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ALERTA AMBIENTAL 1

Não foi por falta de aviso: Amazônia sufoca na fumaça; emergência chegou.

Estiagem, queimadas e rios em queda agravam situação no Pará e no Amazonas; Manaus suspende aulas e municípios paraenses enfrentam poluição do ar e escassez de água.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 23/10/26 09:00
Não foi por falta de aviso: Amazônia sufoca na fumaça; emergência chegou.
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fumaça não pede licença, não respeita divisas estaduais e não espera a burocracia terminar suas reuniões. Em outubro, Manaus passou dias sob uma camada tóxica de poluentes, com aulas suspensas e a qualidade do ar em níveis alarmantes. No Pará, Santarém e Óbidos decretaram situação de emergência, enquanto municípios mais distantes, como Muaná, também enfrentam os efeitos da estiagem. A crise se espalha, os rios baixam e respirar se transforma em preocupação cotidiana. Não foi por falta de aviso.

 

De Manaus a Santarém, além do Marajó, os rios baixam, e respirar se transforma em preocupação cotidiana/Fotos: Divulgação.

A combinação de seca prolongada, vegetação vulnerável ao fogo e queimadas agrava uma situação conhecida na Amazônia. O fenômeno climático El Niño pode contribuir para condições mais secas em determinadas regiões, mas não explica sozinho a dimensão da crise. Incêndios criminosos, uso irregular do fogo e falhas de prevenção também precisam ser investigados e enfrentados.

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Manaus é advertência

A capital amazonense vive uma das fases mais críticas do episódio entre a primeira e a terceira semanas de outubro. A fumaça proveniente de queimadas no interior do Amazonas e em outras áreas comprometeu a qualidade do ar e levou à suspensão de atividades escolares presenciais.

A concentração de partículas finas atingiu níveis considerados muito ruins e péssimos em diferentes momentos. Em 12 de outubro, a Prefeitura de Manaus informou média de 135 microgramas de partículas finas por metro cúbico. Dois dias depois, o índice divulgado pela Defesa Civil municipal era de 123,9 microgramas por metro cúbico.

As medidas de proteção alcançaram escolas e outras atividades presenciais. A fumaça deixou de ser apenas um problema ambiental para se converter em ameaça direta à saúde, especialmente de crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares.

A chegada das chuvas ajudou a melhorar as condições atmosféricas em alguns momentos, mas não eliminou o problema na origem. Sem controle dos incêndios e prevenção efetiva, a melhora pode ser apenas temporária.

 Pará também sente

No oeste paraense, a situação reúne dois problemas que se reforçam: a fumaça das queimadas e a falta de chuva. Santarém registrou apenas 6,5 milímetros de precipitação nos primeiros dias de outubro, segundo os dados reunidos para esta reportagem, diante de uma média histórica mensal de 53,8 milímetros.

A previsão de chuva insuficiente agrava a preocupação com a dispersão dos poluentes. A estiagem também afeta o abastecimento de água e dificulta o deslocamento de comunidades ribeirinhas. O rio Tapajós atingiu 1,52 metro em Santarém na segunda-feira, 19, conforme o boletim municipal citado no material de apuração. O nível estava abaixo do registrado no mesmo período do ano anterior. Embora ainda superasse marcas históricas de seca de 2023 e 2024, a descida do rio reforça o alerta sobre a vulnerabilidade da região.

Em Santarém, o Decreto nº 774/2026 reconheceu a gravidade da estiagem, que afetou o abastecimento e isolou comunidades. Em Óbidos, a seca extrema e os incêndios florestais também atingiram a agricultura e o abastecimento local.

A crise não se limita às cidades mais conhecidas. Muaná, no Marajó, está entre os municípios atingidos pelos efeitos da estiagem, enquanto Rurópolis registrou incêndio florestal que exigiu ações de controle e monitoramento da qualidade do ar.

 Prevenção esquecida

Na segunda semana de outubro, a Defesa Civil Nacional reconheceu a situação de emergência em 27 municípios atingidos por diferentes desastres. O reconhecimento federal permite que as prefeituras solicitem recursos ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional por meio do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres.

O procedimento, contudo, depende da apresentação de planos de trabalho, da análise técnica das metas e dos valores solicitados e da aprovação dos recursos. É um instrumento necessário para atender às populações afetadas, mas não substitui a prevenção nem resolve, por si só, as causas dos desastres.

