Movimentos sociais denunciam degradação ambiental nas margens do rio e governo afirma que vegetação será recomposta e árvores, transplantadas.
Organizações de bairros e da UFPA divulgaram nota de repúdio contra perda de biodiversidade e risco de assoreamento do rio/Fotos: Divulgação.
nquanto governos de várias regiões do País reforçam medidas para enfrentar os impactos previstos do chamado Super El Niño, em Belém uma obra pública destinada justamente à requalificação ambiental tornou-se alvo de críticas por causa da retirada da cobertura vegetal às margens do rio Tucunduba.
A derrubada de árvores durante a implantação do Parque Linear do Tucunduba desencadeou protestos de moradores, pesquisadores e coletivos socioambientais, que acusam o projeto de comprometer um dos principais corredores verdes da maior bacia hidrográfica urbana da capital paraense.
No último domingo 12, organizações comunitárias dos bairros Guamá, Terra Firme, Canudos, Marco e Universitário divulgaram uma nota pública de repúdio, afirmando que o uso de máquinas pesadas eliminou grande parte da vegetação existente e agravou problemas como ilhas de calor, perda de biodiversidade e risco de assoreamento do rio.
Segundo os movimentos, é contraditório que um empreendimento apresentado como parque ambiental tenha começado justamente pela retirada da cobertura vegetal construída ao longo de décadas por iniciativas populares, universidades e organizações comunitárias.
Entre as experiências lembradas está o tradicional "Trote Ecológico" da UFPA, coordenado durante anos pelo ambientalista Camilo Vianna, já falecido. A mobilização distribuiu e plantou milhares de mudas na comunidade Riacho Doce, contribuindo para recuperar as margens do Tucunduba.
Os manifestantes também classificam a intervenção como exemplo de racismo ambiental, argumentando que os impactos recaem principalmente sobre bairros periféricos, onde as áreas verdes desempenham papel essencial na redução da temperatura, na drenagem das águas e na qualidade de vida da população.
A preocupação ganha força diante das previsões de novos períodos de calor intenso e estiagem na Amazônia. Especialistas apontam que bairros densamente urbanizados e com pouca arborização tendem a registrar temperaturas significativamente mais altas, tornando a preservação da vegetação um elemento estratégico de adaptação às mudanças climáticas.
Pouca gente sabe que a nascente do Tucunduba está preservada dentro da residência do advogado, agrimensor e defensor público aposentado Paraguassú Éleres, na travessa Angustura, no bairro do Marco. A partir dali, o rio segue canalizado sob ruas e vielas até desaguar no Guamá, separando os campi Básico e Profissional da Universidade Federal do Pará.
O governo do Estado afirma que a retirada da vegetação faz parte da implantação do Parque Linear do Tucunduba, obra orçada em R$ 96 milhões, financiada com recursos do Ministério das Cidades e contrapartida estadual.
Executado pelo Consórcio Novo Tucunduba, o projeto prevê obras de macrodrenagem, saneamento, habitação e urbanização para beneficiar cerca de 50 mil famílias dos bairros Guamá, Terra Firme, Canudos, Marco e Universitário. A conclusão está prevista para dezembro de 2028.
Segundo informações da obra, diversas árvores adultas retiradas das margens do canal foram transplantadas para os parques lineares da Doca de Souza Franco, Tamandaré e para o Parque da Cidade. O futuro parque ocupará cerca de 10 mil metros quadrados e contará com quadras esportivas, playground, academia ao ar livre e biblioteca.
Apesar disso, os movimentos sociais defendem a criação de comitês populares para acompanhar a execução do projeto e garantir que a urbanização seja compatível com a preservação das poucas áreas verdes remanescentes na bacia do Tucunduba.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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