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EXTRAÇÃO?

Operação Alba: a arte de sumir no radar com ajuda do Tio Sam

Entre uma ordem judicial e um voo que não aconteceu, a fuga mais comentada de Brasília tem ingredientes de um romance de espionagem e o nome de quem puxou os fios.

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  • Por Olavo Dutra
  • 28/10/26 17:00
Operação Alba: a arte de sumir no radar com ajuda do  Tio Sam
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homem que não estava lá. Na sala de espera, quase ninguém parecia interessado no passageiro. Poucas pessoas espalhadas pelas cadeiras, luz branca, ambiente impessoal. Uma imagem começou a circular nas redes sociais, acompanhada de uma legenda categórica: Flávio Bolsonaro já estaria em solo americano.

Pressionado por ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Bolsonaro deixa o Brasil com a suposta ajuda do governo americano/Fotos: Redes Sociais-Piauí-Diário 360.
Não havia aeroporto identificado, horário verificável nem confirmação independente de que o homem fotografado fosse o senador, mas, na internet, a fotografia já tinha desembarcado antes do passageiro.

Em poucas horas, a viagem virou operação; a operação ganhou codinome; e o codinome, naturalmente, ganhou um cérebro. 

Marco Rubio, secretário de Estado de Donald Trump, foi apontado por Simón Levy, empresário e ex-integrante do governo mexicano, como o homem por trás da manobra. A Casa Branca entrou no roteiro antes que alguém apresentasse o roteiro.

Chamaram a operação de Alba. Em um romance de espionagem, seria o momento em que a câmera se afastaria da sala de espera e mostraria, do outro lado do vidro, um avião com motores ligados. Na vida real, ainda faltavam informações para saber quem estava naquela sala - e se ela sequer fazia parte da história.

Vinte e quatro horas. A cronologia, essa personagem sem passaporte, parecia ter sido escrita para um suspense. Na segunda-feira, 26 de outubro, Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse os passaportes à Polícia Federal em 24 horas e o proibiu de deixar o País.

 A decisão veio à tona pelas próprias redes do senador. Na manhã seguinte, o prazo venceu sem a entrega dos documentos, e a Polícia Federal informou que os passaportes brasileiros haviam sido cancelados.

O problema é que a notícia da viagem já circulava enquanto as autoridades ainda tentavam esclarecer por onde ele teria saído.

A hipótese de um passaporte italiano apareceu nas especulações. A cidadania estrangeira, se confirmada, não resolveria automaticamente a questão: a ordem judicial mencionada nas reportagens abrangia os documentos que deveriam ser entregues e proibia a saída do País. O ponto central não era apenas qual documento teria sido apresentado, mas como a determinação judicial foi cumprida - ou contornada.

A PF não identificara, inicialmente, registro formal da saída. A Argentina também apareceu primeiro como território sem vestígios, depois como possível passagem. Um jato executivo, matrícula conhecida, permaneceu no centro da história. Houve relatos de que o avião não decolara quando se esperava; depois, vieram informações sobre uma partida durante a madrugada.

O relógio, que costuma ser testemunha na política, pode ser cúmplice na espionagem.

O nome de Rubio acrescentou a Washington à trama. Levy afirmou que o secretário americano teria articulado a saída. A alegação ganhou força nas redes e foi reproduzida por veículos de comunicação, mas a divulgação da acusação não equivale à comprovação de seu conteúdo.

A pergunta permanece: houve uma operação coordenada por autoridades americanas ou aliados políticos anteciparam, facilitaram ou simplesmente anunciaram uma viagem que já estava em andamento?

São hipóteses diferentes. Uma conversa entre políticos não é uma operação de inteligência. Um visto concedido por um governo não prova que esse governo tenha organizado uma saída clandestina. E uma imagem sem origem confirmada não é documento de embarque. A ficção permite preencher essas lacunas. O detalhe que escapa.

O episódio lembra histórias antigas dos serviços secretos: a extração discreta, o itinerário fragmentado, a informação plantada, o passageiro que aparece em um lugar antes de ser localizado no outro. Mossad, CIA e MI5 povoaram durante décadas o imaginário de operações em que o que se sabia era quase tão importante quanto o que se escondia.

Mas os serviços têm funções distintas, e a semelhança com um roteiro clássico não demonstra sua participação. Até aqui, não há prova pública de envolvimento da CIA ou de qualquer outro serviço secreto nessa viagem.

Talvez a verdadeira pergunta não seja quem comandou a Operação Alba, mas por que tanta gente se apressou em atribuir-lhe um comandante antes de esclarecer os fatos.

E sobra uma imagem: uma sala de espera quase vazia, um passageiro que pode ou não estar ali, uma ordem judicial descumprida e uma sucessão de versões que se atropelam. Nessas histórias, o segredo é descobrir quem controla a narrativa. Às vezes, basta observar quem consegue sair de cena enquanto todos ainda discutem onde ele estava (Nota do redator: Esta é uma ficção política inspirada em fatos reais).

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.