No Pará, os dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, reforçam a dimensão do problema. Em 19 e 20 de outubro, o sistema registrou 571 focos de calor no estado em 48 horas. O número corresponde ao período de referência do monitoramento e não deve ser confundido com a quantidade de focos que permanecem ativos simultaneamente.

A pergunta, portanto, não é apenas quantos focos foram detectados. É onde estão, quais são as causas, quem provocou os incêndios ilegais e quais medidas estão sendo adotadas para impedir que o fogo avance.

Depois do estrago

No Amazonas, o governo federal intensificou as operações de combate aos incêndios. A instalação de um Estado-Maior Conjunto, reunindo Exército, Marinha e Aeronáutica sob coordenação do Ministério da Defesa, busca centralizar decisões, distribuir recursos e acelerar a mobilização de militares, aeronaves e equipamentos.

O Ibama também intensificou a fiscalização. Segundo os dados reunidos no material de apuração, em uma semana de outubro foram lavrados 19 autos de infração, com cerca de R$ 2 milhões em multas. Doze áreas, que somam 250 hectares, foram embargadas, e pelo menos 11 pessoas foram presas sob suspeita de envolvimento em incêndios florestais intencionais em Autazes.

São medidas importantes. Mas multas, embargos e prisões precisam ser acompanhados de investigação, responsabilização efetiva e fiscalização continuada. A ação repressiva não pode funcionar apenas como resposta emergencial depois que a fumaça cobre cidades inteiras.

A conta que chega

Quando a fumaça toma o ar, as escolas fecham, os serviços de saúde ficam sob pressão e famílias precisam alterar a rotina para reduzir a exposição aos poluentes. Quando os rios baixam, o abastecimento se torna mais difícil, comunidades ficam isoladas e a atividade econômica perde condições de funcionamento.

A recomendação às populações afetadas é evitar exercícios físicos ao ar livre, manter portas e janelas fechadas durante episódios críticos de fumaça, reforçar a hidratação e acompanhar os alertas das autoridades sanitárias. Pessoas mais vulneráveis precisam de atenção redobrada.

Mas não se pode transferir às famílias a responsabilidade de se proteger de uma crise que exige ação pública coordenada. Prevenção de queimadas, fiscalização, monitoramento atmosférico, assistência às comunidades e planejamento para a estiagem precisam funcionar antes que a emergência esteja instalada.

A Amazônia não precisa de mais um calendário de tragédias anunciadas. Precisa de políticas permanentes, recursos aplicados com transparência, responsabilização dos infratores e capacidade de antecipar os riscos. A fumaça de outubro é um alerta que não pode ser tratado como episódio isolado. Se a resposta continuar chegando depois que o fogo se espalha e o ar se torna irrespirável, a próxima emergência encontrará novamente a população pagando a conta.

Papo Reto

•A Justiça Federal deu prazo de 24 horas para a União adotar medidas e garantir acesso e participação de indígenas no segundo turno das eleições presidenciais.

•A decisão assinada pela juíza Maria Carolina Valente do Carmo deve ser observada não apenas no Pará, mas em todo o território nacional. Em caso de descumprimento injustificado das obrigações impostas, a magistrada fixou multa diária de R$ 1 milhão.

•Um foco da doença de Newcastle em Santa Catarina já provocou restrições à carne de aves brasileiras em cinco países. Malásia e México suspenderam ontem compras de todo o Brasil.

•China, Chile e Arábia Saudita restringiram produtos catarinenses. O episódio acende o alerta: no agronegócio, uma falha sanitária localizada pode virar prejuízo nacional e o tamanho do prejuízo dependerá da duração dos embargos.

•Gota d'agua num mar de fogo: com 46 municípios amazonenses ardendo e em emergência, o governo federal liberou R$ 3,5 milhões para enfrentar os incêndios.

•O socorro é necessário, mas expõe a velha tragédia amazônica: gastam-se milhões para apagar incêndios que deveriam ter sido prevenidos. Enquanto o fogo consome a floresta, a fumaça sufoca a população e a prevenção continua sendo o grande desafio

•Aliás, não faz tempo que artistas globais, cantores e ativistas ambientais faziam maior "auê" na televisão e redes sociais no tal "salvem a Amazônia". Parece que todos, sem exceção, agora comeram abiu.

•O MPF investiga se Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, revelou informações sigilosas sobre o escândalo do INSS, envolvendo um sindicato que tinha o irmão de Lula na diretoria.

•A pergunta é inevitável: se até o chefe da PF está sob suspeita, quem garante o sigilo e a imparcialidade das investigações? A lei precisa valer para todos, inclusive para quem a fiscaliza.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.