assistirem ao vídeo completo da declaração de Bolsonaro em suas redes sociais:


— Se você pegar dez segundos antes e dez segundos depois, é exatamente o contrário: o presidente Bolsonaro criticava quem dizia que precisava sentir falta de ar para ir ao hospital — alegou Flávio.


O presidenciável do PL procurou citar nominalmente os governadores eleitos do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco (PL); do Paraná, Sergio Moro (PL); de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD); e do Pará, Doutor Daniel (Podemos), prometendo trabalhar em conjunto com eles, em um aceno a seu eleitorado. Nem todos apoiaram Flávio no primeiro turno.


Direitos de resposta


Flávio também procurou associar Lula à expansão de facções criminosas na região Nordeste e à perda de poder de compra da população, dois temas recorrentes na campanha do PL.


— Esse governo gasta muito mais do que arrecada e aí precisa aumentar os impostos, tirando do seu bolso. Não adianta se você dá com uma mão e tira com os nove dedos — disse Flávio.


O atual presidente, por sua vez, buscou acusar o adversário de falta de respeito com a população mais pobre e pediu direito de resposta devido à menção do candidato do PL à perda de seu dedo.


— Perdi o dedo trabalhando à noite. Não vou permitir que um miliciano me chame de “nove dedos”. Ele nunca trabalhou na vida, não sabe o que é uma carteira profissional — disse Lula.


Flávio também obteve direitos de resposta, nesse e em outros momentos, após ser chamado de “miliciano” pelo presidente.


O atual presidente criticou ainda, em mais de um momento, propostas de “tesouraço” do presidente argentino Javier Milei, aliado de Flávio. O candidato do PL, por sua vez, aproveitou a menção a Milei para criticar o legado de governos de esquerda na economia em países da América do Sul, como a Argentina, e buscou associá-los a Lula.


Em mais de um momento do debate, Lula hesitou para utilizar o tempo de resposta disponível, e foi lembrado pelo mediador, César Tralli, de que perderia os minutos restantes caso encerrasse sua resposta. Flávio chegou a se irritar com essa hesitação do rival e tentou interromper o presidente em alguns momentos, o que levou a mediação a repreendê-lo.


Os dois candidatos procuraram aproveitar o último embate direto desta eleição para confrontar visões de país. Flávio buscou apresentar um eventual governo com foco em “conectividade”, com propostas de expansão da cobertura de internet pelo interior do país e até em aldeias indígenas, abraçando um discurso de “renovação” em contraponto a Lula — o candidato do PL chegou a acusar o rival de “preconceito com os mais jovens”.


Lula, por sua vez, procurou ressaltar o próprio legado de políticas sociais, e frisou que sua primeira passagem na Presidência retirou o país do mapa da fome. Lula também procurou associar o adversário a um comportamento de “elite” econômica, tentando apresentar a si mesmo em contraponto a isso.


— Se tem alguém aqui que sabe o que é o mundo do trabalho, sou eu. Se tem alguém que perdeu um dedo com 17 anos fui eu, trabalhando à noite quando não podia trabalhar. Não vou permitir que um "miliciano" me chame de nove dedos — afirmou. — Ele nunca trabalhou na vida, não sabe o que é uma carteira profissional. O primeiro emprego que ele teve foi um emprego falso pelo pai dele.


Por ter sido chamado de miliciano, Flávio também ganhou um direito de resposta, mas não aproveitou o tempo para rebater o xingamento. Usou o minuto para falar sobre a causa pet.


Em outro momento, o candidato do PT disse que Flávio estava "lambendo o Trump" para o presidente dos Estados Unidos taxar o Brasil.


Durante o primeiro bloco, os dois conseguiram escapar em alguns momentos dos temas e das regiões do país que deveriam debater para entrar em outras pautas, como o custo de vida. Quando deveria perguntar sobre o Sudeste, por exemplo, Lula fez uma questão sobre salário mínimo.


Ao contrário do debate da Band, quando foi muito agressivo, Flávio passou a priorizar na Globo a tentativa de elencar promessas. A reação de Lula foi alegar, em várias oportunidades, que o adversário "não conhece o Brasil".


— Acho que ele só ouviu falar de Manaus e da região Norte quando o pai dele apareceu na televisão (na pandemia) rindo e imitando uma pessoa morrer asfixiada porque não tinha oxigênio — acusou.


Em um dos embates mais marcantes da noite, Flávio entrou no tema da segurança pública e elencou promessas na área. Na resposta, Lula citou a presença na plateia da mãe da menina Ana Clara, de 5 anos, morta numa comunidade do Rio pelo tiro de um policial que foi defendido depois pelo candidato do PL, que é advogado.


Ao responder, o filho de Jair Bolsonaro acabou chamando a mãe pelo nome da filha, "senhora Ana Clara", e disse que a situação da morte "era uma troca de tiros, a senhora sabe que tem o crime organizado aí".


O bloco final, de tema livre, acabou sendo o que mais emulou o debate anterior, marcado por ataques incessantes. Eles trocaram acusações sobre escândalos como os casos Master e Lulinha.


O contexto do debate


Tradicionalmente um momento decisivo das eleições, o encontro na Globo se dá no contexto de uma disputa acirrada e imprevisível. No último domingo, Lula e Flávio estiveram frente a frente pela primeira vez, na Band.


As pesquisas dos últimos dias mostram empate técnico entre o petista e o bolsonarista, embora Flávio ainda tenha vantagem numérica. Quando se consideram os votos totais, ele aparece com 45% na Quaest, contra 44% de Lula. No Datafolha, o placar é de 47% a 46%.


Alguns dados adicionais deixaram o cenário ainda mais indefinido. Na Quaest, o percentual de indecisos na modalidade espontânea, aquela em que o entrevistado não é apresentado ao nome dos candidatos, dobrou de 7% para 14%.


Debates são considerados fundamentais justamente para esse tipo de eleitor, que ainda está em dúvida.


Foto: Divulgação

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.